O mal da conciliação e o pacto progressista, por Aldo Fornazieri

O mal da conciliação e o pacto progressista

por Aldo Fornazieri

As elites brasileiras, em suas diferentes facções, usam dois métodos prioritários para operar o poder: a conciliação e o golpe. Oscilam de um ao outro segundo as circunstâncias e conforme as necessidades de fazer valer os seus interesses. Os dois métodos funcionam também como forma de cobertura ideológica para manter um véu sobre a natureza e as consequências de seu modo de agir: manter o controle sobre um Estado particularista, usando-o de forma alargada como instrumento de concentração de capital, de renda e de riqueza e como perpetuação do estatuto da desigualdade social e econômica, exclusão de direitos, sonegação da  educação, da saúde e da cultura para o povo. O uso de instrumentos fiscais regressivos, subsídios, incentivos, sonegação e corrupção são as armas usadas para bloquear um Estado universalizante, mantendo-o preso aos ditames particularistas dos grupos de assalto aos Orçamentos públicos.

Os dois métodos – conciliação e golpe – não são usados apenas nas relações com a oposição, mas também nas relações intra grupos de elites e no interior dos próprios partidos. Veja-se o que aconteceu no PSDB, nesta última convenção: acobertou-se uma profunda crise interna em nome da unidade. Uma falsa unidade, pois as divergências não se explicitaram até as últimas consequências, na forma de embates, disputas, formulações de teses e programas produzindo daí uma unidade superior, verdadeira. Esse método representa a morte do espírito e de todo o conteúdo e a manutenção de uma forma caiada.

A conciliação se expressa como apaziguamento, como uma acomodação de interesses, que por não se explicitarem de forma programática, se tornam escusos. Até mesmo os partidos de esquerda têm enveredado por caminhos da conciliação interna, matando aos poucos o espírito vivo dos partidos. E se são menos propensos a golpes internos, são muito afoitos nas divisões sectárias e nas exclusões.

Assim, as acomodações evitam prévias, evitam o aprofundamento do debate, evitam a crítica e a autocrítica e terminam por sufocar a própria democracia como prática constituinte da política e dos programas de partidos e governos. Os acordos de cúpula terminam por prevalecer, sem que as bases e as massas tenham clara compreensão do seu significado. Este é um dos fatores que vem minando a credibilidade dos partidos e dos políticos, alastrando a crise de legitimidade.

Quando essa crise foge do controle dos partidos, ela produz fenômenos extemporâneos ou inoportunos a exemplo de Collor de Mello, Dória, Bolsonaro ou Trump. Esses forasteiros aparecem sempre com uma face anti-sistêmica, dado que uma parcela da sociedade os acolhe por não se reconhecer mais na direita e na esquerda que operam em determinado sistema. Tendem a ser fenômenos passageiros, é verdade, mas provocam uma série de anomalias e, quase sempre, agravam a crise de funcionamento da democracia e das instituições.

Na sua essência, a conciliação enquanto método, é uma forma antidemocrática do agir político. Os acordos que ela produz, por serem acomodações e falsos apaziguamentos, nunca são públicos e se traduzem em troca de favores, no fisiologismo, num conluio onde todos se tornam cúmplices e prisioneiros de todos. Frequentemente, as conciliações criam uma solidariedade criminosa entre as partes.

Um dos fundamentos da democracia consiste em que ela é conflito, enfrentamento oratório público de ideias e propostas, pois é através desse debate e desse enfrentamento que se pressupõe, surjam, racionalmente, as boas leis, as boas normas e a boa educação, como já notara Maquiavel ao referir-se à construção da grandeza da República de Roma. No Brasil, ao mesmo tempo em que se desvaloriza o conflito político se valoriza o conflito do Estado contra os pobres e o conflito interpessoal, fator que nos transformou no país onde mais ocorrem mortes violentas no mundo, superando os países em guerra.

