
O Iluminismo Sombrio e a implosão da democracia nos EUA
por Márcio Sampaio de Castro
Em sua primeira campanha eleitoral à presidência dos EUA, em 2016, o então candidato Donald Trump demonstrou uma impressionante capacidade de atrair para o seu entorno os grupos mais reacionários da sociedade estadunidense. Movimentos como os Proud Boys – criados para “defender a cultura ocidental e impedir o genocídio branco”-, setores raivosos da direita cristã e figuras como o articulador de uma extrema-direita com tentáculos nos dois lados do Atlântico, Steve Bannon, foram facilmente identificáveis como fiéis apoiadores do milionário nova-iorquino. Durante a campanha, memes onde se podia ver o presidente Barack Obama comendo com as mãos melancia (fruta levada para o país nos porões dos navios negreiros) ou frango frito, iguaria associada às mamas negras dos estados sulistas, circularam amplamente pela internet naquele período.
Os memes não eram fruto de atos isolados praticados por um punhado de entusiastas da campanha trumpista. Eram uma resposta ao apito de cachorro soprado por longa data pelo empresário. Trump afirmou por anos que Obama não havia nascido nos EUA e que, portanto, não poderia ter se candidatado à presidência. Na verdade, a questão nunca foi a respeito do local de nascimento de Obama e a suposta inconstitucionalidade de sua presidência, como sugeriam os debates conduzidos pela mídia hegemônica à época. Objetivamente, para o senso comum reinante entre esses apoiadores do trumpismo, para ser estadunidense é preciso ser branco e cristão. Nesta ordem. Daí o apito de cachorro.
Temas como o papel das mulheres na sociedade, direitos reprodutivos, questões LGBTQ+, direito ao porte de armas e associação de latinos ao tráfico de drogas, roubo e estupro também apareciam candidamente em torrentes verborrágicas proferidas pelo empresário-candidato. Como se fossem crescentes camadas de uma enorme cebola, que tem em sua faixa externa o movimento MAGA (Make America Great Again), Trump foi catalisando ao seu redor diversos grupos ligados a uma direita cada vez mais refratária a temas como direitos sociais, igualdade ou o papel do Estado como um baluarte da vida em sociedade ou mesmo da civilização.
Em seu livro A Revolução Cultural Nazista, o historiador francês Johann Chapoutot nos mostra como na Alemanha dos anos 1920 e 30 foi construída uma abordagem supostamente científica por figuras como Alfred Rosenberg e Hans Frank, entre outros, que denunciavam os supostos malefícios do universalismo defendido pelos filósofos iluministas franceses como sinal de fraqueza e debilidade. O próprio Joseph Goebbels, em discurso radiofônico no dia 5 de março de 1933 anunciava: “Nós apagamos o ano de 1789 da história alemã”.
O paralelo aqui se faz necessário, pois o último grupo a aderir de forma plena à onda trumpista, tornando-se mais uma camada dessa cebola metafórica, foram os tecnolibertários do Vale do Silício. Isso aconteceria somente em 2024 ao final da corrida eleitoral. Defensores de um eugenismo suavizado pelo termo transhumanismo, seus simpatizantes rejeitam valores como a igualdade entre os indivíduos e o papel do Estado como mediador do progresso social. Para eles, o Estado pode ser classificado como fracassado e incapaz de defender os interesses privados e as liberdades individuais (dos ricos!). Além disso, entendem que o desenvolvimento tecnológico deve ser encarado como a panacéia de todas as mazelas humanas, desde que as pessoas possam pagar por isso.
Voltando a 2016, a primeira vitória de Trump despertou a simpatia de uma primeira leva desses tecnolibertários, mas ainda não de maneira orgânica. Eles vinham estruturando suas ideias sobre política e sociedade desde a virada do milênio e um de seus principais nomes desde 2007 era o do engenheiro da computação Curtis Yarvin. Dono de um blog onde assinava seus escritos sob o pseudônimo Mencius Moldbug, Yarvin foi capaz de atrair uma legião de seguidores e popularizou termos como “red pill”, inspirado no filme Matrix, associado à ideia de que ele mesmo havia acordado de uma “ilusão progressista” imposta pelo sistema.
