O fascismo é um monstro de duas cabeças, por Wilson Luiz Müller

O monstro tomou o poder e agora uma cabeça precisa desesperadamente devorar a sua gêmea. É da natureza do fascismo o não compartilhamento de poder.

O fascismo é um monstro de duas cabeças

por Wilson Luiz Müller

Nos últimos meses foram publicados vários artigos abordando o tema do fascismo. Este texto pretende ser uma contribuição ao debate, e teve como inspiração um estudo publicado por Eduardo Szklarz, em 30 de junho de 2005 e republicado em 26 outubro de 2018, sob o título “As cinco ideias por trás do Nazismo”. 

Eduardo Szkkarz é jornalista e mestre em relações internacionais. O estudo dele desmistifica uma ideia típica do senso comum de que o  nazista – ou fascista –  é uma pessoa repugnante, capaz de ser  reconhecida como tal à distância.

Eduardo começa falando da vida cotidiana de Julius Wohlauf, comandante da 1ª Companhia do Batalhão 101, o mais sanguinário corpo de extermínio nazista. Seu trabalho era mandar judeus para a morte e fuzilar poloneses. Sua esposa Vera, grávida de 4 meses, assistia aos fuzilamentos de dia. À noite, o casal cantava e dançava nas festas do batalhão.

Como essas pessoas conciliavam sua vida com a rotina de assassinatos? Como milhões de pessoas participavam disso sem protestar? A resposta está no nazismo.  “O nazismo não é uma ideia louca vinda do nada e sumida para sempre. Ele é consequência de cinco outras ideias – todas aparentemente inofensivas sozinhas, todas vivas até hoje.”

Tendo como inspiração essas cinco ideias, e concordando com os pesquisadores de que cada época tem o seu tipo de fascismo, desenvolvo algumas hipóteses de como a Lava Jato se constituiu em um dos pilares do fascismo no Brasil.

A 1ª ideia: eu sou a lei e ela vale para todos 

No estudou de Eduardo Szklarz, a primeira ideia do nazismo era a do “carimbo da ciência”, utilizando o conceito de eugenia para justificar a superioridade da “raça ariana”.

A ideia da eugenia – supremacia dos bem nascidos – está presente na Lava Jato na noção da necessidade de limpeza do sistema politico. Os agentes da limpeza, integrantes da Lava Jato, são todos bem nascidos e instruídos. Eles não precisam se submeter a disputas políticas, consideradas rasteiras, pois lograram passar em concursos públicos para cargos que lhes dão uma sensação de poder absoluto. Sua ação, prolongamento de suas crenças e do poder que emana do seu cargo, não é passível de qualquer questionamento ou insubmissão.

A lei ocupa para eles o lugar que a ciência ocupava para os nazistas. Eles manejam a lei e decidem como e contra quem aplicá-la. A lei está do lado deles e tem um valor absoluto, científico. Eles são a lei. Ao se fundirem com a lei, apresentam-se como seus porta-vozes exclusivos; tornam-se unidade com o estado.

Desde 2016, Dallagnol e outros procuradores vinham organizando entidades que defendessem as posições dos procuradores na sociedade civil. O Instituto Mude foi organizado com laranjas a serviço deles. Patrícia Coelho, “investidora anjo” do Mude apareceu nas investigações da Operação Lava Jato, e foi Deltan Dallagnol quem deu a notícia para os colegas, no dia 25 de outubro de 2017.

Deltan: “ela está investindo 1 MM (um milhão) no Mude. Não é algo de que se possa abrir mão se ela não estiver enrolada.” […]

(O problema é que a empresa de Patricia e seus sócios estavam enrolados. Mas, ao final somente os sócios de Patricia foram denunciados, ela não).

Deltan: “Ouvindo sobre o caso superficialmente, não posso afirmar que ela esteve envolvida ou que será alvo, mas há sinais ruins. É possível que ela não tenha feito nada de errado, mas talvez seja melhor evitar novas relações com ela ou a empresa dela, por cautela”, escreveu, e concluiu: “Eis que vos envio como ovelhas ao meio de lobos; portanto, sede prudentes como as serpentes e simples como as pombas”.

Se a citação bíblica não escancarasse o  típico falso moralismo dessa turma, daria uma boa discussão sobre quem seriam as ovelhas, os lobos, as serpentes e as pombas. Coitados dos bichos tão indecentemente comparados.

