21 de maio de 2026

O trumpismo e a paz por meio da força, por Carmen Navas Reyes

A dissuasão pela ameaça do uso da força militar substitui diplomacia. É ferramenta ante a qualquer ameaça aos interesses dos EUA.
Águia-careca bicou várias vezes o pré-candidato do Partido Republicano à presidência dos EUA Donald Trump (Foto: TIME Magazine/Reuters)

do Globetrotter

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

O trumpismo e a paz por meio da força

por Carmen Navas Reyes

Donald Trump está se empenhando em deixar como seu legado uma doutrina que, como princípio orientador, busca reposicionar os Estados Unidos como o detentor do poder militar absoluto e do desprezo pelo multilateralismo. Isso se deve ao fato de que os EUA já não são a primeira potência econômica, o que afeta proporcionalmente sua capacidade militar.

De Monroe a Trump, o unilateralismo

A famosa Doutrina Monroe (DM) de 1823, que os povos do Sul conhecem muito bem, é a primeira grande declaração unilateral dos Estados Unidos: “América para os americanos”. Sob sua hegemonia, estabeleceu-se a esfera de influência e o direito de intervir nesta vasta região que vai do México à Argentina. A Doutrina é a antecessora da doutrina Trump em sua pretensão de sobrepor a soberania deste país à soberania regional.

O Corolário Roosevelt, de 1904: o presidente Theodore Roosevelt (1901-1909) amplia a Doutrina Monroe, justificando as intervenções militares preventivas na região com a finalidade de evitar a instabilidade. É a expressão mais clara do intervencionismo americano. Por meio dessa tese, os EUA invadiram o Panamá e o Haiti em nossa região, e as Filipinas, na Ásia. Pode-se dizer que é a linhagem mais direta da “paz pela força” antes de Trump.

Doutrina Truman, de 1947, e a contenção: aqui, pela primeira vez, o unilateralismo dá lugar a um multilateralismo liderado pelos Estados Unidos. Constrói-se um sistema de alianças (OTAN) e age-se sob a égide de instituições internacionais (ONU) para conter um rival. É o oposto da abordagem de Trump.

Doutrina Bush (pós-11 de setembro): a guerra preventiva e a promoção da democracia pela força, especialmente após a queda das Torres Gêmeas em 11 de setembro de 2001. Semelhante a Trump no uso da força, mas diferente em seu objetivo; Bush buscava transformar regiões, com nações mais ao seu gosto (nation-building); Trump não tem interesse em fingir que se importa com outros países.

A “Paz pela Força” vs. os Mecanismos Multilaterais de Construção da Paz

De acordo com o que era idealmente o Modelo Multilateral da ONU, que este ano completa 80 anos, a paz é construída por meio da diplomacia, do direito internacional, da cooperação e da ajuda ao desenvolvimento; o uso da força é sempre o último recurso e é exercido sob mandato do Conselho de Segurança. A Carta da ONU se baseia na soberania igualitária dos Estados e na proibição do uso da força, exceto em legítima defesa ou sob autorização expressa.

O Modelo Trump (“Paz pela Força”) surgiu para tentar pôr um fim definitivo à ONU. Em 29 de janeiro de 2014, em Havana, Cuba, a II Cúpula da (CELAC) reafirma o seu compromisso com a paz e a estabilidade ao declarar a América Latina e o Caribe como uma Zona de Paz, para consolidar uma área livre de conflitos e tensões, promovendo o diálogo e a cooperação como ferramentas fundamentais para resolver qualquer disputa. A última viagem de Marco Rubio pelo Caribe e outras nações da América Latina teve como objetivo romper esse consenso. Em 15 de setembro de 2025, o presidente Nicolás Maduro solicitou a convocação extraordinária da CELAC, em uma tentativa de recuperar esse espírito.

Nos primeiros meses de seu segundo mandato, Trump nos deu indícios de que, para ele, a paz é um subproduto do poder militar avassalador (“Peace through Strength”), fazendo assim uma referência ao governo de Ronald Reagan. A dissuasão pela ameaça do uso da força militar substitui a diplomacia e é uma ferramenta de primeira opção — não o último recurso —, e exercida de forma unilateral frente a qualquer ameaça percebida aos interesses nacionais dos EUA.

A Guerra contra as Drogas no Caribe como Expressão da Doutrina Trump

O Caribe como “terceira fronteira” e zona de trânsito de narcóticos. Tradicionalmente, a abordagem dos EUA para esta região tem sido mista (cooperação em segurança + ajuda ao desenvolvimento). Sob a nova doutrina Trump, as operações militares são intensificadas a uma dimensão nunca antes vista; a interdição é priorizada em detrimento dos programas de cooperação para o combate ou tratamento de dependências químicas e os países são pressionados com a ameaça de sanções caso não cooperem plenamente com as agendas de segurança dos Estados Unidos (uma reminiscência da política do big stick).

