30 de junho de 2026

O Papel dos Novos Carpinteiros de Negócio, por Edson Monteiro

Sem conhecimento humano, os sistemas se tornam caixas-pretas operadas por algoritmos que poucos compreendem.
Reprodução

Instituições brasileiras aceleraram renovação de quadros, mas perderam experiência essencial para negócios e inovação.
Sistemas antigos e falta de mentoria fragilizam empresas, enquanto aposentadorias precoces pressionam a previdência pública.
IA exige novos perfis profissionais, mas organizações que não preservam conhecimento enfrentam riscos de baixo desempenho.

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O Papel dos Novos Carpinteiros de Negócio

por Edson Monteiro

As instituições públicas e privadas brasileiras enfrentam, anos a fio, um dilema que entrelaça previdência, mercado de trabalho e renovação dos quadros corporativos. Durante décadas, sob os auspícios de estratégia de inovação, as organizações aceleraram a substituição dos colaboradores mais experientes pelos mais jovens. Afinal, as gerações mais novas trazem, além da força da juventude, conceitos mais arrojados e ousados. A lógica parecia simples: abrir espaço para os jovens, que trazem energia e ideias ousadas, e tornar as empresas mais competitivas.

No entanto, o efeito colateral foi o enfraquecimento ou até mesmo o desaparecimento de muitas organizações, pelo abandono do propósito e dos valores que as sustentavam. Muitas corporações aceleraram tanto a renovação de seus quadros e dos processos, com a ânsia de reduzir despesas e maximizar lucros, que negligenciaram a preservação da sabedoria do “negócio” acumulado pelos veteranos. Os fundamentos do negócio passaram a ser incorporados às rotinas dos sistemas, proporcionando soluções ágeis e convenientes. No entanto, esse saber deixou de ser transmitido às novas gerações. Com a dinâmica da globalização e a revolução tecnológica, as instituições deixaram de formar novos “carpinteiros de negócios”.

Os sistemas corporativos e aplicações que suportam o negócio, mantidos em linguagem de programação já ultrapassadas e desconhecidas dos mais jovens – muitas delas em desuso -, se tornaram. Quando surgem imprevistos ou necessidades de manutenção ou atualização, os novos profissionais não detêm conhecimentos para interpretar, corrigir ou reinventar os mecanismos. Essa lacuna gera soluções perfunctórias, incapazes de sustentar a performance ou enfrentar mercados cada vez mais exigentes e competitivos. Organizações se fragilizam e pessoas se frustram. A falta de experiência e o desconhecimento dos fundamentos do negócio impedem que os novos quadros mantenham o ritmo e a qualidade esperada. Também a meritocracia, substituída por critérios seletivos frágeis ou indicações políticas, foi descartada em nome da agilidade ou conveniência dos conchavos.

A esse drama corporativo se soma o drama social. Muitos trabalhadores se aposentam precocemente, ainda no auge da capacidade produtiva, retornando ao mercado por necessidade de renda adicional ou terapia ocupacional, mas em subempregos ou funções precárias. A previdência oficial, por sua vez, acumula déficits e problemas de gestão. Mudanças legislativas efetuadas ao longo do tempo, com viés populista e visão de curto prazo, alteraram as regras para aposentadoria, sem considerar a sustentabilidade financeira ou a evolução dos indicadores sociais. O resultado foi ampliar a pressão sobre o sistema, que hoje figura como um dos principais vilões do déficit público.

Enquanto isso, a pirâmide social brasileira mudou radicalmente nas últimas décadas. De um país rural, tornamo-nos urbanos em quase 90% da população. A expectativa de vida aumentou, a economia se diversificou e a globalização trouxe novos padrões de competitividade. Mas as regras sociais e trabalhistas não acompanharam essa evolução. Persistimos em soluções populistas, agradáveis no curto prazo, mas nocivas ao futuro. Veja o “Cabo de Guerra” em torno da proposta de emenda constitucional que reduz a jornada de trabalho, atualmente em discussão no Congresso Nacional.

O contraste com países europeus é evidente. Alemanha, França e Itália, dentre outros, enfrentaram o problema de frente, ajustando gradualmente as condições básicas para aposentadoria, incentivando a previdência complementar e criando políticas de transição que valorizam os profissionais seniores como mentores e consultores. Medidas impopulares, mas eficazes, que garantem a sustentabilidade e preservam a qualidade das organizações.

No Brasil, falta coragem política para adotar medidas semelhantes. É urgente estimular a poupança via previdência privada, fortalecer a meritocracia e criar modelos híbridos de carreira que aproveitem a experiência dos mais velhos sem bloquear a ascensão dos mais jovens. Em vez de aposentar precocemente, seria mais sensato estimular a permanência em atividade dos trabalhadores experientes, ainda que instituindo benefícios parciais e transitórios, assegurando-lhes o direito de se aposentar no momento que desejar, segundo as regras vigentes no momento do ingresso no sistema. Persistir em soluções fáceis e uniformes, que visam apenas preservar a popularidade dos representantes do povo e o lucro a qualquer custo, apenas prolonga o desequilíbrio e condena governos, empresas e trabalhadores a ciclos de baixa performance.

Nesse cenário, a chegada da inteligência artificial adiciona uma camada de complexidade. Profissões tradicionais tendem a desaparecer, enquanto novas funções surgem, exigindo habilidades diferenciadas. O colaborador do futuro não será apenas executor de tarefas, mas um “carpinteiro de negócios” com conhecimentos diferenciados, capaz de compreender os fundamentos e utilizar ferramentas de IA para construir soluções e sistemas corporativos. Rotinas mecânicas darão lugar à de interpretar, orientar e explorar oportunidades com apoio da tecnologia.

Se por um lado a IA promete ganhos de produtividade, por outro expõe ainda mais a fragilidade das organizações que deixaram de investir na governança e não preservaram a memória corporativa. Sem conhecimento humano, os sistemas se tornam caixas-pretas operadas por algoritmos que poucos compreendem. Renovação sem memória, somada à automação acelerada, leva à superficialidade e a desempenho insatisfatório, gerando, em consequência, falta de competitividade global. Há risco de se criar soluções rápidas, mas rasas, sem fôlego para enfrentar a concorrência do mercado de forma consistente. Não é à toa que temos uns maiores índices de mortalidade de empresas no mundo.

Renovar não deveria significar descartar, mas integrar. A juventude precisa da experiência e a tecnologia precisa da sabedoria humana para ser bem aplicada. Só assim a evolução da pirâmide social brasileira poderá se traduzir em prosperidade e estabilidade, em vez de crises recorrentes. O futuro do país depende de um pacto social que reconheça a importância da experiência, valorize o desempenho dos “carpinteiros de negócio” e enfrente com responsabilidade os desafios da previdência, renovação corporativa e da revolução tecnológica já em curso. Ao invés de aposentadorias precoce, vamos lutar pela construção de modelo que possibilite o compartilhamento mais justo do tempo durante a vida laboral entre trabalho e ócio, com aproveitamento digno do capital humano.

Edson Monteiro – Economista, ex-Diretor Presidente da COOPERFORTE e ex-Vice-Presidente do Banco do Brasil

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