Do outro lado do Atlântico, o filósofo britânico Nick Land, também defensor de ideias eugenistas, cunharia o termo Dark Enlightenment ou Iluminismo Sombrio para descrever sua visão de um movimento neorreacionário (ou NRx na sigla encampada pelos seguidores dessas convicções) que levaria à construção de uma sociedade ideal controlada por um tecnoautoritarismo oposto à democracia liberal e suas fraquezas. Suas ideias podem ser encontradas em obra homônima publicada em 2022. Em seu livro, Land denuncia aquilo que ele denomina como a “Catedral”, uma figura de linguagem para descrever a aliança entre mídia e academia, segundo ele, concebida para perpetuar o poder das esquerdas liberais. Cantilena que direta ou indiretamente nos remete ao “astrólogo da Virgína”, Olavo de Carvalho, tão conhecido pelos simpatizantes de uma caricata extrema-direita tropical.
Mas, voltando ao britânico, em 2012, enquanto gestava sua obra a respeito do Iluminismo Sombrio, Land publicou um manifesto online condenando a democracia e empregando como referência o filósofo alemão e investidor em empresas de tecnologia do Vale do Silício Peter Thiel. Em seu ensaio publicado anos antes, “A Educação de um Libertário”, Thiel defende que liberdade e democracia são incompatíveis. Para ele, questões como o direito ao voto das mulheres e as políticas de assistência social poderiam ser apontadas como fatores chave para o enfraquecimento da própria democracia.
Cofundador da empresa de tecnologia financeira Paypal e sócio da Palantir, companhia que fornece sistema de análise de dados para outras empresas, mas que tem na CIA (a agência de inteligência estadunidense) seu principal cliente, Thiel foi o idealizador da carreira política do atual vice-presidente JD Vance, doando 15 milhões de dólares para sua campanha ao senado pelo estado de Ohio em 2022. O alemão também se encarregou de apresentar Vance a Donald Trump, azeitando o nome do senador para compor a chapa Trump-Vance na corrida para a Casa Branca.
Outro nome interessante nesse cenário é o de Patri Friedman. Sim, se o sobrenome acionou algum sininho em sua cabeça, você acertou, ele é neto do economista neoliberal Milton Friedman. Diferentemente do avô ou, digamos, ainda mais radical, Patri se define como ultraliberal, libertário, anarcocapitalista e teórico de economia política. Com um aporte de meio bilhão de dólares de Peter Thiel, sim, sempre ele, Friedman criou o The Seasteading Institute, uma organização alegadamente sem fins lucrativos voltada a criar colônias oceânicas baseadas em plataformas marítimas com foco em experimentos libertários, transhumanistas e tecnológicos. Quem assistiu à série brasileira “3%” pode ter uma ideia de como isso supostamente funcionaria. Mas a questão relevante aqui é que Friedman também é considerado um dos inspiradores do chamado Iluminismo Sombrio.
Um ideólogo respeitado
Tudo isso poderia ser considerado apenas uma caricatura grotesca das ideias de uma meia dúzia de sujeitos sem uma sólida formação humanista e com muito dinheiro no bolso. Mas não é! Existe uma articulação e preocupantes indícios dentro da administração trumpista de que os valores do chamado Iluminismo Sombrio podem estar sendo levados muito mais a sério do que gostaríamos de admitir.
No fim de semana da posse do segundo mandato de Donald Trump, o blogueiro Curtis Yarvin viajou a Washington, D.C., para o Baile da Coroação, festa promovida pela editora ultraconservadora Passage Press. Yarvin foi recebido como um dos convidados de honra e a festa certamente procurava celebrar, além da vitória de Trump, a aproximação das ideias do filósofo Land e do próprio Yarvin do poder. Registre-se que meses antes, o próprio JD Vance havia elogiado e mencionado o blogueiro como uma inspiração em uma entrevista.
Vale anotar também que o supremacista Charlie Kirk, brutalmente assassinado enquanto proferia uma palestra na Universidade de Utah, também era admirador do blogueiro.
Autodenominado filósofo político, Yarvin argumenta que a democracia estadunidense está irrevogavelmente quebrada e deveria ser substituída por uma monarquia inspirada em uma startup de tecnologia do Vale do Silício. Segundo o “filósofo”, é chegada a hora de abandonar as instituições democráticas existentes e concentrar o poder político em um único “CEO” dotado de um QI elevado (uma espécie de super homem geneticamente melhorado) ou uma espécie de monarca absolutista. E, como não poderia deixar de faltar, ao explicar o seu super homem, Yarvin acredita que alguns grupos são perfeitamente adequados ao trabalho servil e à escravidão. Ao criticar as ações afirmativas (desidratadas já nas primeiras semanas do segundo mandato de Trump), escreveu: “Uma vez que os programas de direitos civis americanos foram aplicados a populações com ascendência recente de caçadores-coletores e sem grande reputação de fibra moral sólida, o resultado foi lixo humano absoluto”.
