do Observatório Internacional do Século XXI
O “Escudo das Américas”
por Wagner Sousa
A nova Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos, lançada em 2025, diz explicitamente que o país tem a necessidade de assegurar o controle sobre o Hemisfério Ocidental, as Américas. Potências externas como Rússia e principalmente China, que aumentaram a presença na região nas duas últimas décadas, de forma bastante expressiva no segundo caso, não podem, nesta visão, disputar a supremacia regional com os EUA.
É neste contexto geopolítico de disputa na região, que já trazia uma tendência de postura mais intervencionista dos EUA, também nas administrações democratas, mas que neste segundo mandato de Donald Trump e seu governo de extrema-direita ganhou contornos bem mais agressivos, que foi lançada a iniciativa “Escudo das Américas”, em Miami, em março de 2026, com a presença de governantes de direita da América Latina (os mandatários de esquerda do Brasil, México e Colômbia não foram convidados), alinhados à estratégia estadunidense e que demonstraram nesta ocasião, inclusive, uma postura bastante subserviente ao mandatário de Washington.
Com a justificativa do combate aos cartéis de drogas, elevados à condição de “ameaça à segurança nacional” dos EUA e vários deles denominados “narcoterroristas”, o governo Trump militarizou uma questão que por definição é policial e demanda cooperação das forças policiais dos países envolvidos para ser enfrentada em nível internacional.
Como destacado por especialistas em segurança, a definição de organizações criminosas como o Primeiro Comando da Capital e o Comando Vermelho como terroristas desloca a questão para o âmbito do Pentágono e da CIA, os militares e a inteligência, portanto, o que dificulta o acesso a informações relevantes por parte dos órgãos de segurança do Brasil. Além disso, há o temor de ações unilaterais de intervenção, preocupação exposta recentemente pelo Itamaraty ao responder ao questionamento da Câmara dos Deputados. Brasil e México, os maiores países da América Latina e que não fazem parte da iniciativa do Escudo das Américas, têm procurado se mostrar dispostos a cooperar na área. Tem havido ações conjuntas entre as forças policiais, como historicamente sempre ocorreu, mas num contexto de bastante incerteza. No Equador, por exemplo, o governo conservador do país realizou operações integradas inéditas com militares dos EUA, apesar da Constituição do país proibir a presença de tropas estrangeiras em solo nacional.
O que os EUA querem economicamente para a região? Diferentemente do pós-guerra, quando apoiaram o desenvolvimentismo na América Latina como contraposição ao comunismo, ou seja, concessões de caráter progressista para a manutenção da hegemonia e do sistema capitalista nestes países (o que durou até o início dos anos 1990 quando o “perigo vermelho” desaparece e vêm o Consenso de Washington e as “reformas” neoliberais), o governo Trump entende que precisa de Estados dependentes, alinhados, fora da esfera de influência chinesa e abertos aos seus interesses. A administração atual, protecionista, quer acesso a minerais raros, petróleo e outros insumos, vários deles importantes para a transição energética e para a sua indústria, inclusive bélica. Mas quer governos que propiciem que estes insumos possam ser processados, em sua maior parte, nos EUA. Aqui tem-se uma diferença importante em relação ao período de Bush pai ao final de Obama (1989-2017), pois os Estados Unidos se colocavam como defensores ideológicos do livre mercado e da globalização, buscavam acordos de livre comércio e, a despeito de sempre terem buscado acordos muito assimétricos em seu benefício, tinham em conta a necessidade de certas concessões em favor de maior abertura de setores de seu mercado interno.
Já na dimensão securitária, a atual administração republicana tem no seu “Escudo das Américas” um projeto intervencionista de reafirmação, pode-se dizer, imperial no continente. O apoio à eleição de governantes de direita identificados com a agenda dos EUA e a identificação de cartéis criminosos como “terroristas” dando ao problema contornos militares, com o sempre elástico e conveniente conceito de “segurança nacional” para problemas de vários matizes, conforma a construção dos meios e do suporte local necessário para a consecução desse objetivo. A questão da imigração também tem grande peso, pois vai além do aumento da repressão interna aos imigrantes, a maioria latino-americanos. O governante de direita autoritário Nayib Bukele, de El Salvador, com uma política de aprisionamento em massa que levou o país a ostentar a taxa de encarceramento mais alta do mundo (algo em torno de 2,5% da população adulta está na cadeia), com muitas denúncias de prisões arbitrárias e desrespeito aos direitos humanos, tornou-se uma espécie de modelo para a extrema-direita da região e também funcional para a política anti-imigração dos EUA, que querem evitar fluxos migratórios chegando à sua fronteira sul e contam com esses governos aliados para esse intuito.
