Origens do Identitarismo (Brasil: 2013-2019), por Rogério Mattos

Não é por outro motivo que o filme recente de Petra Costa emocionou tanto e foi incapaz de gerar indignação ou mesmo violência de liberais ou da extrema-direita.

Lambda, símbolo do movimento de identidade, retirado do desenho dos escudos dos soldados espartanos durante a Batalha de Termópilas.

Origens do Identitarismo (Brasil: 2013-2019), por Rogério Mattos

Escrevi nas últimas semanas uma série de textos procurando marcar algumas posições a respeito de temas da economia atual, no Brasil e no mundo. O sistema de Bretton Woods e seu fim após a crise do petróleo como desencadeador do atual sistema financeiro especulativo [aqui]; os reflexos no cotidiano do trabalho (no Brasil e fora) da suposta não inflação global após as medidas hiperinflacionárias (flexibilização quantitativa) tomadas para “reverter” os efeitos da crise de 2008 [aqui]; a passagem, contemporânea ao fim de Bretton Woods, para um novo modelo de dominação britânica no mundo, não mais a partir da ocupação de territórios, mas por operações sediadas na City de Londres (o pano de fundo foi a história do vice de Bush Jr., Dick Cheney, no filme The Vice) [aqui]; a união não só no Brasil, mas também na Itália dos neoliberais com a extrema-direita, que apontava para um falso dilema ou uma restrição dos horizontes de melhoria social: como se estivéssemos restritos, atualmente, ao binômino capitalismo e anarquia [aqui]; outro texto para demonstrar historicamente como as atuais oposições nos países (ainda?) ricos são posicionamentos políticos meramente identitários [aqui]; por fim, um texto mais antigo, demonstrando algumas falácias nos debates em torno da indústria 4.0 que, de um modo geral, é a velha história, também do pós-guerra e contemporâneo da financeirização da economia, ou seja, a de que haveria “limites para o crescimento”, que a ciência e tecnologia serviriam para degradar a vida dos povos [aqui]. É claro que se deve saber sobre qual tipo de ciência e de tecnologias se fala… Contudo, em meio a toda essa discussão, uma indagação bem simples parecia ser a que mais me incomodava: como a política atual se tornou fundamentalmente uma política identitária? A resposta principal seria que, com os Estados com o orçamento comprometido para atender aos mercados, coube à esquerda, em especial a internacional, se apegar aos temas de grupo, de identidade. A união política via união monetária a que se deu o nome de União Europeia sequestrou do executivo federal de cada país a autonomia de criar dívidas e gerir seus próprios investimentos. Os europalacianos reunidos em Bruxelas criaram um espaço ótimo de circulação de pessoas e mercadorias, ou seja, a realização do sonho do livre-mercado, e foi esquecido por anos a necessidade de integração regional dentro da própria Europa, sem falar da possível e necessária integração com o norte da África e com o Oriente Médio, por exemplo. Isso seria o pesadelo de Mackinder, Brezinski e de toda a política da geopolítica. A integração eurasiática daria fim à geopolítica enquanto tal. Os Estados Unidos, por sua vez, dificilmente tem outra alternativa para