Os cardeais da política econômica brasileira, por André Motta Araújo

A economia brasileira não vai recuperar sua pujança sob a liderança de Ministros de um só trilho, que só sabem fazer uma coisa, geralmente ruim.

Foto Jorge William/O Globo

Os cardeais da política econômica brasileira

por André Motta Araújo

Aos que tem a memória longa da forma como foi conduzida a política econômica brasileira nas últimas décadas choca a percepção do grau de mediocridade dos últimos comandantes dessa política, no sentido de que a política econômica é POLÍTICA DE ESTADO e não mera administração de negócios.

Não há comparação possível da estatura de um Oswaldo Aranha, Ministro da Fazenda em duas épocas completamente distintas, os anos 30 em plena Grande Depressão e nos anos 50, início da Guerra Fria. De um Roberto Campos, intelectual sofisticado que na linha de Keynes tinha interesse em múltiplos assuntos, apenas um dos quais era economia, sua visão de mundo era tão ampla que não teve tempo de cuidar de suas finanças. De um Delfim Neto, que fez uma longa e sólida carreira calçado apenas na sua imensa capacidade de trabalho e visão macro de País. De um Mario Henrique Simonsen, que além de um extraordinário economista tinha duas outras grandes qualidades, era excelente cantor de ópera e gostava de whisky, duas qualidades para serem aplaudidas, ai do homem sem vícios, sem graça e sem charme, o “homem sem mácula”.

Perto desses CARDEAIS DA ECONOMIA outros que se seguiram foram apenas sacristãos e coroinhas, pequenas carreiras, pequenos intelectos, sem a maior das características dos verdadeiros sábios, a dúvida sobre tudo. Quanto mais medíocres mais certezas absolutas e imutáveis os pequenos homens que receberam a incumbência de comandar a política econômica tem, acham que eles e só eles, sabem tudo… mas não sabem nada.

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A QUESTÃO DO ESTADO

Os nomes que citei tinham uma característica comum, tinham VISÃO DE ESTADO, de povo, de pais, de sociedade, nunca foram pigmeus de mercado.

Tampouco eram arrogantes ou desfilavam empáfia, eram acessíveis sempre.

Campos era um conversador adorável, desfilava conhecimento de forma simples e jamais posando de oráculo. Delfim é um mestre da ironia refinada, tem a sabedoria dos que não se levam a sério, graças a ele fiz duas viagens em missão oficial, uma a Alheria e Tunísia, outra ao Iraque e Arábia Saudita, ambas chefiadas pelo Ministro Ernane Galveas, afável e modesto. Simonsen realizava almoços mensais em São Paulo com empresários do setor produtivo onde ouvia de cada um, eram em torno de 20, a situação da indústria no mês, Simonsen era modestíssimo, zero de arrogância. Não conheci Oswaldo Aranha, me louvo em sua excelente biografia como Ministro da Fazenda escrita por Mario Henrique Simonsen, que cuidou apenas de seu papel na Fazenda, Oswaldo Aranha teve muitos outros grandes papeis no palco da vida, até maiores do que como Ministro da Fazenda, foi excepcional em todos,  da Conferência de Havana, em 1942, à criação da ONU, em 1945.

A REDUÇÃO DO PAPEL DO COMANDANTE DA ECONOMIA

A partir do Plano Real, de 1994, o papel do Ministro da Fazenda foi apequenado, reduzido a alguém que entenda “os mercados” e seja por ele aceito.

Uma notável redução do papel de HOMEM DE ESTADO para apenas pessoa de contato do Governo com “os mercados”, um public relations.

