6 de junho de 2026

O Salgado ou Doce Demais Ninguém Suporta, por Luís Antônio Waack Bambace

A democracia elimina a falha singular de um Henrique VIII de poder absoluto e temperamento ou posições imprevisíveis
Salvador Dali

O Salgado ou Doce Demais Ninguém Suporta

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por Luís Antônio Waack Bambace

            Existem algumas ferramentas de gestão eficazes, que podem ser usadas para aprimorar o sistema de gestão de uma empresa, e por que não de um país, estado ou município. A Teoria de Jogos provê o Projeto de Mecanismos, regras afetam ganhos e riscos de que decide fazer algo e podem inibir ações lesivas ao bem comum. Só que panelas e bandas podres fazem regras que geram riscos para quem quer atuar no sentido de promover o bem comum. Se alguém nomeia um chefe pilantra, e ele tem poder de demitir em sua área de comando, ele pode limpar sua área de gente séria, e aí coagir gente para a banda podre. Tem a famosa estória dos dois grupos de 1/5 opostos, incorruptíveis e absolutamente pilantras da sociedade, e os 3/5 que preferem ser honestos, mas se pressionados podem fazer bobagem. Tem também a Análise de Impactos Cruzados da qual vamos falar primeiro.

            Em teoria de controle, tem a tal da Matriz de Transição de Estado, fortemente relacionada com como algo influi em outro item. Calcular estas matrizes não era fácil, aí no início dos anos 60, Gordon e Helmer resolveram testar na avaliação de estabilidade de processos de produção um caminho simplificado, que depois foi usado para desenvolvimento do método Delphi, uma espécie de brainstorming que circulava sugestões escritas, para retirar a influência do chefe, e onde o moderador que apenas lia todas as sugestões por ordem de chegada, era figura central para tal. Claro, ele podia usar sinais como a turma do truco, mas como ele não precisava de habilidade alguma além de saber ler, podia ser de fora do grupo. A influência de algo noutro item é igual à dependência deste outro item com o primeiro. Mas nenhum item depende só de um único item, até na linha de montagem uma operação depende do operador, daquilo que veio da operação anterior, da energia que pode faltar, da luz ambiente que garante que o operador veja o que faz e por aí vai. Cada fator tem uma chance de falha.

O método original de Gordon e Helmer coloca aij na linha i fora da diagonal a probabilidade/intensidade com que a variável j é afetada pela variável i, em ai0 a probabilidade de ocorrer o efeito a, ou seu valor provável (peso do motor). A soma da coluna i excluída ai0, dá como a variável i é afetada (dependência), e a soma da linha i quanto ela afeta (influência). Já ai0 dá ideia de se a chance de uma variável i ter um valor indesejado. Por exemplo falha singular num equipamento de avião é tolerada se superior a 10 FITs, com um FIT uma falha em um bilhão de horas de operação do item, assim se falha 10 vezes em um bilhão de horas, pode depender só dela para não se ter falha catastrófica. Nenhum ser humano tem uma taxa de falha tão alta. Aí, se projeta o avião para que nenhuma falha humana isoladamente gere problemas. São os manches que vibram se o avião está quase em estol, alertas sonoros de estol, pilotos automáticos e por aí vai. Colocando num gráfico os pontos em que uma coordenada é a soma das influências de um elemento e a outra a soma das dependências, pode-se ter 3 situações, como da figura abaixo:

            Na situação a, o sistema é auto regulável e estável, na b absolutamente incontrolável, e na c pode ser controlado ou tornado auto regulável, por mudança variável de dos acoplamentos dos pontos fora do L aparente com algo de cara de vértice do L perto da origem com elementos desta entidade. Se há como via regras ou a alterações permanentes do sistema, levar um sistema com o aspecto c para o caso a ele não precisa de controle, se há como usar acoplamentos variáveis, usa-se um controle para que ele funcione. Como probabilidades são difíceis de obter, pode-se usar vários tipos de opções alternativas, com regras, que distorcem em alguns casos gráficos como este e tem suas zonas de estabilidade bem definidas, ou o tudo ou nada para acoplamentos como no método de Godet, e analisar a situação sobre várias hipóteses do tudo ou nada. Claro se não tem um componente pronto para fazer o próximo passo de fabricação o Godet usa dependência unitária.