Outra coincidência entre os escritos de Yarvin e as práticas da Casa Branca recai sobre aquilo que ele classifica como RAGE, um acrônimo para Retire All Government Employees (em português, a remoção de todos os funcionários públicos). Logo de início, a administração Trump nomeou o bilionário Elon Musk, outro que possui profundos vínculos com o Vale do Silício, para assumir o recém-criado DOGE (Department of Government Efficiency), uma espécie de departamento de desburocratização que em poucas semanas demitiu mais de 30 mil funcionários da administração federal.
Mais um admirador de Yarvin e destacado membro do governo Trump ligado ao credo antiliberal é Stephen Miller. Desde os seus tempos de estudante na Duke University, Miller é apontado não só por desbragadamente defender plataformas antiliberais como também de possuir ligações com movimentos supremacistas. Um padrão, ao que parece. No primeiro mandato de Trump foi nomeado conselheiro sênior da presidência e elaborou as ordens executivas para o banimento de autorizações de entrada para muçulmanos no país e a política de separação de famílias na fronteira, com as degradantes imagens de crianças enjauladas que correram o mundo à época. Atualmente é conselheiro de segurança doméstica na Casa Branca e está à frente das políticas do Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos (ICE, na sigla em inglês), que tem se notabilizado por numerosas prisões arbitrárias e até violentas de imigrantes submetidos a ritos sumários de deportação.
O povo da melancia
Nessa cadeia de eventos e nomes que dão sustentação prática às ideias do Iluminismo Sombrio, o vice-presidente JD Vance caminha no limiar entre esse movimento libertário e uma outra vertente.
Em seu livro de sucesso Why Liberalism Failed , publicado em 2018, o filósofo católico e teórico político da Universidade de Notre Dame Patrick Deneen argumenta que o liberalismo com L minúsculo é inevitavelmente autodestrutivo. Ele vai além. Afirma que um sistema político baseado na expansão dos direitos individuais e da autonomia acabará minando as instituições coletivas que tornam a vida política possível, como a família, a religião organizada e as comunidades locais.
Para Deneen, é necessária a transição da ordem liberal para uma ordem pós-liberal. Essa transição não aconteceria sozinha, exigiria a criação de “uma nova elite” — uma “aristocracia autoconsciente” que pudesse adentrar os corredores do governo, da academia e da mídia, dominá-los e redirecioná-los para fins conservadores e antiliberais.
Vance, que se declara um católico fervoroso, é extremamente simpático também às ideias de Deneen, que não milita no espectro dos tecnolibertários, mas também entende que a democracia não deu certo.
Conforme analisa Ian Ward, em artigo publicado na revista eletrônica Político, “superficialmente, Deneen, Yarvin e Thiel desejam coisas diferentes — uma ordem pós-liberal fundamentada na doutrina social católica; uma monarquia inspirada em uma startup de tecnologia; um paraíso tecnolibertário sem Estado, no qual os únicos direitos são os de propriedade. Mas eles estão unidos tanto pela oposição à democracia liberal quanto por seu elitismo fundamental — a crença compartilhada de que os Estados Unidos são e sempre serão governados por elites. Seu objetivo não é abolir o governo da elite, mas substituir a atual por uma supostamente diferente e mais conservadora, e compartilham um plano para isso”.
Donald Trump na prática e JD Vance com seus discursos e simpatias parecem fechar com essas ideias que colocam na berlinda o arranjo democrático estadunidense.
Quanto às melancias de Obama, citadas lá no começo, enquanto esse texto estava sendo escrito, a revista eletrônica Político publicou uma reportagem com o vazamento das conversas em chat do Telegram do grupo denominado Jovens Republicanos. Nessas conversas podem ser lidas frases como: “Eu iria ao zoológico se quisesse ver macacos jogando bola”, “Eu amo Hitler”, “Estou pronto para ver pessoas sendo queimadas”, “Podemos consertar os chuveiros? As câmaras de gás não se adequam a estética hitlerista” e “Eles amam o povo da melancia”. Parece haver certa obsessão por parte dessas pessoas incomodadas com a igualdade e o respeito mútuo entre os seres humanos. Aproxima-se o momento do réquiem da democracia liberal burguesa nos EUA? O tempo, como senhor da razão, vai mostrar para onde este barco navegará.
Márcio Sampaio de Castro é mestre em Comunicação e Cultura pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo. É professor nos cursos de Relações Internacionais e Propaganda e Marketing das Faculdades de Campinas (FACAMP), onde coordena o Centro de Análise e Pesquisa sobre a China (CAP – China).
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jsfilho
20 de outubro de 2025 9:10 amTrump é o novo Fuhrer e o MAGA o novo reich. //www.bananasnews.noblogs.org