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O papel do cargo foi reduzido porque a importância do Estado foi notavelmente reduzida a partir do Plano Real, quando tudo passou a girar em torno da moeda e não da economia. O papel do Ministro passou a ser de mero homem de recados do Governo junto “aos mercados”, o Estado brasileiro perdeu o domínio da economia e das políticas públicas porque passou voluntariamente a depender “dos mercados” e não de sua indústria, comércio, agricultura e recursos naturais, o emprego e o bem estar da população ficaram em segundo e terceiro planos. A única coisa importante passou a ser a taxa SELIC, o índice BOVESPA e a cotação do dólar. A taxa de desemprego, de importância capital nos países ricos, no Brasil passou a ser um detalhe, como a tabela dos jogos de futebol. O Brasil aceitou uma diminuição voluntária de importância como Pais, através desse mecanismo de apequenamento.

O Brasil de 1945, de 1958 no Governo JK, de 1975 no Governo Geisel, era um País MUITO MAIS IMPORTANTE na geopolítica mundial, do que é hoje.

Em 2016, fim do primeiro mandato do Governo Lula, o Brasil manteve grande presença geopolítica, com extraordinário apoio internacional. Mas o erro crucial de bajular “os mercados” se manteve nos Governos do PT e agora vai ao fundo do abismo, “os mercados” nunca deram camisa a pobre, como bem sabe a China, que jamais se deixou dominar pelos mercados, sua economia é produto de planos quinquenais sob rígido controle do Estado.

A economia brasileira não vai recuperar sua pujança sob a liderança de Ministros de um só trilho, que só sabem fazer uma coisa, geralmente ruim.

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AA

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17 comentários

  1. O AA julga um livro pela capa.

    Paulo Guedes tem apenas 4 meses de governo e está sendo massacrado.

    O que ele fala é muito sensato. O desmonte da pirâmide financeira da previdência.

    A desoneração permanente dos encargos trabalhistas que incidem sobre a folha de pagamentos.

    A criação de uma poupança gigantesca de recursos a serem investidos no sistema de capitalização da nova previdência.

    Ele só está pecando, e sabemos, os militares não vão deixar, de uma obsessão por privatizar mas que tem um fundo de lógica. A de que o poder público sempre transforma as empresas públicas em monstros ineficientes e em cabides de empregos.

    AA em vários posts tece loas a empresas estatais nos EUA, JAPAO, EUROPA, etc.

    Queria ver essas tão fantásticas e eficientes empresas sendo administradas por administradores do nível de Nestor Cervero, Pedro Barusco, Gedel Vieira, Sérgio Gabrieli, Aldemir Bendine, Jorge Luiz Zelada, Paulo Preto, e outros da mesma extirpe.

    Com administradores desse nível, não e difícil se entender do porque o desejo de se privatizar tudo. Que, aliás e um sentimento de boa parte da população.

    • A desoneração dos encargos trabalhistas sobre a folha vai ser investida no sistema de capitalização da nova previdência?
      Mais de metade desses encargos está a cargo das empresas, e você realmente acredita que as empresas vão investir no sistema de capitalização dos aposentados por vontade própria? Basta ver o que aconteceu no governo Dilma: quando ela desonerou a folha (de forma atabalhoada e errada), o único efeito foi as empresas embolsarem esse ganho sem repassar para os preços nem garantirem o emprego. Acreditar na boa vontade do empresariado é ingênuo, nesse novo sistema de capitalização eles não têm o menor incentivo para contribuir e nunca o farão por altruísmo, nem aqui nem em nenhum lugar do mundo.
      Quanto aos trabalhadores, a grande maioria está com salário apertado que mal chega ao fim do mês; se deixarem de ter o desconto de 8% em folha, a grande maioria desse valor será incorporada ao consumo do mês e não reinvestido num sistema de capitalização. Quem passa apertado hoje, com o salário que não chega ao fim do mês, com toda certeza não investirá em capitalização.
      Ou seja, tanto do lado do empregado quanto do empregador, o investimento maciço é muito improvável.