Por um pacto progressista

É sabido e aceito de forma generalizada a tese de que as esquerdas vivem a síndrome de Caim e Abel. Mesmo sendo subpartidos ou subgrupos de um mesmo partido, de uma mesma matriz e até de um mesmo ideário, preferem a derrota e a morte um dos outro do que a unidade. Mas nem tudo é terra arrasada. Seja porque alguns agrupamentos aprenderam as lições da história ou seja porque se faz uma leitura correta do atual momento histórico, o fato é que, em alguns países, as esquerdas e os progressistas conseguem se unir e ter êxito nos governos. Destaque-se o Uruguai, Portugal, Grécia, governos de províncias e comunidades autônomas no interior da Espanha.

O que há de comum nas democracias em todos os continentes é que elas estão capturadas pelo capital que usa os instrumentos estatais para operar políticas de regressão de direitos, de aumento das desigualdades e de concentração da riqueza. Nos países pobres, como o Brasil, esses males das democracias sequestradas se agravam, pois são herdeiros de injustiças, exclusões e opressões centenárias, nunca tendo alcançado o estatuto de um Estado de bem estar social.

Neste momento em que, no Brasil, as elites operam o poder pelo modo do golpe, a violência destrutiva de direitos e a sanha concentradora de riqueza se manifestam de forma mais cruenta, semeando a descrença, a desesperança e o medo quanto ao futuro. Para uma imensa parte da população brasileira, o medo de uma vida sem dignidade, de uma vida de sacrifícios e de privações se tornou uma certeza. As aflições com o alimento, com a moradia, com o vestir, com o emprego e com as necessidades básicas se tornaram um tormento permanente, que bloqueia os sonhos, a alegria de viver, a felicidade familiar. Não há como ter esperanças.

Barrar esta fúria destruidora de direitos, de esperanças e de futuro não é apenas uma questão de leitura da conjuntura, mas uma demanda ética, um dever moral. Claro que será preciso propor um programa que vá além disso, que distribua o poder, a riqueza e as oportunidades e que garanta direitos. Construir uma força unitária e potente para barrar essa destruição é a tarefa que se impõe para todos aqueles que se intitulam democratas, progressistas, socialistas e de esquerda. Se quisermos ser responsáveis, precisamos dimensionar bem os fins, não só possíveis, mas necessários neste momento. Precisamos promover um acordo entre meios e fins.

Multiplicar candidaturas do campo democrático é progressista, como vem se indicando, não é um bom caminho. Fazer um acordo, um pacto, que tenha por base uma negociação, na qual fiquem explícitos os pontos de convergência e as divergências, é algo bem diferente do que uma conciliação. Trata-se de fazer um pacto do possível, sendo que um dos principais objetivos consiste em barrar esse processo de destruição de direitos e da democracia. Num pacto programático, todos precisam abrir mão de determinados objetivos, de determinados interesses. Cabe às maiores forças fazer as maiores concessões. E se um eventual governo progressista precisar buscar apoios ao centro para governar, há que se produzir um acordo em torno de pontos programáticos e não uma conciliação que dilui a fisionomia de qualquer governo.

As forças democráticas e progressistas estão cometendo dois erros graves neste momento: 1) pressupor que é o memento de maximizar alternativas com candidaturas próprias e com programas ideais; 2) supor que as eleições serão facilmente vencidas por Lula por falta de candidato competitivo dos setores conservadores. O cenário das eleições ainda não está constituído. Poderosas forças se mobilizarão para impedir a vitória de Lula.

Por outro lado, todas as proclamações grandiloquentes dos líderes políticos e sindicais das esquerdas fracassaram. Aconteceu tudo o que se disse que não aconteceria. Não se viram trincheiras, nem exércitos e nem grandes paralisações, capazes de bloquear reformas nefastas. Parece ser necessário aterrissar e lidar com o senso de realidade. O ufanismo e o triunfalismo são os alimentos da indolência e da irresponsabilidade, coveiros das vitórias.

Aldo Fornazieri – Professor da Escola de Sociologia e Política (FESPSP).

