21 de maio de 2026

O simbolismo do Alasca nas relações russo-americanas 

A escolha é carregada de simbolismos, envolvendo a história das relações internacionais e a própria história das relações russo-americanas.
Trump recebe o presidente russo, Vladimir Putin, na Base Conjunta Elmendorf-Richardson, Anchorage, no Alasca, em 15 ago. 2025 (Crédito: DoD/Benjamin Applebaum)

do OPEU – Observatório Político dos Estados Unidos

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O simbolismo do Alasca nas relações russo-americanas 

Por Pedro Martins e Yasmim Abril M. Reis* [Informe OPEU] [Putin]

No dia 15 de agosto, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e sua contraparte russa, Vladimir Putin, encontraram-se no Alasca para discutir uma miríade de assuntos, sendo o mais premente o da atual Guerra na Ucrânia. Foi a primeira reunião entre Rússia e Estados Unidos desde 2021 e, consequentemente, a primeira desde o início do conflito russo-ucraniano, deflagrado em fevereiro de 2022. A escolha pelo Alasca é carregada de simbolismos, envolvendo a história das relações internacionais e a própria história das relações russo-americanas.  

A decisão do Alasca como o palco da reunião entre os dois presidentes não foi meramente uma deliberação geográfica. É representativa, porque a venda do Alasca tem relação direta com a Guerra da Crimeia (1853-1856), península que – atualmente – está no cerne da questão russo-ucraniana. Emblemática também, porque essa venda ocorreu em um quadro bem atípico das relações bilaterais russo-americanas naquele período. Como foi noticiado pela imprensa, o Alasca foi parte da América Russa entre o final do século XVIII até 1867, quando foi vendido para o governo americano por US$ 7,2 milhões.  

Destaca-se, além disso, que o conflito entre a Rússia e a Ucrânia foi tema da campanha eleitoral de Trump, durante a qual o presidente prometeu findar a guerra em 24 horas após ser eleito. Passados mais de 100 dias de governo, a promessa está longe de ser concretizada.  

Alasca como ponto estratégico na relação EUA-Rússia 

A primeira discussão sobre a possibilidade de venda do Alasca se deu logo após a Guerra da Crimeia. Posteriormente à derrota russa no conflito, o Império russo percebeu que a colônia russa na América do Norte – então administrada pela Companhia Russo-Americana – seria muito difícil de ser defendida em um conflito militar, mesmo que a força atacante fosse de tamanho limitado. Ademais, o Império russo estava em sérios apuros financeiros após a Guerra da Crimeia, e a empresa criada para administrar o território colonial norte-americano também precisava de constantes aportes públicos do Império para poder arcar com suas despesas. Somavam-se a isso os constantes assédios de criminosos americanos na costa do Alasca. Para além das dificuldades econômicas e logísticas de se manter essa colônia na América do Norte, o Império russo via na venda do Alasca uma forma de se aproximar dos Estados Unidos. A discussão que levou a essa transação foi iniciada logo depois da derrota russa na Crimeia. A Guerra Civil americana (1861-1865) atrasou as negociações, que puderam ser iniciadas apenas em 1866, sendo concluídas no ano seguinte.   

Considerando-se todos esses detalhes pretéritos, pode-se compreender o simbolismo da escolha do Alasca como palco da reunião bilateral. Tanto à época quanto agora, a Rússia estava em dificuldades por causa de um conflito militar. Primeiro, pela derrota na Guerra da Crimeia, a qual gerou pesadas perdas territoriais para o Império Russo. Segundo, por causa das dificuldades de se manter um conflito militar de longa duração, tanto em termos de custos econômicos quanto pelos custos políticos e humanos da decisão de perdurar um confronto dessa envergadura sem uma resolução definitiva à vista. No aspecto econômico, a queda dos preços internacionais do petróleo tem imposto dificuldades financeiras crescentes para o governo russo manter os custos da máquina, uma vez que cerca de 30% do seu orçamento público depende das receitas de exportação de petróleo.  

Frisa-se ainda que as relações bilaterais russo-americanas se deterioraram após os eventos da Euromaidan, em 2014, sinalizando o fracasso do esforço de uma melhora na gestão de Barack Obama (2009-2016). O referido governo (2009-2017) fez uma tentativa de “reinício” das relações russo-americanas, mas se findou como frustrado. Essa desilusão teve vários eventos associados. O primeiro se refere ao asilo político que a Rússia concedeu ao estadunidense Edward Snowden, em 2013. Após esse evento, Obama lamentou o episódio e declarou que a Rússia estava retornando a uma “lógica de Guerra Fria”, cancelando a cúpula prevista entre ambos os países. Depois, em 2014, a Rússia anexou a Crimeia, seguida da intervenção na Síria, em 2015. De fato, esses eventos dificultaram a retomada das relações bilaterais, que, desde a Guerra Fria, têm sido caracterizadas como tensas.  

