10 de junho de 2026

Observações miúdas sobre o 11 de agosto na Faculdade de Direito da USP, por Fábio de Oliveira Ribeiro

De maneira geral, os discursos se limitaram a valorizar a soberania popular e a defender a Justiça Eleitoral
Foto: Fábio de Oliveira Ribeiro

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por Fábio de Oliveira Ribeiro*

Hoje de manhã, na Faculdade de Direito do Largo São Francisco, na região central de São Paulo, ocorreu o evento em defesa da democracia. Mas antes de falar sobre o ato político mais importante antes da eleição, gostaria de fazer algumas observações miúdas e eventualmente dolorosas.

Ao sair da estação da Sé do metrô por volta das 8:40, fiquei surpreso com a quantidade de pessoas dormindo na praça. Atingido pelo fio da água utilizada para lavar a rua na lateral da catedral, um deles despertou molhado e irritado protestando contra o tratamento cruel que recebeu.

Entre a estação de metrô e a Faculdade de Direito da USP passei por dezenas de pessoas em situação análoga. Deitadas no chão duro enroladas em cobertores sujos, elas dormiam ou tentavam apenas afugentar o frio sem se preocupar com o regime político de um Estado que não se preocupa com o bem-estar delas.

Democracia ou ditadura? A resposta a essa pergunta faz muita diferença para os organizadores e participantes do evento em defesa da democracia. Os desocupados, desempregados e miseráveis que habitam as veias abertas da pauliceia não têm tempo para debater política. Eles precisam comer e se aquecer, duas coisas que eles nem sempre conseguem fazer.

No evento, as vítimas do neolibarbarismo militar foram lembradas. Mas elas não estavam presentes. O abismo entre a sociedade paulista e os dejetos sociais que ela produz foi cuidadosamente mantido. É politicamente incorreto deixar mendigos maltrapilhos dizer o que pensam sobre o regime democrático?

Um pouco antes de começar o evento, gravei algumas palavras do renomado advogado criminalista Kakai. Disse ele

“Eu acho esse evento fundamental, veio em muito bora hora. Correto. Acho que os redatores [da carta em defesa da democracia] souberam usar um tom que mobilizou o Brasil. Não é fácil num momento como esse você colocar quase um milhão de pessoas a favor da democracia, porque na realidade esse é o objetivo: é falar que nós estamos aqui pela democracia, para impedir o golpe, para impedir que esse fascista possa quebrar essa regra constitucional, a regra institucional. Então foi um evento maravilhoso. Eu até brinquei numa live com os professores da USP, que se fosse eu a escrever [a carta em defesa da democracia] provavelmente nós teriamos apenas uns 30 seguidores somente porque eu teria feito uma coisa mais ácida, mas eles acertaram. É um evento que chama o Brasil para uma realidade absolutamente necessária, que é manter  o Estado Democrático de Direito.”

A imprensa estava presente em peso e repercutiu a leitura da Carta em Defesa da Democracia de maneira apaixonada. De maneira geral, podemos dizer que o evento realizado hoje na Faculdade de Direito do Largo São Francisco foi um sucesso, pois reuniu representantes do capital e do trabalho, da elite e da plebe politicamente organizada. Alguns oradores foram enérgicos (a presidenta da OAB), outros proferiram discursos sonolentos (caso do economista Ermínio Fraga). Mas nenhum atacou pessoalmente o capitão golpista e genocida.

Fiz o registo fotográfico do evento sem me preocupar em anotar os nomes das pessoas que ocuparam a tribuna.

O capital:

O trabalho:

A elite:

Lideranças populares:

A energética presidenta da OAB:

A presidenta da UNE:

No detalhe o momento da leitura da carta em defesa da democracia:

De maneira geral, os discursos se limitaram a valorizar a soberania popular e a defender a Justiça Eleitoral. A vulnerabilidade de contingentes populacionais marginalizados e esquecidos pelo atual governo foi lembrada. A representante do movimento negro fez uma eloquente diatribe contra o racismo. A ecologia e a obrigação das autoridades de cumprir e fazer cumprir a Constituição Cidadã também foram temas abordados em alguns discursos. A presidenta da OAB/SP foi enfática: a entidade defenderá a democracia sem hesitar.

Ao iniciar esse texto, disse que os mendigos e miseráveis não foram convidados a falar na Faculdade de Direito da USP. Agora devo dizer algo ainda mais doloroso. Nenhum cacique foi convidado para falar em defesa da democracia. A questão indígena não foi mencionada por nenhuma das pessoas usou a tribuna. A crueldade do atual governo em relação aos índios não foi nem mesmo pela presidente da UNE que é da região amazônica.

Não creio que os organizadores do evento e os cidadãos e cidadãos que ocuparam a tribuna tenham esquecido propositalmente os índios. Esse lapso, entretanto, não poderia deixar de ser referido aqui. A democracia brasileira deve muito às lideranças indígenas, especialmente nesse momento.

Antes de encerrar esse texto me sinto obrigado a fazer Justiça aos nativos de Pindorama, indevidamente esquecidos pelo 11 de agosto. Vítimas preferenciais das agressões politicamente organizadas desde que Bolsonaro tomou posse, os índios resistem com mais vigor à nova ditadura dentro e fora do país. O isolamento diplomático do Brasil, que garantiu o fracasso econômico do bolsonarismo, foi em grande medida conquistado na Europa por caciques indígenas antes e durante a pandemia.

Ao chegar na Faculdade de Direito para o ato em defesa da democracia não consegui entrar. Eu não sabia que era necessária se cadastrar com antecedência para o evento. Determinado a participar e a fazer a cobertura do ato, fui até o local designado para atender a imprensa e disse que era advogado e blogueiro do Jornal GGN.

– Jornal GGN? – perguntou a moça responsável.

– Sim, o portal de notícias do Luís Nassif.

Ao ouvir o nome do jornalista veterano a responsável imediatamente anotou meu nome e RG e fui acompanhado até o salão nobre por uma aluna da Faculdade de Direito da USP. A facilidade com que entrei no evento é digna de nota. Ao que parece, a anormalidade autoritária que ameaça o país ainda não contaminou totalmente a sociedade brasileira.

Além do evento no salão nobre outro semelhante ocorreu no páteo interno da Faculdade. Como tinha outro compromisso me retirei antes do início do mesmo.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem um ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected].

Leia também:

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Fábio de Oliveira Ribeiro

Fábio de Oliveira Ribeiro, 22/11/1964, advogado desde 1990. Inimigo do fascismo e do fundamentalismo religioso. Defensor das causas perdidas. Estudioso incansável de tudo aquilo que nos transforma em seres realmente humanos.

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