O Senhor dos Anéis, estilo estético trumpista
por Fábio de Oliveira Ribeiro
Donald Trump tem dito que vai escolher o novo governante do Irã, isso depois de ter iniciado uma guerra ilegal cometendo dois crimes de guerra (bombardeio de uma escola de meninas e o assassinato a sangue frio do Aiatolá Khamenei). A realidade pouco importa para o presidente dos EUA: ele vive numa bolha em que as palavras dele são capazes de criar a realidade mesmo que isso não seja uma verdade factual.
É impossível convencer uma pessoa enlouquecida de que aquilo que ela considera real é apenas uma manifestação de sua doença mental. O melhor é impedir alguém assim de disputar eleições ou afastá-lo imediatamente do cargo antes que a ópera bufa governamental se torne uma tragédia nacional e internacional. Não creio que isso seja possível nos EUA, país que parece fadado a se tornar prisioneiro do fanatismo místico tecnológico com desastrosas irrupções autoritárias e militares.
A democracia americana, que era em grande medida uma ilusão de ótica preservada cuidadosamente pela plutocracia imperialista, não existe mais. O império malvado ressurgiu na superfície e não me parece que ele possa retornar para traz das cortinas, porque a glorificação dos crimes de guerra cometidos no Irã domina o cenário jornalístico americano.
O que fazer numa situação como essa? Exceto ironizar a realidade, nada pode ser realmente feito por alguém que não tem poder para interferir no curso da história. E é isso que eu farei aqui. Sabendo que pode parecer esquisito e ofensivo, peço antecipadamente desculpas a J.R.R. Tolkien e aos descendentes dele.
Donald Trump não está apenas reescrevendo a constituição dos EUA, redesenhando a política americana e a arena internacional. De certa maneira, ele reescreve a história da literatura inglesa ao criar uma nova versão de o Senhor dos Anéis.
Em razão das adaptações feitas para o cinema, todos conhecem a obra de J.R.R. Tolkien. A saga de Frodo e seus companheiros hobbits, que é cheia de situações perigosas, inusitadas e as vezes engraçadas, termina bem.
Após o um anel ser revelado, uma reunião de hobbits, elfos, homens e anões decidem que ele não pode cair nas mãos de Sauron. A um anel deve ser levado a Mordor para ser destruído. A jornada da sociedade do anel não é fácil. Frodo enfrenta perigos imensos no caminho e até dentro do próprio grupo, que é seguido de perto por Gollum um personagem misterioso e sorrateiro.
Enquanto a jornada da sociedade do anel progride, os exércitos de orcs devastam a terra média. Esses exércitos são finalmente derrotados. O pérfido Saruman é sobrepujado pelo exército de Barbárvore na Batalha de Isengard. O Rei retorna ao poder em Minas Tirith, capital do reino humano de Gondor. Sauron é morto em batalha por um “não homem”.
Diante das fornaças de Mordor, no momento final Frodo hesita e cobiça o anel para si. Ele é então obrigado a enfrentar a cobiça ainda mais forte de Gollum pelo objeto. Ambos disputam o anel e Gollum cai na fornaça segurando seu precioso e desejado anel. A destruição do um anel provoca o desmoronamento da ameaçadora Torre de Barad-dûr e a devastação dos exércitos de orcs. Frodo é resgatado e retorna ao Shire. Os elfos se retiram da Terra Média levando consigo o idoso Bilbo Baggins, tio de Frodo.
Na versão dessa longa e cativante narrativa de Donald Trump as coisas ocorrem de maneira diferente.
Frodo aceita a proposta de receber 1 bilhão de dólares para entregar o um anel a Sauron. De posse do anel, Sauron impede a derrota e a queda de Saruman e, com ajuda do mago traiçoeiro ele usa a tecnologia Palantir para localizar e eliminar o Rei antes dele retornar a Minas Tirith.
O novo governante de Gondor é escolhido pelo próprio Sauron, frustrando as expectativas de Saruman de ser nomeado para o cargo. Frodo usa seu dinheiro para resgatar Gollum da miséria e ambos se estabelecem no Shire, agora governado por um orc plenipotenciário de Sauron.
Para felicidade geral dos orcs, os elfos são finalmente derrotados de uma vez por todas com ajuda da força vinculante e irresistível do um anel. A Torre de Barad-dûr é reforçada e aumentada e fornece a planta para a construção de outras torres semelhantes por toda Terra Média. Os elfos derrotados são obrigados a trabalhar na construção desses edifícios recebendo uma ração miserável de comida e água suja para beber.
Uma nova religião foi criada para estruturar a sociedade da Terra Média. Nela, orcs atuam como pastores que pregam enlouquecidamente uma teologia que mistura ganância por lucro, ódio racial contra os elfos, a glorificação da violência sectária e das armas de guerra e a necessidade de obediência a Sauron. Ele foi ungido por Deus para governar a Terra Média e é o único que pode decidir quando e onde a violência militar será empregada. Aqueles que não se submetem à autoridade de Sauron são infiéis, impuros e indignos da graça da divindade ou de proteção dos pastores.
Não existe saída do inferno criado por Sauron na Terra Média. Todos se curvam de medo ao espírito malévolo que após ganhar um novo corpo faz questão de limpar os dentes com palitos falantes feitos com a madeira de Barbárvore. Os humanos da Terra Média que se recusam a aceitar o regime democrático de Sauron são exterminados. Os anões são autorizados a voltar para suas minas, desde que entreguem ao governante da Terra Média 80% de todo o ouro, prata, pedras preciosas e terras raras que consigam retirar do fundo da terra. The end.
No mundo de Donald Trump inexiste possibilidade de Sauron ser derrotado. Portanto, todas as versões originais da obra de J.R.R. Tolkien serão recolhidas e queimadas numa imensa e belíssima fogueira acesa nas proximidades do muro que separa os EUA da realidade, da felicidade e do respeito aos outros povos.
Fábio de Oliveira Ribeiro, 22/11/1964, advogado desde 1990. Inimigo do fascismo e do fundamentalismo religioso. Defensor das causas perdidas. Estudioso incansável de tudo aquilo que nos transforma em seres realmente humanos.
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