Em 2016, durante sua primeira campanha eleitoral, Donald Trump prometeu restabelecer uma boa relação com a Rússia, superando o recente passado frustrado da era Obama. Após o processo eleitoral nos Estados Unidos, começaram a surgir acusações de interferência russa nas eleições. Apesar disso, Trump defendeu Putin e as relações bilaterais, o que marcou uma mudança ao longo dos últimos 25 anos de relacionamento. 

As relações russo-americanas são pautadas por instabilidade, não tendo, portanto, uma trajetória linear. Essa circunstância fica evidente no governo Joe Biden (2021-2025), quando as relações se escalonavam. Antes de Biden assumir seu mandato, Putin acusou-o de ser “russófobo”. Além disso, em fevereiro de 2022, a Rússia invadiu a Ucrânia. Diante desse cenário, a gestão Biden apoiou a Ucrânia, enviando recursos em prol da defesa da soberania ucraniana frente às ações russas.  

As ações de apoio do governo Biden à Ucrânia foram alvo da campanha eleitoral de Donald Trump, o qual acusou a administração Biden de uma liderança fraca, responsabilizando-o pelo início da guerra.  

A promessa de Trump e a Guerra na Ucrânia  

A Guerra na Ucrânia teve início durante o governo Joe Biden, quando, em 24 de fevereiro de 2022, as tropas russas invadiram a extensão ucraniana, promovendo ataques às cidades próximas da capital do país, Kiev. Uma das razões da movimentação russa contra o seu vizinho tem como argumentação a possível entrada da Ucrânia na Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN). É essencial frisar que, historicamente, a Ucrânia era considerada pela Rússia um Estado-tampão (em inglês, Buffer State). Em outras palavras, a área ucraniana representava para a Rússia a separação russa dos países do Ocidente, incluindo, a fronteira com a OTAN.  

Todavia, com a invasão russa sobre a Ucrânia, essa configuração se alterou. O que antes era entendido como Estado-Tampão, transformou-se em Estado-Fronteiriço. Ademais, a Rússia, por meio da sua política externa, tem mobilizado a ideia da Pax Russa. Em outros termos, a Rússia tem priorizado, ao longo das últimas décadas, sua segurança no seu entorno regional. Alguns exemplos têm evidenciado isso, como a invasão russa na Geórgia, em 2008, e depois, em 2014, a anexação da Crimeia, por parte da Rússia. É necessário, contudo, expandir a análise para além da perspectiva do entorno regional próximo. Com isso, o acesso ao Mediterrâneo por meio do Mar Negro, revela-se como indispensável para que a Rússia consiga obter essa capacidade.  

Na gestão Biden, os Estados Unidos agiram em defesa da soberania ucraniana, fornecendo ajuda militar ao país. Desde o início da guerra, os Estados Unidos têm enviado recursos financeiros com o objetivo de fortalecer a posição ucraniana. É interessante, no entanto, notar que há interesse estadunidense em mitigar a presença russa na região, alegando que defender a Ucrânia e seu sucesso na guerra também era um dos componentes essenciais do interesse nacional dos Estados Unidos. Em outras palavras, os EUA têm interesses no território ucraniano, como o acesso aos minerais críticos e a redução da influência russa na região. 

Em sua campanha eleitoral para o retorno à Casa Branca, Trump adotou um discurso contrário ao de Biden. Mais do que uma posição pessoal, a postura de Trump revela como a questão da Ucrânia não é parte de um consenso bipartidário. Segundo pesquisa conduzida pelo Pew Research Center em fevereiro de 2025, 47% dos republicanos consideram o apoio americano à Ucrânia como sendo excessivo, ante 14% dos democratas. Por causa disso, Trump expressou, em diversos discursos, que acabaria com a guerra na Ucrânia em menos de 24 horas após sua eleição. Entre outros itens de sua proposta imediatista e pouco realista, Trump se propunha a conversar diretamente com o presidente Putin, conforme declarado por ele no debate presidencial, em 27 de junho de 2024, coordenado e transmitido pela emissora CNN.  

A moderadora Dana Bash “propôs o tema sobre política externa com ênfase na guerra da Rússia contra a Ucrânia como o primeiro ponto e questionou Trump, primeiro, se os termos propostos pelo presidente russo, Vladimir Putin, para encerrar a guerra eram aceitáveis”. Como resposta, “Trump culpabiliza Biden também pela guerra, invocando a retórica de fraqueza do democrata ante as adversidades internacionais”. O candidato republicano continua seu discurso, na tentativa de “transmitir ao eleitor norte-americano que a guerra teve início, em razão da fraca liderança da administração Biden no âmbito da política externa”. 

