Entre a apatia e a radicalização: onde está a juventude brasileira?
por João Pedro Blos Trindade
A juventude brasileira ocupa, hoje, um lugar central na encruzilhada democrática do país. Não por ser homogênea, linear ou previsível, mas justamente por representar um território em disputa. Entre o afastamento crescente da política institucional e a adesão a discursos simplificadores, muitas vezes autoritários, a juventude é constantemente convocada a escolher entre extremos que não dão conta da complexidade do tempo presente.
Nesse cenário, questiona-se: onde está então a juventude brasileira?
Uma pesquisa recente realizada pela Fundação Friedrich Ebert Stiftung (FES), com apoio da YouGov, entrevistou 2.024 jovens brasileiros entre 15 e 35 anos e revela um quadro complexo de engajamento e desconfiança. Segundo o levantamento, 57 % dos jovens declaram baixa ou muito baixa confiança em partidos políticos, e 45 % apontam níveis similares de confiança em relação à Presidência e ao gabinete do governo, indicadores que refletem um profundo desencanto com as formas tradicionais de representação política.
Há, de forma quase consensual, uma sensação difusa de que “a política não representa”. Essa percepção atravessa gerações, mas encontra entre os jovens um terreno especialmente sensível. As estruturas políticas e organizacionais, inclusive o próprio judiciário, são vistos, com frequência, como instâncias distantes da vida concreta, incapazes de responder às urgências sociais, econômicas e simbólicas que atravessam a experiência juvenil. O resultado não é, necessariamente, indiferença, mas desencanto.
O descrédito nas instituições não pode ser confundido com desinteresse pela vida pública. Ao contrário: a juventude participa, se mobiliza, se expressa, ainda que muitas vezes fora dos canais tradicionais da política. O problema surge quando o espaço institucional não reconhece essas formas de participação ou, pior, as rejeita.
Nesse vazio, constrói-se um falso dilema: ou a apatia total, marcada pelo afastamento e pela descrença, ou a radicalização extrema, alimentada por discursos que prometem soluções rápidas para problemas estruturais.
Talvez a resposta para nossa pergunta inicial não esteja na ausência (da juventude), mas na forma como o sistema político insiste em não a enxergar.
O afastamento da juventude da política institucional não é causa, mas consequência. Consequência de estruturas que não se renovam, de linguagens que não dialogam e de espaços que não acolhem. A crise de representação que atravessa a democracia brasileira se manifesta, de maneira particularmente aguda, na relação entre instituições políticas e juventude.
A linguagem política tradicional, raramente conversa com a realidade juvenil. Os debates institucionais parecem ignorar questões centrais para os jovens: acesso à educação de qualidade, permanência estudantil, inserção no mercado de trabalho, saúde mental, mobilidade urbana, direito à cidade, reconhecimento e valorização de novas manifestações culturais de nosso tempo. Quando essas pautas aparecem, muitas vezes são tratadas de forma superficial ou instrumental.
Somam-se a isso estruturas partidárias envelhecidas, pouco abertas à renovação geracional e frequentemente resistentes à participação efetiva de jovens em espaços de decisão. Não se trata de idade cronológica de seus dirigentes, mas de uma cultura política que naturaliza hierarquias rígidas e dificulta a emergência de novas lideranças. O resultado é a sensação de que a juventude é bem-vinda apenas como base eleitoral, não como sujeito político.
A falta de espaços reais de participação aprofunda esse distanciamento. Conselhos consultivos sem poder deliberativo, audiências públicas meramente formais e instâncias de “escuta” que não produzem efeitos concretos reforçam a ideia de que a participação juvenil é tolerada, mas não valorizada. Nesse cenário, a política institucional se apresenta como um ambiente hostil, pouco permeável à diversidade de experiências e demandas da juventude.
O problema não é a democracia em si, mas a forma como ela tem sido praticada. A crise de representação não equivale a uma crise de valores democráticos. A juventude continua acreditando em justiça social, igualdade, direitos e participação. O que se questiona é a capacidade das instituições de materializar esses valores no cotidiano político.
Quando a democracia falha em entregar respostas, o autoritarismo se apresenta como atalho. Discursos autoritários não surgem no vazio, eles se alimentam de frustrações acumuladas, de medos não elaborados e de inseguranças reais. Em contextos de crise, promessas de ordem, força e soluções rápidas ganham apelo, especialmente entre aqueles que se sentem abandonados pelo sistema político.
A juventude, inserida em um cenário de precarização do trabalho, endividamento, insegurança social e instabilidade institucional, torna-se particularmente vulnerável a essas narrativas. Não por ignorância ou falta de senso crítico, mas pela ausência de canais democráticos que ofereçam alternativas reais de participação e transformação.
É importante evitar qualquer leitura moralista desse fenômeno. A radicalização não é fruto de um suposto déficit intelectual ou de uma falha geracional. Ela é, antes de tudo, um sintoma de um vazio político. Quando a democracia se distancia da vida concreta, outras formas de organização do poder passam a parecer mais eficientes, ainda que sejam profundamente antidemocráticas.
Reconhecer esse processo é condição para enfrentá-lo. Não se combate o autoritarismo apenas com discursos normativos, mas com a reconstrução de espaços democráticos vivos, capazes de acolher conflitos, divergências e demandas legítimas. Nesse sentido, a juventude não deve ser vista como problema, mas como parte fundamental da solução.
A história brasileira demonstra, de forma inequívoca, que a juventude nunca foi apenas espectadora dos grandes processos sociais e políticos. Em momentos decisivos, esteve na linha de frente das transformações, tensionando estruturas, enfrentando autoritarismos e ampliando direitos.