 

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11 comentários

  1. O mal é que todos têm suas razões

    O que de fato temos no desenho politico neste fim de 2017 é Lula pré-candidato inabilitado, Boulos tentando constuir uma candidatura viavel pelo PSOL e Ciro Gomes fazendo mais do mesmo: ora bate ali, ora bate aqui. Do outro lado, tem-se um PSDB em que todos querem ser candidatos, mas nenhum tem carisma para tal; Bolsonaro que ataca pelas redes sociais, PSB que sonha que o Joaquim Barbosa podera tira-los do ostracismo politico e o PMDB, no qual Rodrigo Maia de repente saia como vice de Temer ? De qualquer forma, Temer vai tentar até o ultimo momento sair candidato. E se o brasileiro anda tão distante assim da sua realidade o que esperar das urnas, então…

  2. O mal da conciliação e o pacto progressista

    no gráfico abaixo está exposto o nó da política brasileira. nenhuma solução virá sem desatar este nó. para desatar o nó é preciso não negar os dados. só pela compreensão dos motivos que levam, mesmo nesta conjuntura de grave radicalização, 65% a não sentirem-se representados é que poderemos construir programa, estratégia e chegar a um candidato capaz de viabilizar eleitoralmente.

    caso contrário, mais uma grande tragédia se abaterá sobre todos nós.

    .

    • “menas”

      A interpretação apressada do gráfico acima pode gerar conclusões igualmente apressadas.

      Se me perguntarem minha intenção de voto em 2018, neste momento de grandes indefinições em relação aos candidatos em disputa, minha resposta “expontânea” poderia ser, dependendo do meu humor no dia, um “não sei”.

      Já se me apresentarem uma lista de candidatos muito provavelmente (dependendo da lista, é claro) eu escolheria um preferido.

      Daí a concluir que não me sinto representado há um oceano de distância.

      • O mal da conciliação e o pacto progressista

        -> minha resposta “expontânea” poderia ser, dependendo do meu humor no dia, um “não sei”.

        -> Daí a concluir que não me sinto representado há um oceano de distância.

        se alguma das pré candidaturas de fato lhe representasse, não haveria nenhuma oscilação de humor capaz de alterar sua resposta. ainda mais na grave conjuntura atual e considerando casos como o seu: ativo participante em debates sobre política.

        reflita. por que o “não sei”? no mínimo, por estar em dúvida sobre quem melhor lhe representa. o que em si já é revelador de como as opções eleitorais estão aquém das exigências políticas da luta conta o golpe.

        a crise de representação é o fator principal a ser considerado. e não vem de ontem.

        em 2014 os votos nulos, brancos e abstenções terem sido superiores a votação recebida por Aécio Neves no 1º turno. no Rio de Janeiro, o total de nulos, brancos e abstenções superou a votação de Pezão, candidato do PMDB e apoiado pelo PT. em 2016 o índice de rejeição às urnas se acentua. a soma de votos nulos, brancos e abstenções ultrapassa votação do candidato que ficou em primeiro lugar em nove capitais. mesmo para uma estratégia puramente eleitoral, a disputa prioritária se dá muito mais pelo não-voto que pelo voto propriamente dito.

        .

        • Conclusão precipitada outra vez

          —> “se alguma das pré candidaturas de fato lhe representasse, não haveria nenhuma oscilação de humor capaz de alterar sua resposta.”

          Eu diria que entre as pre-candidaturas atuais, ao menos três me representam de alguma maneira. É claro nenhuma integralmente, pois com identidade absoluta com o meu pensamento só há uma pessoa na face da Terra: eu. E eu não sou candidato.

          Entretanto, o companheiro parece não estar acompanhando os jornais para saber que uma das pre-candidaturas corre o risco de não ser autorizada a participar das eleições. Evidentemente que, no momento em que me pedem uma indicação “expontânea” tenho que levar isso em conta. Daí o possível “não sei”.

          Apresentando-me uma lista, este fator (e outros que podem resultar de uma interdição da participação de um dos candidatos) estaria de alguma forma resolvido. Ainda assim, talvez pudesse restar alguma dúvida em função da maior ou menor viabilidades eleitorais dos candidatos.

           

  3. Eleições pra quê ?

    Penso que a Política de esquerda consequente consiste em mobilizar, conscientizar e organizar o povo visando construir um verdadeiro poder popular. Não pode existir uma República Democrática na qual o poder político e econômico estão concentrados numa plutocracia escravocrata e colonialista aliada à cleptocracia.

    “Eleições 2018” deveria ser apenas uma estratégia para empoderar o povo.