A tentativa de criar a Fundação Lava Jato, em 2019, deu-se no contexto da confiança absoluta dos integrantes da Lava Jato de que nada mais poderia detê-los. Estava tudo acertado para se apropriarem de R$ 2,5 bilhões de recursos da União, defenderam publicamente  o acordo vergonhoso, retribuição das autoridades estadunidenses por terem ajudado a tungar a Petrobras em R$ 15 bilhões. O acordo acabou sendo suspenso pelo STF.

Esse histórico demonstra a pretensão que tinham os lavajatistas de se constituir em substitutos das organizações da sociedade civil, inclusive dos seus partidos, pois a fundação seria na prática o partido político da Lava Jato. Eles pretendem ser a convergência do que está disperso, o  feixe de varas amarradas formando um cabo maciço, na ponta um  martelo aplicando o golpe certeiro. Eles se autodefinem como o símbolo clássico do fascismo.

Para os comandantes da Lava Jato, os que precisam disputar cargos políticos no jogo democrático são pessoas sem qualidades positivas, sem condições de obter um padrão de vida melhor por meios honestos, pois a política para os lavajatistas têm uma essência negativa. O centro do poder, constituído por políticos de esquerda, funciona apenas como confirmação de suas crenças,  pois  a esquerda encarna, para eles, a negação dos valores corretos do ponto de vista da classe dos bem nascidos.

Os integrantes da Lava Jato aplicam a lei como os fariseus manejavam as escrituras sagradas. Os que fazem uma leitura diferente recebem o rótulo de hereges, de defensores do império romano, ou no  caso em tela, de defensores de bandidos. O resultado dessa crença e atuação resulta num sistema judicialesco em que o investigado, ao ser informado da acusação, recebe simultaneamente a notícia da sua condenação.

Interessante observar que o conceito de eugenia – a pureza que garante a supremacia dos cidadãos de bem – é marcante inclusive na composição do grupo de servidores que comanda a  Lava Jato. Nos diálogos divulgados pelo dossiê Intercept nunca aparece uma divergência de fundo que revele um conflito ideólogo, seja de classe ou de qualquer outra ordem.  Nem mesmo um posicionamento crítico de alguém, meramente legalista, dizendo: “pera aí! Mas isso não serve como prova”. “Mas esse método não é legal!” “Mas isso que estamos fazendo é a corrupção do sistema legal!” Nada. Pensamento uníssono, uma igrejinha de fanáticos onde a lei é representada pelo pensamento e opinião do líder. O líder é a lei. O líder é juiz, procurador e investigador. Tudo ao mesmo tempo. Como foi possível que se formasse na Lava Jato um grupo de trabalho tão eugênico e puro, com um poder capaz de confrontar e enquadrar o Supremo Tribunal Federal?

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O pensamento retratado nas conversas, sobre o cenário político, coincide com a retórica de Bolsonaro, que também representava o anti-sistema, apesar de fazer parte do sistema político por 30 anos. Lavajatistas e bolsonaristas comungam de um ideário comum. A eleição de Bolsonaro representou esse pensamento da limpeza, da necessidade de os cidadãos bem nascidos ocupar o lugar antes ocupado por gente inferior e desqualificada. Foi o que o procurador aposentado Santos Lima confessou há poucos dias: que Bolsonaro era o candidato da Lava Jato. Alguns exemplos nos diálogos divulgados pelo The Intercept:

Deltan para Moro: “Você hoje não é mais apenas um juiz, mas um grande líder brasileiro (ainda que isso não tenha sido buscado). Seus sinais conduzirão multidões, inclusive para reformas de que o Brasil precisa, nos sistemas político e de justiça criminal. Sei que vê isso como uma grande responsabilidade e fico contente porque todos conhecemos sua competência, equilíbrio e dedicação.”

Moro: “ Ainda desconfio muito de nossa capacidade institucional de limpar o congresso. O melhor seria o congresso se autolimpar mas isso nao está no horizonte. E nao sei se o stf tem força suficiente para processar e condenar tantos e tao poderosos.”

Deltan:. “A sociedade quer mudanças, quer um novo caminho, e espera líderes sérios e reconhecidos que apontem o caminho. Você é o cara”.

Procurador Santos Lima: “meus vazamentos objetivam sempre fazer com que pensem que as investigações são inevitáveis e incentivar a colaboração.”