É nesse âmbito que se inscrevem as atuais operações na Bacia do Caribe sob um comando puramente militar e securitário, com menos ênfase na coordenação com agências civis ou governos locais com fins de cooperação e com o interesse de avançar em sua estratégia de mudança de regime, uma vez tendo identificado a Venezuela como seu principal inimigo nessa zona. A região é tratada como um cenário onde se deve aplicar a força para proteger a fronteira sul, quintal ou zona vital dos EUA, e não como uma comunidade de nações parceiras com as quais se constrói paz e estabilidade a longo prazo. É a “paz” imposta pela força.

O simbolismo do poder: Departamento de “Guerra” e a fusão entre segurança e diplomacia

A ideia de renomear o Departamento de Defesa (DD) para o histórico Departamento de Guerra (DG) não é apenas anedótica; o governo Trump tenta configurar um símbolo de seu poder: o DG implica uma postura abertamente ofensiva, agressiva e ativa, que expressa sem dúvida o desejo de retomar o espírito dos Estados Unidos, a maior potência militar do mundo, e novamente pôr um fim definitivo ao modelo pós-Segunda Guerra Mundial, incluindo a ONU e o direito internacional.

Marco Rubio simboliza, sem dúvida, o enfraquecimento deliberado da diplomacia dos Estados Unidos; seu duplo papel como Secretário de Estado e principal assessor de Segurança Nacional o coloca na mesmo posição sombria de Henry Kissinger na década de 1970, e isso não significa nada de bom, como mostra o passado, para países como Cuba, Venezuela e Nicarágua, mas também para os movimentos populares do Sul Global, que já vislumbraram o que essas decisões acarretarão.

A ação externa dos Estados Unidos baseia-se cada vez mais em critérios de segurança (migração, narcotráfico, terrorismo, comunicação), e a diplomacia limita-se a pressionar em favor de interesses e a agrega países aliados.

Por fim, essas mudanças sugerem uma transformação profunda e duradoura na mentalidade da política externa dos Estados Unidos, que provavelmente continuará influindo no futuro, independentemente do governo, pelo que estaríamos diante de uma nova doutrina: o trumpismo. Donald Trump está se empenhando em deixar esse legado como um princípio orientador para o mundo, caracterizado pela tentativa de reposicionar os EUA como detentores do poder militar absoluto, da soberania nacional e do desprezo pelo multilateralismo. Essa mudança obedece ao fato de que já não estamos diante da primeira potência econômica do mundo, e isso afeta proporcionalmente sua capacidade militar e outras capacidades, pelo que Trump também se encontra em uma corrida que só ele parece querer protagonizar, em várias frentes ao mesmo tempo.

A incipiente doutrina Trump, exposta em seu discurso perante a 80ª Assembleia Geral da ONU, seria então um híbrido que, por um lado, recupera o unilateralismo isolacionista de Monroe e o big stick de Roosevelt, rejeita a responsabilidade da nation-building de Bush, enquanto enterra o arcabouço multilateral de Truman como forma de contenção de rivais ou adversários.

Carmen Navas Reyes é uma cientista política venezuelana, com mestrado em Ecologia para o Desenvolvimento Humano (UNESR). Atualmente, ela está cursando um doutorado em Estudos da América Latina na Fundação Centro de Estudos Latino-Americanos Rómulo Gallegos CELARG, na Venezuela. Ela faz parte do Conselho Consultivo Internacional do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para dicasdepautaggn@gmail.com. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: https://www.catarse.me/JORNALGGN

Instituto Tricontinental

O Instituto Tricontinental de Pesquisa Social é uma instituição internacional criada e dirigida por organizações populares, focada em estimular o debate intelectual em torno dos grandes dilemas do nosso tempo, promovendo o pensamento crítico e estimulando pesquisas que possam incidir na realidade com uma perspectiva emancipatória a serviço das aspirações dos povos.

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

1 Comentário
...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

  1. JOSE OLIVEIRA DE ARAUJO

    23 de outubro de 2025 8:40 am

    Sendo os EUA um país cuja economia tem com pilar básico o complexo industrial militar, a necessidade de promover as guerras se transforma na sua razão de existir. Portanto, o que menos interessa aos dirigentes anericanos, independente de qual partido esteja no governo. Portanto, discutir as razões subjetivas que os analistam tentam encontrar para as ações dos seus dirigentes, tornam-se vãs. É como tentar encontrar explicações para um investidor ganhar dinheiro numa empresa funerária, pois a princípio pode parecer uma idéia macabra. Quando afirmo que o EUA, é um estado beliicista, não significa que eles precisam fazer guerra o tempo todo, mas o estado permanente de tensão bélica é necessário para venda dos produtos do compolexo militar.Afinal, se não houvessem as guerras, não faria sentido os países gastarem somos vultuosas em armamentos.

Recomendados para você

Recomendados