      Quanto às privatizações, achar que empresas privadas são a panaceia é tão dogmático quanto pensar que tudo tem que ser público. Existem muitos setores estratégicos para o país, onde as decisões não podem ficar exclusivamente nas mãos do setor privado, cujos interesses muitas vezes não coincidem com o interesse de toda a população. Basta ver os desastres da Light no Rio, da Sabesp durante a seca de 2013-2014, para ver que o lucro acima de tudo leva a decisões prejudiciais para a população em geral. Isso sem falar do caso mais recente da Vale, com o crime de Brumadinho (não vamos falar de tragédia e muito menos de fatalidade).

      • Não. Não será pela desoneração da folha de pagamentos. Será pelos investimentos da capitalização dos trabalhadores, como já é feito, aliás, pelas grandes empresas estatais brasileiras. Por que os trabalhadores de estatais podem e os trabalhadores da iniciativa privada não?

        Os fundos de pensão das empresas estatais são uma importante fonte de investimentos no setor produtivo. A não ser, é claro, aqueles fundos que são dados a partidos políticos e sindicalistas que dilapidam com negócios fraudulentos os fundos dos trabalhadores.

        O fundo criado pela capitalização das aposentadorias poderá ser usada para alavancar os investimentos que o André Araújo tanto reclama sem precisar imprimir dinheiro.

        Será uma montanha de investimentos alavancando o crescimento do país.

        Nós temos uma grande vantagem sobre o Chile. Sabemos onde este errou e podemos corrigir esses erros.

        Os fundos não precisam ser necessariamente geridos por empresas privadas.

        O difícil, contudo, será manter os sindicalistas e políticos longe desses fundos, criando uma gestão limpa e eficiente.

    • Meu caro, sou a favor de uma reforma previdenciaria ainda mais forte do que a proposta MAS qual o projeto para reativar a economia AGORA? Voce sabe? O desempregado não pode esperar dez anos
      para a reforma produzir efeitos e a REFORMA, só ela, NÃO VAI fazer a economia crescer. Gerir a
      economia não é só fazer reformas, é preciso atuar para fazer a roda andar já. Ele está a quatro
      meses e não propos absolutamente nada que não seja a reforma da previdencia e vender tudo o
      que puder verder, nada disso cria um unico emprego, ao contrario, aumenta o desemprego.

      • Que bom que você respondeu ao meu comentário. Por vezes parece que eu te persigo, mas é porque vc é um dos poucos comentaristas lucidos aqui no blog do Nassif. Uma pessoa que vale a pena debater.

        O Paulo Guedes não tem só o projeto de reformar a previdencia e você se mostra favorável. Juntos somos 0,02% dos comentaristas do blog porque 99,98% são contra.

        O Paulo Guedes quer desonerar a folha de pagamento de impostos criando outro para substituir, mas que não incida sobre a folha. Não é uma boa proposta?

        Ele também quer diminuir os impostos pagos pelas empresas e criar o imposto sobre dividendos. Desta forma as empresas terão mais dinheiro em caixa e será mais vantajoso reinvestir na empresa do que distribuir os dividendos aos acionistas que pagarão impostos. Não é uma boa proposta?

        Essas propostas impactam o emprego e o investimento das empresas. Sei que há mais. Vamos dar um pouco de espaço pro homem trabalhar?

        Ah, não esqueça de comentar sobre a minha indagação de colocar os gestores de empresas estatais brasileiras gerindo as empresas estatais norte-americanas, niponicas e européias.

        • Ou seja , tudo se resume à nacionalidade dos gestores, e por essa razão o Brasil deve vender suas estatais.

          Não se trata de uma questão de gestão, de economia, de administração, e sim de nacionalidade. Não é que a empresa privada seja inerentemente mais eficiente do que a estatal, não – o problema é que um é brasileiro e o outro, não.

          Meu Deus, como os bozominions são ignorantes, broncos, vira-latas e simiescos.

          Vá estudar.

          • NADA se resume à nacionalidade. A questão é quem nomeia esses gestores.

            Mostrei alguns gestores da Petrobrás no período que Lula e Dilma eram presidentes.

            Com gestores desse naipe será que essas empresas estatais norte americanas, japonesas ou europeias desempenhariam a contendo as suas operações?

