21 de maio de 2026

O Golpe do Falso Investimento, por Eduardo Coelho Leal

Se um banco permite a abertura de contas com dados falsos, se não identifica movimentações suspeitas, ele pode ser responsabilizado.
Reprodução StockPhoto

Golpe do falso investimento usa sites e mensagens para enganar vítimas com lucros falsos e dificultar saques.
Bancos e empresas de pagamento podem ser responsabilizados por falhas que permitem fraudes financeiras, segundo STJ.
Vítimas devem agir rápido, registrando ocorrências e buscando orientação jurídica para tentar recuperar valores.

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Resumo gerado por Inteligência artificial

O Golpe do Falso Investimento: entenda a nova fraude no mercado financeiro e como se proteger

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por Eduardo Coelho Leal

Vivemos uma época em que o dinheiro se move muito rápido, direto do celular. Investir nunca pareceu tão acessível — e, justamente por isso, nunca foi tão explorado por quem sabe enganar.

Ao longo dos anos em que atuo como advogado, tenho visto crescer um tipo de fraude que não depende de pressa ou desatenção. Pelo contrário: ele funciona porque parece seguro. É o chamado golpe do falso investimento.

E ele pode começar de forma muito comum: um anúncio no Instagram, um link patrocinado no Google, uma mensagem no WhatsApp. A promessa vem com aparência profissional — um site bem feito, gráficos de crescimento, atendimento rápido, alguém que fala com segurança sobre mercado financeiro.

No início, nada parece errado.

A plataforma mostra lucros diários. O saldo cresce. Pequenos testes de saque, às vezes, até funcionam. A vítima — que na verdade está agindo com a melhor das intenções, tentando fazer seu dinheiro render — começa a confiar. E investe mais.

É aqui que o golpe se torna especialmente perigoso.

Porque ele não se revela de imediato. Ele sustenta, por semanas ou até meses, uma sensação de controle e segurança. Tudo parece legítimo — até o momento em que a pessoa decide sacar valores maiores.

E então surgem os obstáculos.

Primeiro, uma taxa para liberar o saque. Depois, um “imposto”. Em seguida, uma nova exigência: um depósito adicional para “validação” da conta. E, quando a vítima percebe, o dinheiro já não está mais acessível. O site sai do ar. O contato desaparece.

O que antes parecia um investimento promissor nunca existiu.

Há alguns sinais que ajudam a identificar esse tipo de fraude — embora, na prática, eles nem sempre sejam tão óbvios: (i) promessas de lucro alto com risco inexistente; (ii)  pressão para investir rápido (“últimas vagas”, “oportunidade do dia”); (iii) comunicação concentrada em WhatsApp ou canais informais; (iv) dificuldade ou bloqueio no momento de sacar valores; (iv) exigência de novos depósitos para liberar o próprio dinheiro; (v) ausência de registro da empresa na Comissão de Valores Mobiliários (CVM).

Mas é importante dizer com clareza: mesmo pessoas cautelosas podem cair nesse tipo de golpe. Esses sistemas são construídos para parecer confiáveis. São estruturados para enganar.

Se você ou alguém próximo passou por isso, é essencial entender: a culpa não é sua.

Do ponto de vista jurídico, esses casos não são apenas “azar” ou “falta de cuidado”. Muitas vezes, eles envolvem falhas reais no sistema financeiro.

Isso porque, na maioria das situações, o dinheiro da vítima não desaparece sozinho. Ele passa por contas bancárias, instituições de pagamento, plataformas que deveriam ter mecanismos mínimos de segurança.

E é aqui que entra a responsabilidade dessas instituições.

O Superior Tribunal de Justiça (STJ), por meio da Súmula 479, já consolidou o entendimento de que bancos respondem por danos causados por fraudes ocorridas dentro de suas operações. No direito, isso é chamado de fortuito interno — riscos que fazem parte da própria atividade financeira.

Na prática, isso significa o seguinte: se um banco permite a abertura de contas com dados falsos, se não identifica movimentações claramente suspeitas — como o recebimento de dezenas de transferências em sequência — ou se não bloqueia operações incompatíveis com o perfil do cliente, ele pode ser responsabilizado.

E aqui há um ponto importante: não é necessário provar que o banco teve intenção de participar do golpe. A responsabilidade é objetiva (não depende de culpa).

Ou seja, basta demonstrar que houve falha na prestação do serviço — e que essa falha contribuiu para o prejuízo.

Decisões mais recentes, inclusive da Turma Nacional de Uniformização (TNU), têm ampliado esse entendimento para alcançar também empresas de pagamento. Especialmente em operações via Pix ou conversão para criptomoedas, quando essas empresas deixam de adotar procedimentos básicos de verificação e monitoramento, elas também podem responder pelos danos.

Em termos simples: quem faz parte do caminho do dinheiro tem o dever de garantir um nível mínimo de segurança.

E, quando isso não acontece, a Justiça pode impor a obrigação de indenizar.

Para quem foi vítima, existe, sim, um caminho possível para buscar a recuperação dos valores. Mas esse caminho exige rapidez.

Quanto mais cedo forem tomadas medidas — como registrar ocorrência, comunicar o banco, acionar o Banco Central ou procurar orientação jurídica — maiores são as chances de identificar o destino dos valores e tentar bloqueá-los.

Em muitos casos, o tempo faz diferença real.

O golpe do falso investimento não se sustenta apenas na mentira — ele se sustenta na confiança.

E é justamente por isso que a resposta jurídica precisa ser firme: proteger quem confiou e responsabilizar quem falhou em proporcionar segurança.

Eduardo Coelho Leal é advogado graduado pela USP, com especialização em Economia pela UNICAMP e mestrado em Direito Privado pela UFRGS. Atua no contencioso civil voltado ao mercado financeiro, na defesa de vítimas de fraudes e na responsabilização de agentes e plataformas por danos a consumidores e investidores.
eduardo@coelholeal.com – (51) 999559492

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para dicasdepautaggn@gmail.com. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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Eduardo Coelho Leal

Eduardo Coelho Leal é advogado graduado pela USP, com especialização em Economia pela UNICAMP e mestrado em Direito Privado pela UFRGS. Atua no contencioso civil voltado ao mercado financeiro, na defesa de vítimas de fraudes e na responsabilização de agentes e plataformas por danos a consumidores e investidores.

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