A 2ª ideia: o ódio contra a esquerda

No nazismo de Hitler era o ódio ancestral contra os judeus. Na Lava Jato é o ódio contra a esquerda, simbolizada pelo PT. A origem está no processo histórico de formação da sociedade brasileira: o não reconhecimento de cidadania para os escravos negros. Eles foram  libertados por lei, porém continuaram a ser desprezados e marginalizados. O reconhecimento prático da cidadania dos negros implicaria a igualdade real com os demais cidadãos brancos. A classe média é constantemente assaltada pelo medo da ascensão das classes pobres. A inclusão social dos marginalizados pelo capitalismo é uma bandeira da esquerda, e isso a torna alvo da repulsa dos setores da classe média que se espelham nos valores da autoproclamada elite brasileira.

As pautas humanitárias defendidas pela esquerda também são vistas por esses setores médios como sinônimo de defesa dos bandidos. Como não são os seus filhos que são amontoados nas masmorras dos presídios, como não são eles que morrem aos montes em decorrência da violência urbana e policial, a classe média  não tem empatia com essas realidades de sofrimento das populações vulneráveis. Por isso torna-se suscetível à propaganda fascista, cujas soluções apontam sempre para mais repressão policial, maior rigor penal, mais encarceramento de pobres. Tudo isso é visto como limpeza. Se tiver dois milhões de encarcerados não tem problema, desde que não se ouça falar disso diariamente.

A perseguição movida contra Lula, com inúmeros  processos e denúncias, é a síntese desse ódio que uma parte expressiva da classe média cultiva em relação à esquerda.  Basta  que ele visite um apartamento à venda para que lhe imputem uma acusação de corrupção por alguma vantagem, que sequer precisa ser identificada. Quando ele profere palestras, então é pagamento de propina disfarçada.  Lula dava palestras quando já era ex-presidente, não havendo portanto nenhuma ilicitude, como aliás é comum entre os ex-chefes de estado em todo mundo. A tentativa de criminalização das palestras dadas por meio do Instituto Lula é caso inédito no mundo, típico de uma farsa judicialesca.

Mas a acusação feita aos alvos da esquerda não vale quando se trata de situações envolvendo os cidadãos bem nascidos e instruídos da classe média, mesmo quando essas são antiéticas ou mesmo ilegais. Quando eles fazem palestras secretas para banqueiros, para passar informações privilegiadas de que tem acesso em decorrência de seu cargo público, recebendo por isso um bom cachê que valoriza sua carreira  de palestrante – que rende 400 k por ano – , então essa ação passa a ser de combate à corrupção.

As inúmeras frentes de perseguição contra o ex-presidente Lula tinham o claro propósito de lhe impor a prisão perpétua – na versão clássica defendida pelo bolsonarismo, inclusive pelo general Heleno, de que Lula tinha que apodrecer na cadeia.

Alguns exemplos de diálogos  que demonstram o ódio dos integrantes da Lava Jato pela esquerda:

Deltan Dallagnol: “Um amigo de um amigo de uma prima disse que Marisa chegou ao atendimento sem resposta, como vegetal”. (Sobre o aneurisma da esposa de Lula).

Januário Paludo: “A propósito, sempre tive uma pulga atrás da orelha com esse aneurisma. Não me cheirou bem. É a segunda morte em sequência”.

Paludo: “Estão eliminando as testemunhas”.

“O safado só queria passear”. (Sobre Lula acompanhar o enterro do irmão)

Antônio Carlos Welter:  “a morte da Marisa fez uma martir [sic] petista e ainda liberou ele pra gandaia sem culpa ou consequência politica”. (referindo-se ao Lula)

Thaméa Danelon, criticando a participação da procuradora Eugênia Augusta Gonzaga no velório da ex-primeira-dama: “É como um colega ir ai enterro da esposa do líder de uma facção do PCC. No mínimo inapropriado”.

Roberson Pozzobon disse que Lula estava tentando utilizar a morte do neto como “uma estratégia para se humanizar”. “Como se fosse possível no caso dele”.

Carol PGR – “ando muito preocupada com uma possivel volta do PT, mas tenho rezado muito para Deus iluminar nossa população para que um milagre nos salve.

Deltan Dallagnol –  Valeu Carol! Reza sim. Precisamos como país.

