20 de maio de 2026

O risco do regresso, por Felipe Bueno

Argentina hoje acorda, se vê no espelho e se dá conta de que meio século separa o presente do início de sua última e mais violenta ditadura.
Peron e Isabelita - Reprodução

Juan Domingo Perón retornou do exílio em 1973, enfrentando divisões internas e o Massacre de Ezeiza na Argentina.
Perón foi eleito presidente meses depois, mas morreu em 1974, deixando Isabelita e um cenário político tenso.
Argentina relembra meio século da ditadura, com manifestações pela memória, justiça e alertas sobre ameaças à democracia.

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O risco do regresso

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por Felipe Bueno

Tomás Eloy Martínez descreve em La Novela de Perón o momento de ebulição política que antecedeu a volta do ex-líder à Argentina em 1973. Juan Domingo Perón retornava após quase duas décadas de exílio. Seu advento foi marcado pelo conhecido Massacre de Ezeiza, a coroação violenta de uma inviável concentração de milhares de argentinos à espera de seu redentor laico.

Perón voltava do exílio para ser presidente nos braços do povo.

Não de todo o povo, pois o peronismo à época já estava dividido de forma irreversível, apontando para os dois lados do espectro ideológico.

Se havia os montoneros de um lado, do outro estava a Triple A.

Mesmo assim, meses depois, ele foi eleito presidente da República de novo.

E morreu, no ano seguinte, deixando o cargo e uma sentença de morte para Isabelita.

Os parágrafos acima resumem a turbulência vivida pela Argentina, uma nação que desde seus primeiros passos teve de aprender a conviver com o conflito e suas consequências mais violentas. Sabendo disso, entendemos que os fatos que levaram a 1976 podem ser tomados tanto como avisos como atalhos, mas não como surpresas.

A Argentina hoje acorda, se vê no espelho e se dá conta de que meio século separa o presente do início de sua última e mais violenta ditadura. A noite sombria durou até 1983.

A posse de Raúl Alfonsín e o famoso Julgamento das Juntas, recentemente retratado no filme Argentina, 1985, deram esperança ao mundo civilizado de que o passado estaria julgado, punido e encerrado, literalmente, no passado. E a nação seria exemplo a ser – e não ser – seguido por outras que na mesma época estavam se redemocratizando, como o Brasil.

Porém, a História Oficial (nome de outro extraordinário filme sobre esse período) não foi tão bonita e justa como se esperava. Mesmo assim, a democracia prevaleceu, com todas as suas limitações, resistindo a alguns governos longos e outros muito fugazes, atentados não esclarecidos e inúmeras crises econômicas.

Neste fim de março, de veículos de comunicação a clubes de futebol, foram majoritárias na Argentina as manifestações de compromisso com a memória, a verdade e a justiça.

O inimigo, porém, segue à espreita, nos subterrâneos bonaerenses e nos porta-malas dos Ford Falcon que ainda são vistos pelas calles. Às vezes, o inimigo também ocupa a Casa Rosada, acompanhado por seu séquito, bradando a bandeira da liberdade.

Felipe Bueno é jornalista desde 1995 com experiência em rádio, TV, jornal, agência de notícias, digital e podcast. Tem graduação em Jornalismo e História, com especializações em Política Contemporânea, Ética na Administração Pública, Introdução ao Orçamento Público, LAI, Marketing Digital, Relações Internacionais e História da Arte.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para dicasdepautaggn@gmail.com. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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O Observatório de Geopolítica do GGN tem como propósito analisar, de uma perspectiva crítica, a conjuntura internacional e os principais movimentos do Sistemas Mundial Moderno. Partimos do entendimento que o Sistema Internacional passa por profundas transformações estruturais, de caráter secular. E à partir desta compreensão se direcionam nossas contribuições no campo das Relações Internacionais, da Economia Política Internacional e da Geopolítica.

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