retomar seu crescimento industrial, recuperar a economia sem a proliferação de trabalhos precários e abortar a alarmante epidemia de drogas e de suicídios, caso não reintroduza uma legislação ao estilo de Roosevelt em 1933, basicamente a lei de separação bancária Glass-Steagall. Mas não só: como a China é um dos países com mais títulos da dívida norte-americana, uma das soluções mais viáveis para a volta dos investimentos na economia física do país seria transformar essa dívida em bônus para ser usado em parceria com os chineses, desde a recuperação de estradas, ferrovias e linhas de metrô, até a recuperação do antigo projeto NAWAPA e mesmo, considerando uma linha de colaboração para além da lógica de Guerra Fria, quero dizer, a colaboração na indústria espacial e na energia de fusão, hoje amplamente desenvolvidas pelos chineses. Considerando um estágio de desenvolvimento social, de nível de vida médio relativamente elevado em comparação aos outros países do mundo, os países banhados pelo norte do Atlântico parece que esqueceram de dar continuidade às políticas que os fizeram grandes. Os elementos progressistas se entrincheiraram nas bandeiras de grupo, de identidade, não tão distante dos anseios pessoais e caipiras do público interiorano e conservador que dá apoio ao Partido Republicano. Na Europa, com a suposta consolidação do estado de bem estar, parece que a esquerda ficou muito bem, obrigado, e se esqueceu de suas pautas históricas. Nesse sentido, a representação política chamada progressista na Europa acaba por não divergir muito da caracterização feita por Daniel Estulin em seu livro mais recente, sobre Trump, lançado pouco depois da vitória eleitoral do improvável presidente: “Uma mescla de identidades políticas provincianas e interesses especiais: gays, mulheres profissionais do subúrbio, figuras de Hollywood, minorias em ascensão social, defensores do meio ambiente, e a classe profissional dos advogados, contadores, jornalistas e membros do setor tecnológico constituem atualmente a base do Partido Democrata. A classe operária e os agricultores foram expulsos totalmente”.
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Assim, parece que os trabalhos de pesquisadores como John Rawlings Rees, um precursor longínquo da terapia de choque com seu livro de 1945, The Shaping of Psychiatry by War, ou de Kurt Lewin, moldam ainda o cenário dos debates políticos atuais. Umas das afirmativas de Rees era de que “não se ganha guerras matando o adversário, mas minando ou destruindo sua moral e conservando a própria”. Essa foi literalmente a estratégia das elites nacionais, associadas aos aparelhos de contra insurgência estrangeiros, na fabricação do grande engano político das “marchas de 2013” (a desmoralização da política, ou seja, do esvaziamento da profunda politização que se operou no Brasil com o modo de governar do Partido dos Trabalhadores), lançando as sinistras sementes que hoje já plenamente floresceram sob o slogan de Operação Lava-Jato. A tática de Kurt Lewis, que operava junto a Rees nos projetos de engenharia social do Insituto Tavistock, sediado no condado de Sussex, em Londres, era a seguinte:

Lewis propôs que mediante o uso de técnicas de lavagem de cérebro destinadas a “grupos pequenos” se podia estabelecer uma forma de ditadura fascista mais eficiente. “O número e a notoriedade de uma horda de agentes autoritários, própria do regime nazista, poderia se reduzir caso se criassem pequenos ‘grupos comunitários’ que se administrassem por si próprios. Eles mesmos consideram que existem graças à capacidade que têm como pessoas para influir na conduta de quem se encontra em seu entorno imediato”. O resultado, pensava Lewis, seria uma forma de fascismo mais eficiente, que teria a aparência de uma democracia especial. Em outras palavras: “Se o mundo atomizado da pessoa se transforma em um entorno controlado de acordo com essas ‘reformas estruturais’ fascistas, a mente da vítima descobrirá que só seu potencial eu paranoico lhe proporciona o meio para estar em concordância com o dito entorno controlado”. Isto é, o fascismo é o mundo desejado que aparece nos sonhos paranoicos do inconsciente.

ESTULIN, Daniel. El Instituto Tavistock. Barcelona: Ediciones B, 2011, p. 22.

O Instituto Tavistock, operando em conjunto com o Programa de Pesquisa em Rádio (liderado por Adorno nos EUA), através de seus programas de engenharia social ajudaram a construir um fascismo de cara amigável, o que vulgarmente pode ser chamado de Fascismo 2.0. Com o horizonte de lutas políticas cada vez mais restritos a pautas fora dos investimentos produtivos a partir do desmantelamento dos acordos originais de Bretton Woods, a política identitária pôde ganhar força e, na completa inação das esquerdas da Europa e dos EUA, fortaleceu os grupos atlanticistas de Londres em Wall Street e os europalacianos de Bruxelas. Liberais e conservadores, progressistas de variadas vertentes compuseram nas últimas décadas a vertente política dos ultras, isto é, a mescla do partido da guerra com a promoção do sistema financeiro predatório. Na virada do século XX para o XXI, a lógica dos países do “terceiro mundo”, em especial na América do Sul, junto com a crescente autonomia política e econômica da Rússia (depois da destruição e genocídio que assistiu com a liberalização total pós fim da URSS) e o constante crescimento chinês fez reverter ou ameaçar toda a hegemonia atlante nos mercados e nos territórios globais. O realinhamento atual, em especial na América do Sul, da política com os pressupostos dos ultraliberais (liberalismo “tradicional” + extrema-direita) trouxe à tona novamente as políticas de grupo e o fascismo “amigável” bem-sucedido no norte do Atlântico pode se visto de maneira mais clara nos últimos anos por aqui.
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A política identitária brasileira foi realçada pelo grupo dos homens brancos, muitos deles ex-militares ou até membros da classe-média que serviram o Exército e se identificam abstratamente com seus ideais, junto a emigrantes vivendo nos EUA para quem também uma concepção abstrata de patriotismo lhes serve de inspiração (além de encarnarem, muitos como subproletários servindo à burguesia americana, certo ideal de “self made man”, ou seja, para quem políticas sociais e estímulos estatais na economia são coisas irrisórias: mercado mais iniciativa pessoal é o que vale), além de uma burguesia encrustada em diversos setores desconectados da economia real, como o de serviços ou na certas castas do funcionarismo público, se vestiu de verde e amarelo e editou o show de horrores em praça pública cujo maior característica foi o ódio à política, mas não a Aécio Neves, ou a Eduardo Cunha, ou a Moro ou Bolsonaro… Junto a esse setor amorfo em condições normais de temperatura, apareceu a moralidade igualmente pequeno-burguesa, isto é, elitista, de setores ditos esquerdistas, que apoiaram, por exemplo, desde o início a operação Lava-Jato, como Chico Alencar, Heloísa Helena, Marcelo Freixo, a blogueira marxista e feminista Sabrina Fernandes, o historiador midiático Leandro Karnal, Caetano Veloso, jornalistas “não radicais”, atores e atrizes globais e mais tantos e tantos outros representantes de uma política de base irracionalista, ou seja, da fé e da moral. Correndo paralelo a isso, outra base não propriamente pró Lava-Jato, já na virada de 2016 para 2017, defendia uma solução política asséptica para o país, isto é, uma solução política baseada na fé e na moral que estariam encarnadas em Ciro Gomes. Escrevi sobre isso na ocasião num artigo chamado “Teoria do domínio da mídia“, onde procurei demonstrar a partir do posicionamento de figuras de referências da esquerda na mídia alternativa, como eles, tal como na infame aplicação da lei alemã por Joaquim Barbosa durante o mensalão, procuravam também ter o domínio sobre os fatos e pautar irracionalmente a opinião pública, sem considerar uma interpretação (ou, se não fosse pedir muito, uma série delas) que desse conta do movimento histórico mais amplo que estávamos vivendo. Os movimentos de grupo, de um modo geral, defendem um interesse particular