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3ª ideia: corrupção é o maior problema do país

O nacionalismo cumpriu para o nazismo o papel unificador que justificaria uma série de crimes cometidos pelos nazistas, pois no final tudo estava sendo feito para a grandiosidade da nação. Para o êxito da Lava Jato foi necessário que a população brasileira fosse convencida de que a corrupção era o principal problema do Brasil. Durante anos, a corrupção foi superdimensionada pela grande mídia e apresentada como o principal entrave ao desenvolvimento do país. Não fosse a corrupção teria dinheiro à vontade para resolver todos os problemas. Sem derrotar primeiro a corrupção, não haveria solução.

Construiu-se a fantasia de que o combate à corrupção tinha uma relação direta com a defesa do Estado mínimo, pois quanto maior o Estado, maior era a possibilidade de corrupção. Com o fim da corrupção viria a redução da carga tributária, pois o dinheiro dos impostos não seria desviado em roubalheiras.

Criado o grande problema da nação, apresenta-se a Lava Jato como solução. Em cima dessas promessas, assimiladas pela população, a Lava Jato construiu a sua aliança com os movimentos ultraliberais de extrema-direita, como o Movimento Brasil Livre – MBL e o Vem pra Rua. O que veio depois, a destruição do sistema político (cujo alvo central era o PT), a falência de empresas, o aumento do desemprego, as prisões injustas e os excessos fora da lei, a destruição das instituições estatais, tudo era justificado em nome do combate à corrupção.

A propaganda ideológica foi tão forte que os próprios propagadores passaram a acreditar que tudo seria facilmente resolvido após a derrota da “esquerda corrupta”. Logo depois da eleição de Bolsonaro, o general Heleno, um dos principais líderes do bolsonarismo, em entrevista à CBN, disse que tem “a impressão de que vai aparecer dinheiro” quando houver uma gestão mais efetiva na área pública.

O ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni , aliado de primeira hora da Lava Jato – e um dos políticos poupados por ela -, anunciou no início de janeiro a exoneração de todos os ocupantes de cargos de confiança com a finalidade de iniciar uma “despetização” da pasta. A finalidade da adjetivação era caracterizar os petistas como insetos (os nazistas chamavam os judeus de ratos), além de reforçar a ideia de que a máquina pública não funcionava a contento por causa da esquerda, isso a despeito do PT ter sido derrubado do governo três anos antes.

Colocar a corrupção no centro do debate público tinha também a importante função de defesa dos privilégios da autoproclamada elite brasileira, pois o tema da corrupção escamoteia o problema central do capitalismo, que é desigualdade social, responsável pela interminável luta de classes. Com a manipulação da grande mídia em torno do tema da corrupção, a escandalosa concentração de riqueza na mão de um número reduzido de bilionários causava menos indignação do que os desvios pontuais de recursos públicos em programas sociais como o Bolsa Família e o Minha Casa Minha Vida.

4ª ideia:  manipulação midiática (a grande inovação)

O holocausto nazista foi uma obra da fria modernidade. Quando os nazistas se deram conta de que não seria possível eliminar 11 milhões de judeus na Europa com fuzilamentos, tiveram que criar uma solução mais eficiente. As câmaras de gás vieram como solução tecnológica. Auschwitz era uma fábrica de matar – tinha capacidade para queimar 4756 corpos por dia.

A produtividade e a eficiência da Lava Jato dependiam do apoio da opinião pública. Para isso foi necessário estabelecer uma relação de parceria com a grande mídia corporativa, que passaria a funcionar como correia de transmissão dos interesses da Lava Jato. Foram necessárias inovações tecnológicas (sistema acusatório e judicial manipulando a opinião pública) e mudanças nas leis para que a Lava Jato atingisse seus objetivos.

Em 29/12/2015, a Folha de São Paulo fez uma análise comparativa entre o que defendia o juiz Sérgio Moro, num artigo publicado em 2004, “Considerações sobre a Operação Mani Pulite” [Operação Mãos Limpas], com o que estava acontecendo na Lava Jato em 2015. Os princípios defendidos por Moro no artigo em 2004 estavam sendo usados como manual operacional na Lava Jato em 2015. Alguns trechos do artigo de Moro:

“Uma nova geração dos assim chamados ‘giudici ragazzini’ (juízes jovenzinhos), sem qualquer senso de deferência em relação ao poder político (e, ao invés, consciente do nível de aliança entre os políticos e o crime organizado), iniciou uma série de investigações sobre a má-conduta administrativa e política”.