            Se a dependência com um item passível de falha for total, a padaria onde só o dono sem qualquer parente opera a caixa registradora, e não confia em funcionário algum, vai ter fila no caixa se ele for no banheiro e se ele ficar doente a padaria para. Não é o caso do monomotor que plana se tiver velocidade suficiente e pode fazer um pouso de emergência sem motor, como fez o Sullenberger que perdeu dois motores e pousou no Rio Hudson. Se apenas num transitório curto a falha singular tiver efeito catastrófico, tem-se a presença desta situação no modelo, e aí em análises se consideram duas falhas, estar na situação crítica e pifar o componente.

            A democracia elimina a falha singular de um Henrique VIII de poder absoluto e temperamento ou posições imprevisíveis, que mandou matar o Thomas More por este ter se oposto ao divórcio dele com Catarina de Aragão. E olhe que diz a lenda, que ele sifilítico, poderia ter sua filha Elisabeth como rainha, ou dar um jeito de ter um filho fora do casamento e torná-lo herdeiro e rei, e que esta via, aconselhada pelo Thomas More, evitaria um conflito com a Espanha. Na Máfia, o chefão controla o capo, o capo os tenentes, e os tenentes os operacionais, dependências e influências ficam todas perto da diagonal, quem vai fazer a ação e pode se beneficiar dela, passa para cima a informação que leva a decisão, informação falsa, direcionada ao que quer o informante, e decisão errada. Face ao método citado é que tem chefia matricial nas empresas, um chefe de execução e outro de formação e avaliação de pessoal. Aí se o chefe for ruim, ele não coage subordinados. Judiciário e executivo totalmente independentes um do outro, já tendem a ser melhor que o poder absoluto e a estrutura de Máfia dos amigos do Henrique VIII. Põe leis, de outro poder independente e melhora ainda mais. Só que independência entre poderes é relativa, dinheiro na mão é vendaval, é vendaval nas mãos de um sonhador (a ter poder demais) …

            Se uma facção criminosa tem um milhão de filiados num país de 155 milhões de eleitores, com parentes de seus filiados ela tem uns 3 milhões de votos, 1,9% do total. Coalizões de facções podem assim chegar a frações ainda maiores. Algo que afeta as influências e dependência de todo e qualquer esquema de controle social. Corrompe prefeito, judiciário, legislativos locais ou geral, e por aí vai. Afinal dinheiro obtém via propaganda votos, e localmente a facção tem votos de seus membros. Faz mudanças de endereço para lugarejo, e a maioria dos eleitores podem ser da facção. Assim grupos muito poderosos afetam governança, seja via propaganda legal, seja com ferramentas ilegais.

            O parlamentarismo, o semipresidencialismo, e os presidencialismos com eleições de meio de mandato do congresso, tentam aumentar a estabilidade do sistema com aumento da frequência de eleições, e lembramos que lá atrás os anarquistas falavam em ausência de governo ou eleição todo ano. O que eventualmente é um bom mecanismo de pressão nos políticos, mesmo que estas eleições não sejam para o mesmo cargo. Claro que um parlamentarismo onde só o presidente dissolve o congresso dá poder demais a alguém que queira virar ditador que chegue a presidência, ou a um presidente corrupto. Reza a cartilha do chefe, o congresso permanece, não rege, ele dissolve, e tem dinheiro público e pronunciamentos a nação para manipular a eleição seguinte.

            Aí vem a Teoria de Jogos e o seu Projeto de Mecanismos, que deu a Hurwicz, Maskin e Mayeron o Nobel de economia de 2007. Basicamente se o produto das vantagens da situação A pela chance da situação A ocorrer superar o produto das vantagens da situação A não ocorrer pela chance da situação A não ocorrer, o sujeito racional em tese vai escolher A se souber avaliar a situação. Mesmo considerando risco de falhas de avaliação, e aspectos não racionais, de efeitos manada, sentimento de raiva e outros fatores, bem equacionados por Tirole (Nobel de 2014), a tendência é o alinhamento de qualquer pessoa com a escolha racional de informação completa e técnica decisória perfeita. Desvantagem é vantagem de valor negativo na hora de fazer a conta. A chance de algo não ocorrer é um menos a chance deste algo ocorrer.

