Terreiros sob ataque e em resistência: o retrato do racismo religioso na mídia brasileira
por Ana Paula Mendes de Miranda e Andréia Soares Pinto
Desde 2021, um levantamento feito pelo Ginga-UFF vem selecionando e analisando notícias sobre conflitos de natureza étnico-racial-religiosa, conhecidos popularmente como “intolerância religiosa” ou “racismo religioso”, no Brasil. Em 2024, parte desses dados foram disponibilizados ao público no site gingauff.com.br, reunindo publicações lançadas até o ano de 2023.
Agora, em 2026, o banco de dados foi atualizado com o acervo referente a 2024 e revelou mudanças significativas na forma como essa cobertura midiática funcionou nas últimas décadas. Ao todo, foram analisadas 1.828 publicações, produzidas entre 1996 e 2024 por jornais, portais de notícias, revistas, blogs e rádios online.
Coordenamos um levantamento que sistematiza informações sobre violações de direitos, mobilizações sociais, disputas institucionais e respostas do poder público que envolvem os povos tradicionais de matriz africana.
Entre 2014 e 2019, as violações contra os povos de terreiro, no estado do Rio de Janeiro, ganharam maior visibilidade na mídia. Esse destaque está diretamente relacionado ao crescimento de ataques praticados por grupos armados (milícias/traficantes) que adotam discursos e símbolos do evangelismo, articulando assim a perseguição aos terreiros aos interesses comerciais que envolvem o controle territorial. A partir de 2023, observamos situações semelhantes em outros estados, como Bahia, Piauí, Alagoas, Amazonas, Acre, Pará, onde lideranças e comunidades afro-religiosas relataram episódios de agressões e expulsões em contextos urbanos e periféricos. São violências que datam desde 2009 até 2024 — e seguem acontecendo.
O Rio de Janeiro tornou-se uma vitrine nacional desse fenômeno. Na Zona Norte da capital, em áreas que foram denominadas por um criminoso como “Complexo de Israel”, e depois assim chamadas pela mídia, e em e municípios da Baixada Fluminense — especialmente Duque de Caxias, Nova Iguaçu e Belford Roxo — foram noticiadas situações de violência contra terreiros e lideranças religiosas. Entre os casos recorrentes estão invasões, depredações, incêndios dos territórios sagrados, além de ameaças, agressões físicas e expulsões de sacerdotes e sacerdotisas.
O caso emblemático de Mãe Carmem, ialorixá obrigada a destruir objetos sagrados, em 2017, ajudou a demonstrar que essas violências não eram fatos isolados. Entre 2014 a 2019, o levantamento identificou 36 eventos de violência contra terreiros e religiosos/religiosas de matriz africana apenas no estado do Rio de Janeiro.
O crescimento dos conflitos territoriais e a presença crescente de domínios armados têm contribuído para a intensificação e a disseminação desses ataques, sobretudo nas periferias da região metropolitana das capitais. Esse fenômeno evidencia que o racismo religioso não é um fenômeno localizado, mas um problema de alcance nacional, envolvendo múltiplos atores e distintas formas de violência. Longe de se restringirem a atos isolados de “intolerância” ou a conflitos interpessoais, essas agressões estão diretamente conectadas às dinâmicas de poder armado, às disputas por território e à reorganização de mercados ilegais, inclusive aqueles atravessados por discursos e práticas religiosas.
Não são atos isolados
Nesse contexto, a maior visibilidade não reflete simplesmente um aumento de “atos isolados” de ocorrências. O que se observa é uma mudança qualitativa no modo como o problema se manifesta e é enquadrado publicamente. Estamos diante da consolidação de um padrão de violência associado à presença de domínio armado, exercido por facções/comandos ou milícias, que incorporam uma gramática religiosa de matriz evangélica, como parte de seus mecanismos de controle social e territorial. Com isso, o racismo religioso passa a ser reconhecido como um problema de direitos humanos e de segurança pública, exigindo respostas estatais que ultrapassem o campo da liberdade de crença e enfrentem as condições políticas e institucionais que sustentam essas violências.