(OBS: em 2004, 10 anos antes de iniciar a Lava Jato, Moro já partia da premissa de existir uma aliança entre os políticos e o crime organizado, princípio que seria largamente utilizado pela Lava Jato contra o PT, principalmente a partir de 2014).

“Os responsáveis pela Operação Mani Pulite ainda fizeram largo uso da imprensa. …[. ].

..a investigação da ‘mani pulite’ vazava como uma peneira.”

“.. os vazamentos serviram a um propósito útil. O constante fluxo de revelações manteve o interesse do público elevado e os líderes partidários na defensiva”.

“A publicidade conferida às investigações teve o efeito salutar de alertar os investigados em potencial sobre o aumento da massa de informações nas mãos dos magistrados, favorecendo novas confissões e colaborações. Mais importante: garantiu o apoio da opinião pública às ações judiciais, impedindo que as figuras públicas investigadas obstruíssem o trabalho dos magistrados…”.

(OBS: quem se opunha à  Lava Jato era enquadrado no crime de obstrução da justiça. Telefones de advogados de investigados eram grampeados. Para a Lava Jato, discutir estratégias de defesa era o mesmo que cometer crime de obstrução da justiça. Na prática, a Lava Jato tinha a pretensão de proibir que os investigados tivessem direito à defesa).

Em entrevista a Roberto D’Avila/Globo News, em 07/12/2018, Onyx Lorenzoni revelou que Moro arquitetou o plano para prender Lula ainda em 2005, depois de frustrada a primeira tentativa durante o processo do chamado mensalão.

“A minha relação com Sérgio Moro vem de dezembro de 2005. Eu era sub-relator das Normas de Combate à Corrupção da CPI dos Correios, e convidei o Moro […] naquela época porque a 13ª Vara de Curitiba era – e continua sendo – a única que cuida de lavagem de dinheiro no Brasil”.

“aí ele [Moro] trouxe uma série de contribuições, e duas muito relevantes, que o pessoal de casa vai entender agora: a primeira que ele pediu, em 2005, foi a atualização da Lei de delação premiada, que levou sete anos pra fazer. A outra [contribuição], a transformação do crime de lavagem de dinheiro de crime acessório para crime principal”.

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“Os dois fatores – a lavagem de dinheiro como crime principal, e a revisão da lei de delação premiada – foram a diferença entre no ‘mensalão’ não ter chego no Lula, e no ‘petrolão’ ter chegado no Lula”

Comentário FSP, em 2015:

“Neste ano, conforme o Datafolha, o tema corrupção passou a ser visto pelos brasileiros, pela primeira vez, como o principal problema do país. .. o ministro Teori Zavascki, já afirmou que há “um perigoso canal de vazamento” de informações sigilosas para beneficiar pessoas poderosas”.

Visto e documentado, é fato público que Moro trabalhou incansavelmente por 14 anos para encarcerar Lula. Por isso virou herói nacional da autoproclamada elite brasileira e dos setores da classe média que nela se espelham.

A máquina de propaganda montada pela Lava Jato guarda semelhanças com a máquina nazista de manipulação de massas. Servidores estatais bem pagos passaram a ser vendidos como heróis nacionais trabalhando duro para limpar o país da corrupção. Juízes e procuradores ocupavam capas de jornais, revistas e muitas horas diárias dos telejornais.

A famosa foto dos procuradores, alinhados em forma de flecha ponteada por Dallagnol, foi capa de centenas de revistas e jornais país afora, virou painel em Curitiba, custeado – sabe-se agora – pelos próprios; os espetáculos pirotécnicos das operações, com utilização ostensiva de fuzis e metralhadoras, helicópteros, pessoas sendo presas com os pés acorrentados, tudo com o objetivo de passar a imagem de que nada poderia se opor ou resistir à Lava Jato; o  monumento em homenagem à Lava Jato projetado por Dallagnol, com as colunas da justiça e do sistema político por eles demolidas, restando em pé somente a coluna da Lava Jato, que em pé ficaria por toda eternidade, porque feita do melhor mármore da Grécia antiga, erguida pelos bem-nascidos, decentes, honestos e incorruptíveis heróis da república de Curitiba.