Durante a ditadura militar, o movimento estudantil desempenhou papel central na resistência democrática. A repressão violenta às organizações juvenis é prova de que o regime reconhecia, na juventude organizada, uma ameaça real à ordem autoritária. Entidades como a União Nacional dos Estudantes (UNE), a União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (UBES) e inúmeros diretórios acadêmicos tornaram-se espaços de enfrentamento político, produção cultural e articulação social.
Na redemocratização, a juventude voltou a ocupar as ruas, universidades e espaços públicos, reivindicando eleições diretas, liberdade de expressão e reconstrução institucional. Em diferentes momentos da história recente, estudantes estiveram à frente de lutas por educação pública, direitos sociais e reformas estruturais.
Retomar essa memória não é exercício de nostalgia, mas gesto político. Lembrar que a juventude já foi, e pode voltar a ser, força transformadora é fundamental para romper com narrativas que a reduzem à apatia ou à irresponsabilidade. A história ensina que, quando organizada, a juventude é capaz de deslocar consensos e abrir caminhos.
É no movimento estudantil que muitos jovens têm o primeiro contato concreto com a democracia em funcionamento. Não a democracia abstrata dos manuais, mas aquela feita de eleições, debates, divergências, negociações e decisões coletivas. Trata-se de uma escola política no sentido mais profundo do termo.
Nos centros acadêmicos, diretórios e entidades nacionais, aprende-se a conviver com o conflito, a respeitar a pluralidade e a construir consensos possíveis. A representação nasce da base, da confiança coletiva e do compromisso com pautas comuns.
Essa formação política não depende de filiação partidária. Pelo contrário, o movimento estudantil se caracteriza pela diversidade de posições, trajetórias e visões de mundo.
É nesse ambiente que muitos jovens compreendem, pela primeira vez, que a política não é um jogo distante, mas uma prática cotidiana, atravessada por escolhas, limites e consequências.
Diante do falso dilema imposto à juventude, é necessário afirmar um terceiro caminho: o da organização consciente e coletiva. A juventude não precisa escolher entre o afastamento total e a adesão a discursos extremados. Existe a possibilidade, concreta e histórica, da participação democrática organizada.
A organização é, nesse sentido, um antídoto ao autoritarismo. Ao criar espaços de escuta, formação e mobilização, fortalece-se a cultura democrática e amplia-se a capacidade de intervenção política. Não se trata de romantizar o conflito, mas de reconhecê-lo como parte constitutiva da democracia.
A política feita com método, diálogo e pluralidade exige tempo, paciência e compromisso. Exige também instituições capazes de acolher a juventude como sujeito político pleno. Espaços coletivos e institucionais, quando ocupados de forma crítica, tornam-se ferramentas de transformação.
A juventude brasileira não é promessa distante, nem esperança abstrata projetada para um futuro incerto. Ela é força presente, pulsante e necessária. Em um contexto de crise democrática, sua organização não é acessória, mas vital.
A democracia não sobrevive sem juventude. Sem sua energia crítica, sua capacidade de questionar o estabelecido e sua disposição para reinventar formas de participação, as instituições tendem ao esvaziamento e à repetição. Defender a democracia, hoje, passa necessariamente por fortalecer os espaços de atuação juvenil.
Este texto não é um chamado ao entusiasmo ingênuo, mas um convite à ação consciente. Uma ode à juventude em movimento, que compreende o peso da história e a urgência do presente. O futuro da juventude não se espera, constrói-se e se disputa no presente.
Campo Grande (MS), 03 de fevereiro de 2026.
JOÃO PEDRO BLOS TRINDADE.
REFERÊNCIAS:
FUNDAÇÃO FRIEDRICH EBERT – FES Brasil; YouGov. Juventudes: um desafio pendente –
Pesquisa sobre juventudes, democracia e participação política no Brasil e na América Latina e Caribe.
Disponível em: https://brasil.fes.de/detalhe/juventudes-um-desafio-pendente.html . Acesso em: 2 fev.2026.
PESQUISA: jovens antenados, mas desconfiados com instituições políticas. O Povo, 10 nov. 2025.
Disponível em: https://www.opovo.com.br/noticias/politica/2025/11/10/pesquisa-mostra-jovensantenados-a-pautas-atuais-mas-desconfiados-com-instituicoes-politicas.html. Acesso em: 3 fev. 2026.
CUNHA, Patrícia R. C. da. A participação política juvenil e o conhecimento sobre políticas públicas de juventude no Brasil. Revista Segurança Urbana e Juventude, v. 4, n. 1/2, 2011. Disponível em:
https://periodicos.fclar.unesp.br/seguranca/article/view/5028. Acesso em: 3 fev. 2026.
Cidadão sem cidadania
5 de fevereiro de 2026 11:20 amEla foi as ruas em 2013 e o que Dilma fez , nada ou melhor, fez o estatuto dos guardas e daí foi fácil acabar com os protestos, não foi a PM que aqui nas periferias que pararam os protestos foram as guardas de Dilma e lula , e agora com dinheiro digital, câmeras de reconhecimento facial espalhadas nas ruas, RGS digitais , será mais fácil ir na casa de quem faz protestos e prender , e lembrando lula quer transformar guarda em polícia, foi e é a esquerda que está fazendo esse sistema de repressão a lá chinesa , e mais o sistema cortex , sistema sisbin , sistema de ia em foz de Iguaçu comandado pelo exército, que realmente controla tudo, fica claro que esse papo de lula nacionalista é papo bem furado, e lembrando lula em 2006 fez referendo para armar a população e a população foi a favor , daí lula por livre escolha e sozinho mudou o referendo para não , a pergunta que ficou é pq ele fez isso ? , o bandidos hoje roubam, faz pq estão armados e a população não , enfim parou por aqui …..