            O que se faz no avião, já que não dá para ter falha zero em nada? Mexe-se na estrutura para depender menos da falha. Quando a estrutura é boa, em termos de redundância, o risco da falha quase não muda mesmo com variação de fator de 3 a 4 na falha dos componentes mais problemáticos. Triplicando até mesmo a taxa de falhas de todos os componentes não se afeta o sistema significativamente, um exemplo é o sistema da figura abaixo, na suposição de que basta chegar em uma ponta, para nada de ruim acontecer. Tentem variar de um fator de 3 as probabilidades e ver que o risco baixo pouco muda. Lembrando que duas ações que tem de dar certo para tudo dar certo, têm chance de sucesso igual ao produto de suas chances de sucesso, exemplo é o motor de arranque funcionar e o comutador de partida também funcionar. Se basta uma dar certo para o sistema funcionar, exemplo ter um mínimo de luz com duas lâmpadas nos bocais do teto, a chance de falha é o produto das chances de falha.

Tem o caso da chave H-H resolvido com a regra de Bayes, como a chave falhar exclui a chave não falhar, dá para achar a chance de falha desenhando um sistema com a chave no lugar, a conexão representada pela chave seletora. A chance da chave funcionar pela chance do primeiro sistema falhar, mais a chance da chave não funcionar multiplicada pela chance do segundo sistema falhar, é a chance de falha do sistema. Porque a H-H é importante para o caso? Porque pessoas que decidem são chaves seletoras dos sistemas sociais.

            Lembramos que transparência e regulamentação reduzem as chances de falha de decisores, maior número de decisores independentes, conluio sempre existe, também baixa a chance de falha, mais de um tem de errar para algo dar errado. Mais etapas têm efeito igual, afinal alguém pode ter uma boa ideia fora do agito do debate, pode esfriar a cabeça e por aí vai. Pressa, inimiga da perfeição piora tudo. Aí vem o valor da decisão. Ninguém corrompe ninguém se o valor do item associado a decisão é pequeno, não vale a pena o esforço. Mas se alto … Também não existe como escapar da vontade de um fornecedor mau-caráter se só ele tem o bem essencial a disposição. Põe probabilidades bem estimadas no sistema e se vê qual é mais propenso a falhar. Não tem certeza de valores, faz com mais de um valor. Modifica a estrutura, e a hora que sai algo com baixa chance de se ter problemas, tem-se uma proposição de governança razoável para a empresa ou órgão público, ou mesmo governo.

            Vejamos agora o caso de eleições do senado e mudanças no supremo. Tivéssemos a regra de que as duas casas do congresso tem de concordar com maioria de 2/3 com o impedimento de um ministro, e a situação talvez fosse de risco menor que o senado decidir sozinho. Precisasse de plebiscito e ninguém gastaria dinheiro em eleição do senado, com vistas e mudar o supremo para livrar sua cara, com isto tendo pouca influência no resultado, face ao plebiscito. Toda faca tem dois gumes, e o mais óbvio no caso é segurança contra custo. Quando se analisa a suspensão de um carro via Análise de Impactos Cruzados se analisa em várias situações, conforto, estabilidade na curva, frenagem e possibilidade de desvio com pequenas desorientações do volante e por aí vai, não só na condição ideal, mas com falha em componentes da suspensão, e outros itens também, vento lateral nem faz parte do carro mas afeta desempenho. Num sistema social o mesmo tem de ser feito.

O sistema ideal é o de maior chance de funcionar a contento, por mais forte que seja a tentativa de desestabilizar o sistema. Tem solução de curto prazo, ante aos fatores negativos presentes na sociedade, e de longo prazo, aquela que pode funcionar melhor caso se controle os fatores negativos de hoje. E soluções de transição. Faz com Teoria de Restrições de Goldratt, árvores de realidade atual que leva em conta realimentações problemáticas, evolução da espinha de peixe de Ishikawa que não considera tais realimentações, uma árvore similar para o que se que a longo prazo, e árvores para situações intermediárias, e se traça um possível caminho de evolução de um sistema social, como a governança de uma empresa, ou até mesmo país. Não dá para deixar tudo estanque para sempre, afinal o mundo muda, e as big techs são o maior exemplo de que governança alguma será a melhor solução para sempre. Será que atual governança de nosso país é boa, para a situação de hoje?

Luís Antônio Waack Bambace. Engenheiro Mecânico. Doutor em Aerodinâmica Propulsão e Energia.

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