Desde o início a verdade era conhecida, mas hipocritamente fazia-se de conta que era preciso acreditar na mentira. A farsa montada pela Lava Jato interessava à grande mídia corporativa porque trazia lucros fáceis. Interessava ao capital financeiro porque os banqueiros eram poupados – e eles sabiam disso porque remuneravam bem as palestras dos comandantes da Lava Jato. Interessava aos poderosos interesses privatistas, especialmente os estadunidenses, que queriam abocanhar lucrativas empresas estatais como Petrobras e Eletrobras, além de iniciar um novo ciclo de exploração de minérios  na Amazônia. Interessava às elites dos servidores públicos que pegaram carona na Lava Jato como forma de aumentar seu poder de barganha sobre o Estado brasileiro. Interessava a todas as forças políticas de direita que não conseguiam derrotar o PT no jogo democrático pela via das urnas. 

Cada época tem seu tipo de fascismo. No Brasil contemporâneo, o fascismo assumiu a forma de um monstro de duas cabeças. Uma delas é especializada na arte da manipulação. Como serpente sedutora, constrói verdades a partir de seu mundo de mentiras. A outra cabeça é feita de ferocidade bruta e violência, devora toda vida que enxerga a sua frente.

A primeira cabeça do monstro surge do centro das instituições estatais onde se processam as complexas teias do poder, onde se decide quem deve ser investigado, condenado e encarcerado, e quem deve ser blindado. A outra cabeça surge das várzeas e dos morros dominados  pelas milícias, da mata profunda onde reina o poder do ronco das motoserras, onde a lei é a bala e o fogo é a solução; é a cabeça do monstro  animada pelo espírito amante das ilicitudes, que odeia qualquer regra que represente um freio para ganhar dinheiro fácil. Em comum, as duas cabeças tem o mesmo ódio aos que não merecem respeito por não conseguir ascender na pirâmide social,  aos que não tem habilidade empreendedora de fazer dinheiro, de um jeito ou outro, porque as oportunidades da exploração capitalista estão disponíveis para todos.

O monstro tomou o poder e agora uma cabeça precisa desesperadamente devorar a sua gêmea. É da natureza do fascismo o não compartilhamento de poder.

Hegel diz que “a coruja de Minerva levanta voo ao cair do crepúsculo”. “A filosofia sempre chega tarde demais”. Mas isso não equivale a uma sentença que obrigatoriamente deva se cumprir. Temos a oportunidade de compreender  a gênese do monstro enquanto ainda se desenvolve, e isso permite uma atitude diferente dos milhões que assistiam passivamente ao avanço do genocídio nazista.

A história e a filosofia tem de servir para alguma coisa. Para hoje, não para depois. Nossa indignação tem de servir para alguma coisa para além de simples lamentações. Esperar que uma cabeça devore a cabeça gêmea do monstro não resolve o problema. A cabeça vencedora se fortalecerá e devorará a todos os que ficarem assistindo passivamente os acontecimentos.

Não chegamos ainda na câmara de gás. Mas o fascismo está presente, como esteve presente no nazismo muito antes dos fornos serem ligados. A matança por aqui iniciou faz tempo. E uma mudança recente deve nos inquietar: altas autoridades da república agora festejam  a morte dos que estão do lado errado, enquanto torcem abertamente pelo sucesso dos incendiários e destruidores da vida e do meio ambiente. A autorização está dada e terá consequências. É preciso parar os fascistas enquanto há tempo.

Wilson Luiz Müller – Integra o coletivo Auditores Fiscais pela Democracia (AFD)

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6 comentários

  1. Muito bom o artigo do Wilson Muller! Acabou quando eu esperava o 5º ponto que talvez seja para depois do fim dessa maldição.
    Engels já dizia que a História é mais importante que a Natureza. Talvez porque ele achasse que a dialética do idealismo (História) fosse mais importante que a Material (Natureza física). Se isso se confirmar será necessário, e urgente, conscientizar nossos proletários atuais para combater a destruição patrocinada pelo monstro da burguesia.

  2. Quanta besteira. Ai você pesquisa sobre Fascismo no Brasil, e não encontra quase nada sobre o partido fascista italiano na década de 1920 e 1940, tal qual a banalização do termo. Vocês não aprendem, e ainda dificultam a vida de quem quer pesquisar o tema a sério.

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  3. O 5ponto pode ser a complassencia da população , assim como na Alemanha o povo está assistindo o nazismo se fortalecer na esperança de que ele melhore sua vida nas custas dos mais pobres , pois popre é sempre o outro ! Corrupto e sempre o adversário ! É sim nosso sociedade está se desfazendo e as elites adorando…

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