Após alguns meses desse debate, Trump foi eleito novamente presidente dos Estados Unidos. Conforme exposto neste texto, sua promessa de acabar com o conflito na Ucrânia ainda não se concretizou. O último dia de 8 agosto foi o prazo estabelecido por ele para que houvesse um cessar-fogo imediato, mas, de novo, sem o resultado esperado. As tentativas não se findaram e, no dia 15 do mesmo mês, Trump e Putin voltara a se encontrar para mais uma empreitada pela paz na região.  

A retórica sem êxito 

O encontro bilateral pode ser analisado como tendo gerado mais benefícios para o presidente Putin do que para Donald Trump. Central para essa análise é o fato de que a Rússia foi objeto de um esforço por parte do Ocidente de isolá-la internacionalmente, sobretudo, por meio das sanções. A esse esforço soma-se o fato de que o líder russo é alvo de um mandado de prisão do Tribunal Penal Internacional por crimes de guerra durante o atual conflito na Ucrânia. Por consequência, as viagens internacionais do presidente russo foram restritas a países parceiros, especialmente aqueles que não são signatários do Tribunal Penal Internacional. Nesse sentido, pode-se fazer a análise de que a presença dele em solo estadunidense para um encontro bilateral com o governo norte-americano, ator fundamental para o esforço de guerra ucraniano desde que o conflito teve início, acaba ferindo o esforço por parte do Ocidente de isolá-lo internacionalmente.  

Diferentemente do esperado, em decorrência do conturbado histórico das relações bilaterais nas últimas décadas, Putin foi recebido no Alasca por um tapete vermelho logo após seu desembarque na pista da Base Conjunta Elmendorf-Richardson, onde o presidente Trump o aguardava.  

Apesar da pompa e deferência na recepção do presidente russo, a reunião não estabeleceu qualquer meta ou ação que viabilize o fim da guerra na Ucrânia. Após três horas de conversas entre os dois presidentes, o pronunciamento oficial não mencionou novas sanções ou prazos para uma resolução que busque pela paz na região. Ao contrário, Putin, inclusive, convidou o presidente Trump para realizar uma nova discussão em Moscou.  

Além da falta de resultados práticos, o encontro russo-americano no Alasca provocou a revolta de aliados europeus e do próprio governo ucraniano, que rejeitaram qualquer esforço de uma discussão sobre o fim da guerra – especialmente uma que discutisse a cessão de controle de territórios – sem participação dos ucranianos. Logo após a reunião russo-americana, Donald Trump recebeu o presidente Volodymyr Zelensky e outras lideranças europeias na Casa Branca. Ambos os encontros também terminaram sem concretização sobre o desfecho do conflito, uma vez que persistem dúvidas sobre como oferecer garantias de segurança para a Ucrânia.  

Embora os envolvidos estejam longe de concordarem em aspectos fundamentais desse acordo de paz em construção, o mero fato de se estar discutindo os termos do desfecho do conflito é um avanço. Deve-se, no entanto, manter um cauteloso otimismo. O assunto não foi “resolvido em 24 horas” como apregoou Trump na campanha eleitoral e muito menos nos primeiros oito meses de governo. Todo esse empenho foi, na verdade, uma ação simbólica poderosa – ainda que com limitados efeitos práticos – para diferenciar a atual administração estadunidense dos seus adversários no Partido Democrata e, ao mesmo tempo, demonstrar força para sua base eleitoral.

Em síntese, a promessa de Trump de exercer uma liderança forte ante as novas adversidades internacionais não tem alcançado seu êxito. Revela-se mais uma retórica vazia do que uma ação prática em busca de uma ordem internacional mais pacífica no presente quartil do século.   

Pedro Mendes Martins é doutorando em Relações Internacionais pelo Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (PPGRI-UERJ) e mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Ciências Militares pela Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (PPGCM-ECEME). É pesquisador de Geopolítica no Núcleo de Avaliação da Conjuntura (Boletim Geocorrente-NAC/EGN). Contato: pedromendesmartins3@gmail.com.  

Yasmim Abril M. Reis é doutoranda em Relações Internacionais pelo Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais San Tiago Dantas (UNESP/UNICAMP/PUC-SP) e mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Segurança Internacional e Defesa da Escola Superior de Guerra (PPGSID/ESG). É pesquisadora colaboradora no Observatório Político dos Estados Unidos (OPEU) nas áreas de Segurança e Defesa, pesquisadora colaboradora no Grupo de Estudos de Defesa e Segurança Internacional (GEDES), líder de pesquisa voluntária no Laboratório de Simulações e Cenários na linha de pesquisa de Biodefesa e Segurança Alimentar (LSC/EGN) e pesquisadora de geopolítica no Núcleo de Avaliação da Conjuntura (Boletim Geocorrente-NAC/EGN). Contato: reisabril@gmail.com.  

** Revisão e edição final: Tatiana Teixeira. Primeira versão recebida em 30 ago. 2025. Este Informe OPEU não reflete, necessariamente, a opinião do OPEU, ou do INCT-INEU. Este conteúdo não reflete, necessariamente, a opinião do OPEU, ou do INCT-INEU. 

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