As mídias passaram a dar mais atenção a esses episódios porque eles apresentam marcadores territoriais claros, como a imposição de “áreas proibidas para religiões de matriz africana”, e evidenciam a substituição da autoridade do Estado por poderes armados locais. A expulsão dos terreiros dos centros urbanos não é novidade: historicamente, essas casas foram empurradas para as periferias pela criminalização de suas práticas e pelas políticas de ordenamento urbano. O que muda no cenário atual é que essa exclusão passa a ser imposta também pela coerção armada, transformando o racismo religioso em um problema urbano e político de acesso à cidade e de garantia de direitos.
A partir de 2022, observa-se uma inflexão importante na cobertura midiática. Há uma redução relativa de publicações centradas exclusivamente na violência e um aumento de conteúdos voltados a mobilizações da sociedade civil, ações judiciais e políticas públicas de enfrentamento ao racismo religioso. Essa mudança indica maior visibilidade das estratégias de resistência construídas por lideranças afrorreligiosas e por organizações de direitos humanos.
No recorte específico de 2024, essa tendência se consolida. As publicações passam a articular com mais frequência racismo religioso, disputas jurídicas e respostas institucionais do Estado. Cresce a presença de notícias sobre audiências públicas e iniciativas de órgãos governamentais, ao mesmo tempo em que continuam sendo registrados ataques a terreiros e discriminações em espaços públicos e institucionais.
Do lado da sociedade civil, os atos públicos, caminhadas, marchas e encontros religiosos aparecem em 13,2% das publicações analisadas, sendo mais da metade concentrada nos anos de 2023 e 2024. Já por parte do poder público, relatos sobre ações judiciais, representaram 39,7% das publicações de 2024. Isso revela interesse crescente da mídia não apenas em relatar a violação, mas também em mostrar o que foi feito após os ataques.
Racismo religioso persiste
Apesar desses avanços, o levantamento evidencia que o racismo religioso segue persistente. Em 2024 foram identificados 698 eventos de violações, incluindo agressões físicas, ataques a terreiros, violência simbólica, discriminação institucional e mortes violentas de lideranças religiosas. Aproximadamente 74% dos relatos das violências físicas e materiais dizem respeito a ataques diretos a espaços sagrados, como incêndios, invasões e depredações.
Em termos regionais, os dados de 2024 apontam maior concentração nas regiões Norte e Nordeste, com 41 eventos identificados, enquanto a Região Sudeste registrou 31. Esse resultado de 2024 reflete, em parte, o trabalho de campo realizado pela equipe do Ginga UFF nessas regiões, que permitiu aprimorar as chaves de busca do levantamento, e romper as “bolhas” criadas pelos algoritmos das plataformas digitais.
O estudo também destaca o papel estratégico das mídias independentes, étnico-raciais e afrorreligiosas, responsáveis por 11,7% das publicações analisadas. Esses veículos ampliam o repertório interpretativo sobre o racismo religioso, tensionando silenciamentos históricos e produzindo contranarrativas fundamentais para o debate público e acadêmico.
Ao mapear os conflitos que ocorrem em diferentes esferas — terreiros, escolas, serviços públicos, espaços urbanos e instituições estatais —, o levantamento reafirma o caráter multidimensional do racismo religioso no Brasil. Os dados reforçam a necessidade de aprofundar pesquisas, fortalecer políticas públicas de proteção e garantir mecanismos efetivos de justiça e reparação.
Ana Paula Mendes de Miranda – Professora do PPGA-UFF; Professora Visitante Senior do PPGA-UFS; Coordenadora do Ginga UFF; Bolsista de Produtividade em Pesquisa do CNPq – Nível 1D; Cientista do Nosso Estado – FAPERJ; Pesquisadora do INCT-InEAC.
Andréia Soares Pinto – Doutoranda em Antropologia pelo PPGA/UFF; Pesquisadora do Ginga UFF; Pesquisadora do INCT-InEAC.
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