O presidente dos patrões e povo do “Poço”, por Alexandre Filordi

Enquanto os Estados civilizados se mobilizam para garantir a proteção, o sustento e o amparo de seus cidadãos no contexto da pandemia do COVID-19, o Brasil, assumidamente, passa a autorizar a morte por sufocamento econômico de seus cidadãos trabalhadores

(Isso não é um presidente – Ilustração de Raphael Mortari)

O presidente dos patrões e povo do “Poço”

por Alexandre Filordi

O filme espanhol “O Poço” (2019), de Galder Gaztelu-Urrutia, tematiza um grupo de pessoas detido em um abismo de concreto com patamares quase infinitos. A situação é simples: a cada dia um banquete é preparado e baixado sob os patamares do poço. Na medida que vai parando, os condenados comem, sob um tempo cronometrado, as sobras dos patamares anteriores. Se ousam guardar algum alimento, a temperatura do cômodo aumenta ou diminui abruptamente, fazendo-os dispensar os alimentos.

É fácil imaginar o restante: ao passo que os patamares descem não se sobra nada, pura e simplesmente porque as pessoas de cima se comportam como animais e não pensam nos de baixo. Isso tudo não deixa de ser metáfora nua e crua do egoísmo neoliberal e meritocrático: o que importa é o meu quinhão e a minha vez.

O Brasil está tal e qual: um poço. Aliás, nossa história reproduz a anestesia e a indiferença das camadas superiores com as inferiores econômica-socialmente. Ademais, há aí um presidente que se banqueteia com ignorância, ignomínia e perversão mentecapta. Trata-se de alguém que, além de ignorar qualquer princípio de realidade, só tem olhos para quem está nos patamares superiores. Danem-se os do fundo do poço.

Em plena crise com o COVID-19, este presidente emite a Medida Provisória 927, permitindo a suspensão dos salários de milhares de trabalhadoras e de trabalhadores brasileiros. É “impreCionante”! (sic), como escreveu o seu ministro da educação. 

O sintoma de, nos primeiros dias de seu governo, suprimir em uma canetada o programa Mais Médicos, renegando os médicos cubanos que agora são aplaudidos e recepcionados como heróis na Itália, já era sinal não apenas da demência deste governo, mas de sua adesão completa a uma necropolítica, ou seja, na implementação de políticas que normalizam a morte dos que estão no patamar inferior da sociedade. 

Enquanto os Estados civilizados se mobilizam para garantir a proteção, o sustento e o amparo de seus cidadãos no contexto da pandemia do COVID-19, o Brasil, assumidamente, passa a autorizar a morte por sufocamento econômico de seus cidadãos trabalhadores. 

Se antes do COVID-19 milhares de trabalhadores precarizados como ambulantes, pequenos comerciantes, fazem-se-de-tudo, vendedores de pano de prato, bolo, doces, brigadeiros, etc. já se viam à mercê da aniquilação sócio-econômica que só tem olhos para os índices do rentismo, agora se oficializa a morte. É uma questão mesmo econômica: no fascismo contemporâneo não se constroem mais campos de concentração – são onerosos demais – porém, fazem-se das casas o lugar de espera da morte dos que não pertencem à eugenia social dominante.  

Os patrões agradecem, claro está, são os mais favorecidos na ordem do banquete e da proteção econômica; eles possuem o seu representante. E os demais? Quem se importa? “São os de baixo”, vidas que não valem nada para os que estão de cima. 

Alexandre Filordi (EFLCH/UNIFESP)

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