6 de julho de 2026

O elogio da filosofia inútil, por Wesley Sousa

A FENEFIL vem denunciado o PL 4088/2023. Esse Projeto de Lei representa mais um passo na fragmentação das Ciências Humanas na educação básica.
O Pensador, de Auguste Rodin. Localizado no Musée Rodin, Paris.

A Filosofia é desvalorizada na educação, vista como inútil por não gerar retorno econômico imediato.
PL 4088/2023 reduz carga horária de Filosofia e Sociologia, criando Educação Política obrigatória na educação básica.
Filosofia fortalece pensamento crítico e compreensão social, essenciais para enfrentar a complexidade do mundo atual.

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O elogio da filosofia inútil

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por Wesley Sousa[1]

Há palavras em cujo destino histórico consiste em serem transformadas em insulto. “Inútil” tornou-se uma delas[2]. Basta que um saber não apresente retorno econômico imediato para que seja acusado de improdutivo, dispensável ou mesmo ornamental. No capitalismo, sobretudo, o saber é utilitário e mercadológico. Entre todos os campos do conhecimento, talvez nenhum experimente essa desqualificação de maneira tão persistente quanto a Filosofia (e, ainda, as ciências humanas; porém, restrinjo-me à minha área de formação).

Não deixa de ser sintomático que uma sociedade que tanto produz meios de sua “emancipação” tenha passado a desconfiar da atividade que interroga seus próprios fins. Não por acaso, o problema não consiste apenas na redução da carga horária da disciplina ou em reformas curriculares que desgraçadamente a relegam à condição de conteúdo periférico ou “desimportante”. O sintoma é mais profundo: perdeu-se a convicção de que pensar constitui um bem público.

A situação me faz recordar uma velha advertência do filósofo holandês Erasmo, ainda no século XVI: em seu Elogio da Loucura[3], grosso modo, a verdadeira insensatez não reside naquele que se entrega ao pensamento, mas naquele que governa ignorando os fundamentos do próprio mundo que pretende administrar. A incapacidade de pensar nunca foi um detalhe administrativo; sempre foi um problema de ordem social.

Apesar disso, está consolidado entre nós a celebração e uma adaptação permanente: desconfia-se da reflexão, ao passo que se estimula a flexibilidade, mas despreza-se a formação; exalta-se a competência técnica, enquanto a crítica aparece como obstáculo ao progresso. A escola (vide as chamadas “escolas técnicas”) é concebida como centro de treinamento para ocupações futuras, não como lugar de formação de sujeitos capazes de compreender o mínimo da sociedade em que vivem.

Essa lógica repousa sobre um equívoco antigo: imaginar que existe uma oposição entre teoria e prática. Francis Bacon[4] já advertia que nenhuma prática consistente pode prescindir da elaboração teórica. O conhecimento não nasce da repetição de procedimentos, mas da lenta construção de conceitos que permitem compreender a realidade para então transformá-la. Quando a teoria é considerada um luxo, também a prática se empobrece, reduzida à mera execução de tarefas previamente definidas. Paradoxalmente, é também Bacon um dos precursores do chamado “método experimental” da ciência moderna.

É aqui nesse ponto que a Filosofia se torna incômoda. Ela interrompe a velocidade das respostas prontas; ela interroga as próprias questões dos tempos. Pergunta pelas razões daquilo que todos aceitam como evidente. Examina os pressupostos ocultos das decisões econômicas e morais. Num tempo em que tudo precisa ser mensurável, sua insistência na demora do pensamento aparece quase como um escândalo. Entretanto, nenhuma sociedade sobrevive apenas pela competência ou agência técnica. Engenheiros calculam pontes, mas podem permanecer incultos sobre seus usos sociais; médicos dominam procedimentos, mas podem se manter reacionários e analfabetos científicos; programadores escrevem algoritmos, mas permanecem como operários na cadeia de sucção da mais-valia, etc.

Mas quem examina os critérios pelos quais essas decisões serão tomadas? Quem discute o caráter arbitrário da justiça, a suposta liberdade e assimetria da igualdade? Essas perguntas, claro, não desaparecem porque deixamos de ensiná-las. A desvalorização da Filosofia revela, assim, uma concepção estreita de educação. Forma-se o trabalhador, prepara-se o executor, mas não o sujeito capaz de pensar a própria vida; multiplica-se a informação, enquanto diminui a capacidade de compreender suas conexões. Confunde-se conhecimento com treinamento, inteligência com eficiência e educação com a caduca “empregabilidade”.