  4. Não pode fazer conciliação mas pode fazer pacto?

    Fazer pacto entre as lideranças de esquerda em torno de pontos mínimos comuns é fazer conciliação, pois estão conciliando pontos de convergência.

    Tentar dizer que são coisas distintas é forçar o português e mesmo a lógica.

    Basta pensar em quais são estas divergências que desunem as esquerdas: Basicamente, h[a esquerdas radicais que querem guerra contra todo o poder político e econômico, assim como há a esquerda petista que quer um estado capitalista apenas mais moderado e mais inclusivo. São agendas muito distintas e até entendo porque é difícil que um aceite desisitir de seus ideais pra agradar ao outro, pois isto significaria trair a si mesmo.

    Também não faz muito sentido pregar que as divergêncais, conflitos e divisões são necessárias e boas pra se trazer as melhores soluções, e se defender no fnal que as diversas vertentes se aliem em pontos mínimos e se fechem nestes e em uma candidatura única. Ora, pra isto ocorrer, todas as vertentes terão que desisitir de suas visões particulares, e as dissidências das bases deverãos er subjulgadas pela decisão final consensual das lideranças. Percebe que não dá pra ser democrático ao extremo e querer fazer pacto?

    Particularmente, entendo que as esquerdas devem sim conciliar, se unir em pontos comuns e lançar uma candidatura única forte e viável. Entendo que devemos ser consicentes e sinceros em saber que limitaremos e esterilizaremso a pluralidade, e as causas mais extremas. Se quisermos voltar ao poder pra conseguir ajudar o povo, precisamos infelizmente conciliar sim com a elite, o centro e partes da direita menos raivosa. Se eles não forem minimamente agradados, não nos permitirão voltar jamais, ao governo, nem que tenha que impor uma nova ditadura.

  5. Primeira vez que concordo com o Aldo

    O mais importante agora é parar esse processo de destituiçao dos direitos dos trabalhadores e de privatizaçao e entrega aos estrangeiros dos recursos do país. Nao só pará-lo, mas voltar atrás nas reformas impopulares já aprovadas. Tudo o mais é negociável.

  6. Alguns reparos

    Muito bom o texto, embora tenha encontrado alguns pequenos deslizes que poderiam ser corrigidos caso este venha a ser  republicado em outros lugares.

    – O artigo foca, com bastante lucidez, sobre a realidade brasileira. Assim, acredito que a menção a Trump seja inadequada.

    – “Multiplicar candidaturas do campo democrático é progressista…” Acredito que um acento se infiltrou transformando um “e” em um “é”.

    – “…pressupor que é o memento de maximizar…” Não seria “momento”?

    Talvez existam outros detalhes que uma boa revisão poderiam detectar e corrigir.

    No mais, gostei muito da análise e recomendaria uma ampla distribuição a todos os setores não comprometidos com o processo de destruição do país posto em prática em decorrência do golpe.

     

  7. Diagnóstico correto. Qual a terapêutica?
    Concordo 100% com a análise do Aldo, mas faltou dizer quais são as ações para trilhar este caminho: a conquista do poder pelas esquerdas sem uma conciliação com o centro.
    Como fazer isto num cenário de minoria parlamentar?
    Como evitar um novo golpe parlamentar para a destituição de um governo eleito?

  8. Método Maçônico Antigo e Aceito.

    O PT subiu ao poder com apoio da ala conservadora da Maçonaria, leia-se José Alencar, vice de primeira hora e ministro da defesa nas horas de aflição. Lula aceitou pagar o preço cobrado por essa facção criminosa.

    Dilma achou muito caro. Quis botar todo mundo na cadeia achando que Lula ia conseguir se safar. Deu no que deu e ainda vai dar.

    O problema do Nassif é não querer enxergar que, depois do que aconteceu, a esquerda não tem mais um “Zé Alencar” pra servir de fiador.

    O elo do “bom senso” que ele, Nassif, acha que deva ser buscado entre a direita, a esquerda e o centro, antes que a alternativa da intervenção militar prevaleça, morreu no dia 29 de março de 2011.

    Mas vamos lá, Nassif, continue agindo como um cego que, sem apontar para o problema, tenta achar a melhor solução.

  9. + comentários

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