e não o interesse da sociedade. O operário e o trabalhador precarizado, de tão aviltados, são praticamente trabalhadores sem identidade. Quando Lula chegou à presidência e disse que sua tarefa era fazer o mínimo, ou seja, que todos os brasileiros tivessem todas as refeições completas durante o dia, muitos se emocionaram. Com ao passar dos anos, em especial, quando o Brasil, em 2014, foi considerado território livre da fome pela ONU e atingiu taxa de desemprego de 4%, essa tarefa tinha sido cumprida. No meio do caminho, o fato do PT não ter feito reformas legislativas mais amplas, de ter se aliado com uma variedade enorme de políticos de diferentes espectros políticos (é bom salientar que isso não tem relação unicamente com a criação de maiorias parlamentares, mas, talvez de maneira ainda mais especial, é importante para a execução dos projetos do executivo federal nos estados e nos milhares de municípios brasileiros: se são múltiplas essas representações políticas por que não pode ser múltiplo o diálogo?), além das críticas moralistas do “mensalão” ao “petrolão”, não viram que o benefício do social, ao contrário de seu genocídio, como atualmente, era a pauta prioritária do governo.
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Ao encampar seus elogios à Lava-Jato e a junho de 2013, a esquerda também foram profetas de uma nova era, de modernização do país e de expurgo social, ao estilo Pombal, Haussmann ou Pereira Passos e, mantendo as divergências respectivas aos seus próprios grupos, uniram-se com a extrema-direita e os neoliberais. Criou-se uma enorme zona de anomia social, de junho de 2013 ao fim da Lava-Jato, agora. Finalmente o Brasil se tornou identitário e as pautas sociais, próprias de todos os anos de governo do PT – “nunca antes na história desse país” -, não voltaram mais à praça pública. Não é por outro motivo que o filme recente de Petra Costa emocionou tanto e foi incapaz de gerar indignação ou mesmo violência de liberais ou da extrema-direita. Ele é o efeito da acomodação desses diversos grupos que se assiste atualmente. Através de seu tom emotivo, o filme valoriza novamente o tema do pecado original, da união da política com as empresas (o capital financeiro nunca interessa), do início ao fim, do tom discursivo às imagens das empreiteiras que ajudaram a reformar com Collor e Lula o Palácio do Alvorada. O tom emotivo, capaz de unir tantos, reflete o sintoma de uma época: depois de pouco mais de trinta anos da redemocratização supostamente teríamos uma “democracia consolidada”. O apelo formal sobre o que se entende por democracia é evidente. Por outro lado, não considera que a aproximação da sociedade ao que se imagina por civilização é diretamente proporcional à distância de Kafka ao seu Castelo: quanto mais parecemos nos aproximar, para mais distante a meta se desloca. O tom emotivo nunca dá conta do sentimento do trágico, do amor fati, que está para além de considerações morais sobre o bem ou o mal. O certo é que houve a guerra e logo depois a chuva. Após a tremenda tempestade, as sementes que sobreviveram começam a crescer. Não é pelo mero lirismo, mas pelo sublime que se dará a renovação que se aproxima. Como no Lacoonte, ele não vem se não for amarrado a uma profunda comoção, isto é, de tragicidade. Enquanto a comoção e logo depois a gargalhada não vem, continuamos a viver nesse cenário em ruínas. Sangue foi espalhado na Europa a partir dos atentados de 2015 em Paris, seguido por outros naquele continente. Supremacistas brancos e anti-fascistas jorraram sangue no norte do continente americano. O Museu Nacional se destruiu em chamas como a antiga catedral de Paris. Num subúrbio longínquo do Rio de Janeiro, uma das mais antigas faculdades do estado, cujo lema é a “educação dos trabalhadores para os trabalhadores”, uma faculdade basicamente de formação de professores, emergiu no caos como os antigos monumentos. A luta para salvá-los é tremenda. A poeira cobre cada recanto desse pequeno espaço que chamamos mundo. A saída virá não de emoções que unam grupos previamente dispostos a determinada agenda e complacentes por anos com o horror, ou pelo cansaço de outros grupos que agora recendem a sangue e vísceras. Depois da guerra não será por nenhum movimento espontâneo que grupos heterogêneos darão as mãos, como deram durante, principalmente, o segundo mandato de Lula e o primeiro de Dilma – um verdadeiro amplo consenso social – aí sim, finalmente a democracia – tão potente quanto fugaz. Urge-se por ainda mais amor fati diante das comoções que ainda podem ocorrer, porque o sentimento da vida está para além de toda organização em grupos, para além de toda moral, das fés ingênuas, do bem ou do mal. Rogério Mattos: Professor e tradutor da revista Executive Intelligence Review. Formado em História (UERJ) e doutorando em Literatura Comparada (UFF). Mantém o site http://www.oabertinho.com.br, onde publica alguns de seus escritos.

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