Os animais dos signos, por Eliseu Raphael Venturi

A toda injustiça da escrita que nossas mãos se empenham em perpetuar precisaríamos lançar nosso mais severo questionamento.

Marc Chagall. Le cirque rouge. c. 1956-1960. (1)

Os animais dos signos

por Eliseu Raphael Venturi*

Como foi que nos tornamos cínicos equivocados, cínicos antifilosóficos e despregados da pragmática grega? Eis uma pergunta que um cínico torto jamais se fará, certo de que a pálida e pastelosa imagem da convicção de que traz em si, em seu corpo de último-homem, é justamente a grandeza de um edifício, que jamais habitou ou habitará.

Quando foi que negamos o silêncio e o barulho interior para sondar aquilo que apenas a subjetividade pode nos tornar, se a revertermos da nossa operação para o nosso objeto de preocupação constante, da sobrevivência e da continuidade da vida?

Como nos tornamos cínicos, monstruosos, covardes, cavalos fatigados não determinados?

Um ensaio psicanalítico ou um estudo literário poderiam cavoucar os recônditos da psiquê com mil revelações e catálogos dos desamores, das frustrações e das obscuridades que nossas vivências podem significar e refletir em termos do grotesco. Precisamos destas fontes.

Mas, ainda assim, teríamos casos exemplares que em nada sondariam nossas causas mais íntimas e assistemáticas, alimentadas na acumulação desorganizada do cotidiano, suas múltiplas fontes e suas insistentes pedagogias. Esta responsabilidade de si e sobre si é inderrogável.

Não podemos culpar e condenar a monstruosidade que nos habita, que nos define e faz existir. Ela tantas vezes pode ser tão nobre e diferenciada que não é em seu campo que podemos buscar os nossos sentidos. É uma injustiça com aquilo que nos move e nos constitui e que convencionamos por equívoco rotular errado. A pergunta deve estar para fora desta limitação da linguagem e dos adjetivos que nos acostumamos a usar.

A pergunta, então, recai sobre nossas indiferenças, ao que fechamos os olhos e esterilizamos o tato, a impudência e ao descaso, a tudo aquilo das convenções e conveniências a que nos apegamos e ao que voltamos as costas. A tudo aquilo que permitimos prosseguir e que empurramos com voracidade, como se fosse uma salvação, embora nos condene mais e mais ao indiscernimento, à indistinção e à derradeira indiferença.

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A toda injustiça da escrita que nossas mãos se empenham em perpetuar precisaríamos lançar nosso mais severo questionamento.

Precisamos enfrentar as palavras e ir para dentro dos seus significados e, despregados da função indicial, delas buscar o sentido ainda mais imbrincado e inédito, àquilo tudo que não nos foi dado, mas que demanda nossa potência máxima de atribuição do conteúdo. Isto só se pode alcançar interrompendo a infinidade dos textos, parando e fitando de perto aquilo que nos perpassa e atravessa enquanto repetição constante.

É preciso carregar muita opressão gravada na mente, muita violência no corpo, para se permitir apoiar tanto deboche, para tanta petulância, desfaçatez, sarcasmo errado e uma tônica especialmente odiável de inescrupulosidade. Foi uma formatação umbilical e pedagógica. Há uma pobreza indelével que permite a piedade por tanta miséria do símbolo – mas que não justifica, não explica definitivamente, e de modo mais grave: que não permite.

Foi o dia em que nos envenenamos sem volta da ironia, tornamos a ironia ácida o nosso modo de comunicação, como se não importassem mais fatos ou relações, resultados ou consequências, responsabilidades e compromissos, valendo apenas o delírio e o encarceramento infindáveis da linguagem que nos tornam apenas devotos e reforçadores de uma opinião instalada cuja origem não reconhecemos mais, sem possibilidade de história, de genealogia, de arqueologia ou de qualquer recurso a qualquer fio de significação.

Reduzimo-nos a autômatos mal-humorados de memes, extensões de redes, vítimas incorrigíveis de sistemas de comunicação cujos fios já não vemos, cujas ondas apenas sentimos no eletromagnetismo mental, nossa paixão reduzida às veemências, fúrias e crueldades de nossas palavras impensadas, imponderadas, desmedidas e entusiastas da soberba soberana de uma razão que já se quebrou no caminho, se perdeu na atmosfera, se incendiou na queda.

Já fomos assim nas culturas das mídias, nas culturas das massas, nas culturas das escritas, nas culturas das oralidades, já fomos assim antes em outros tantos meios que a mente se acoplou. Nada há de novo senão uma mesma atitude prosaica.

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Tornamo-nos entendidos demais, sábios demais, deuses demais, especialistas demais, certeiros demais, críticos demais.

Como animais dos signos encurralados, cedemos. Novamente: há uma pobreza indelével que permite a piedade por tanta miséria do símbolo – mas que não justifica, não explica, não permite.

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(1) Disponível em: <https://www.irequireart.com/blog/chagall_cm_3/>. Acesso em: 12 jun. 2019.

(2) ZIEGLER, Alexander. A consequência. Tradução de Jean Progin. São Paulo: Brasiliense, 1988. p. 97.

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*Eliseu Raphael Venturi é doutorando e mestre em direitos humanos e democracia pela Universidade Federal do Paraná. Especialista em Direito Público pela Escola da Magistratura Federal no Paraná. Advogado.

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