Mas a principal motivação deste agressivo movimento por parte dos EUA tem relação com sua disputa hegemônica global com a China e a percepção de ocupação de espaço na região. O estoque de investimentos chineses na região já soma 130 bilhões de dólares, sendo mais de 85 bilhões no Brasil. O país asiático é o principal parceiro comercial da maior parte dos países da região e o segundo, atrás dos EUA, se considerarmos a América Latina e o Caribe em conjunto, pelo comércio que os Estados Unidos têm com o México.
A região também se tornou parte da Belt and Road Initiative (a nova Rota da Seda), que reúne projetos de infraestrutura física e digital em mais de 100 países e até 2024 reunia investimentos de mais de 1 trilhão de dólares. Panamá, Venezuela, Peru, Bolívia e Chile aderiram a partir de 2017. E foi o Panamá, o primeiro a aderir, que após visita do secretário de Estado Marco Rubio, no início da segunda gestão Trump, foi forçado a desistir de fazer parte deste projeto. Washington tem pressionado diferentes países a rever suas associações com a China em áreas como minerais raros ou questionado a presença chinesa em projetos como o Porto de Chancay, no Peru, que alega poder ter “uso duplo” e ser utilizado por navios militares. Além da ameaça de tarifas de 60% dos produtos saídos do porto, os EUA aprovaram 1,5 bilhão de dólares para a modernização da base naval de Callao, próxima a Lima, como contraponto à influência chinesa na região.
Contudo, a despeito de terem aderido à iniciativa do Escudo das Américas, mesmo essas lideranças conservadoras têm uma visão mais pragmática das relações com a China, como Javier Milei, que as mantém, haja vista o grande intercâmbio comercial entre Argentina e China ou ainda o presidente chileno José Antonio Kast, que também tem buscado o diálogo com Pequim e a diversificação de parcerias, como os entendimentos com os europeus para exploração de minerais raros e a presidente eleita do Peru, Keiko Fujimori, que já se declarou entusiasta do Porto de Chancay, como fundamental para o desenvolvimento do país e “plataforma logística do Pacífico Sul”. No primeiro mandato de Trump, a pressão para que os países da região não adquirissem equipamentos de telecomunicações da chinesa Huawei para implantação das redes 5G (com a alegação de risco de espionagem) e sim de empresas de países aliados como Ericsson ou Samsung não funcionou, pelos custos da troca total das redes (que já eram, na maioria, da empresa chinesa) e atraso na implementação do novo padrão. Então temos um jogo complexo, em que a adesão aos esforços securitários dos EUA não significa que se queira rompimento econômico com o principal parceiro comercial e importante investidor. O que se verá nos próximos anos é se a pressão estadunidense se traduzirá em eventual imposição de penalidades, sanções ou até mesmo intervenção militar.
Outro ponto importante é que esses governos de direita e extrema-direita e suas políticas econômicas que não trazem às maiorias possibilidades de melhoria real de vida perdem sua legitimidade rapidamente, como se está vendo no Chile e na Bolívia, com grandes protestos. A direita governa ou vai em breve governar a maioria dos países da região, com exceção dos dois maiores, Brasil e México, e do Uruguai. A Venezuela chavista está sob tutela dos EUA. A democracia certamente será colocada à prova na região e veremos se teremos alternância de poder (com a volta da esquerda) ou se a continuidade se dará dentro das regras. A necessidade de dominação hemisférica pode, eventualmente, prescindir das regras.
Wagner Sousa – Doutor em Economia Política Internacional pela UFRJ. Pós-Doutorado em Relações Internacionais pela Unesp. Atualmente é pós-doutorando em Economia Política Internacional na UFRJ com pesquisa sobre a política externa alemã e suas relações com grandes potências (EUA, Rússia e China).
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