Talvez essa seja a forma contemporânea daquilo que Erasmo chamava de mundo às avessas: considera-se supérfluo justamente o saber que possibilita compreender todos os demais. Aquilo que deveria ocupar posição fundante converte-se em apêndice curricular. A disciplina cuja função consiste em examinar os próprios fundamentos do conhecimento passa a ser acusada de não produzir resultados. Uma aula de Filosofia não gera lucro no trimestre/semestre seguinte. Ela produz algo muito mais lento e, justamente por isso, muito mais duradouro: a capacidade de argumentar, decodificar conceitos em um texto, distinguir aparência e essência, reconhecer as contradições nas interseções entre a vida pessoal e ambiente circundante, organizar conceitualmente problemas da ordem prática, resistir ao reacionarismo religioso e recusar a manipulação ideológica pelas figuras que dominam o cenário político-econômico.

Não surpreende, portanto, que projetos educacionais orientados pela racionalidade econômica vejam com desconfiança a presença da Filosofia. O pensamento crítico nunca foi funcional ao conformismo. Uma população habituada a perguntar pelas razões das normas e das instituições, das desigualdades e do lixo ideológico que nos rodeia torna-se menos domesticada pela propaganda, pela simplificação e pelo ressentimento. Defender a Filosofia na educação básica – mas não só – significa reconhecer que toda cultura (ao menos Ocidental) depende da existência de pessoas e instituições que formam também uma cultura letrada. Em nosso país, onde a maioria é semianalfabeta funcional, a escola converteu-se em agência de qualificação profissional – quando muito –, enquanto a sociedade perde sua capacidade de compreender a si mesma. Não por acaso quando mais acesso aos bens sociais da cultura, mais acesso às letras, às artes e à própria filosofia.

Nessa esteira, a FENEFIL (Federação Nacional de Estudantes de Filosofia)[5] vem denunciado o PL 4088/2023. Esse Projeto de Lei representa mais um passo na fragmentação das Ciências Humanas na educação básica. Em vez de fortalecer a Filosofia, a Sociologia, a História e a Geografia, o projeto amplia a “disputa” pelo pouco que resta no currículo das Ciências Humanas. O PL 4.088/2023 foi aprovado no Senado em 17 de junho de 2026 e aguarda sanção presidencial até 13 de julho. O projeto cria o componente curricular obrigatório Educação Política e Direitos da Cidadania na Educação Básica. A Filosofia e a Sociologia enfrentam redução de carga horária, com a adoção da BNCC (Base Nacional Comum Curricular (Brasil, 2017).  Em muitas escolas elas não existem na prática. Durante a ditadura militar, retiraram Filosofia e da Sociologia para colocar no lugar disciplinas como Educação Moral e Cívica e OSPB para promover uma determinada “formação cívica” sob controle moral e executivo do Estado.

Finalizando, o ato judicativo é claro, pois reside no paradoxo evidente e sintomático: quanto mais complexo se torna o mundo, menos tempo temos para compreendê-lo. É o tempo do capitalismo que devora a tudo e a todos. E talvez seja por isso que a Filosofia se torne hoje mais necessária do que nunca, mesmo num espaço restrito. Não porque ela ofereça respostas definitivas, mas porque preserva aquilo que nenhuma sociedade pode abandonar: o exercício paciente, rigoroso e público do pensamento. Hoje, infelizmente, o “elogio” que persiste é o da mediocridade.


[1] Doutorando em Filosofia pela UFMG.

[2] Escrevo esse texto em referência ao texto de Maria Sylvia de Carvalho Franco. Título: “Elogio da loucura”, para a Folha de São Paulo, no “Caderno Mais” (27/06/1999):  < https://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs27069908.htm >. Embora em outro contexto, o problema do sucateamento da pesquisa no Brasil persiste, mesmo que em outra ordem.

[3] ERASMO. Éloge de la Folie et autres écrits. Paris: Gallimard, Folio classique, 2010.

[4] BACON, Francis. Du progrès et de la promotion des savoirs (De dignitate et augmentis scientiarum). Traduction de Michèle Le Doeuff. Paris: Gallimard, 1991.

[5] < https://www.instagram.com/fenefil/ >

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