            A culpa é dos gestores ou de quem os nomeia?

            Muito fácil pro André falar que no exterior as empresas estatais são exemplo de eficiência.

            Os exemplos que temos nos dão a certeza de que o mesmo modelo vai dar com os burros nagua aqui no Brasil.

  2. Andre,
    O patropi, a partir de 2002 conseguiu escapar da perversa influência dos implacáveis ministros e correlatos representantes do “mercado”, tais como PArida, AFraga, ALRezende, GFranco, pessoas que jamais demonstraram qualquer interesse pelo país.
    Agora com PGuedes, o perigo aumentou sensivelmente graças ao completo desconhecimento do atual presidente mambembe, um idiota capaz de bater continência para a bandeira de outro país.
    Como o retardado talvez não consiga somar dois mais dois já que um zero à esquerda, PGuedes, que não é burro, vai tentando privatizar até mesmo os banheiros públicos enquanto as contas do governo, ora, as contas do governo que se danem – os resultados da situação econômica neste momento são os piores possíveis, mas a mídia permanece silente, só se preocupando com o golpe na Venezuela e reforma da Previdência.
    Conforme o noticiário, sem a tal reforma o país “quebra” e com a reforma o país voltará a ter crescimento econômico e tudo o mais, e o pior de tudo é que a maioria acredita piamente nesta cretinice que fará a enorme alegria da banca, o segundo setor de peso a deitar e rolar depois do golpe, o primeiro tendo sido o das petroleiras com o pré-sal, aquele negócio que não valia nada.
    Desta vez, com este governante o patropi está fadado ao fracasso econômico, já que nem mesmo um projeto conseguiu sair deste trágico MFazenda. Caso este idiota que anda por aí a arrebentar com tudo o que lhe aparece pela frente seja afastado, o que já era para ter ocorrido, quem sabe seja possível ter alguma esperança.

  3. Quem fica está a favor desse abutre do sistema financeiro só pode ser abutre também ou patrão que quer deixar de pagar impostos….. trabalhador com certeza não é…..

  4. Agora finalmente podemos dar a importância e relevância da obra magistral do Governo Geisel. Podemos dar perceber o significado à inteligência e visão Política da Economia exercida por Delfim Neto. Ainda não podemos aplaudir a obra da vanguarda e progressismo de Paulo Salim Maluf. Alguns ainda possuem o ranço doutrinário que produziu este farsante socialismo paulista de Tucanos e Petistas. Será que se lembram das promessas de Palanques por Diretas Já lá nos anos 80? Acreditaram no golpe e na farsa. Na continuidade do Estado Varguista Fascista Ditatorial. Aceitaram , aplaudiram e votaram nas Forças Políticas que construíram este abismo, esta mediocridade, esta aberração que vivemos nestes 40 anos. Desde Orestes Quércia e Franco Montoro de MDB, semente de PSDB até o Petismo do Estado Absolutista, de continuidade de Voto Obrigatório e Biométrico, fantasiado como Democracia. A tal ‘Democracia’ Nos trouxe até esta aberração. Não confundam novamente. Não é a Democracia que é o erro. O erro é que não tivemos Democracia nestas 4 décadas. Comecemos a entender esta Nação. Nos acertos de Geisel, Simonsen, Delfim, Samuel P. Guimarães ou Celso Amorim. Não importa a Ideologia. Importa é a Nação. Do Povo, pelo Povo, para o Povo. O Brasil é dos Brasileiros.

    • Caro sr. AA, só mais um lembrete da tragédia estratégica anticapitalista tupiniquim : Mais um 737 da BOEING teve graves problemas e foi parar dentro de um rio com quase 150 passageiros. Indústria NorteAmericana, assim como a Européia do fiasco monumental A 380 da AIRBUS, não suportam, nem conseguem produzir tecnologia e produtos suficientes para lutar com a concorrência no Mercado da Aviação Civil. Russos e Chineses começam a ocupar rapidamente este Mercado. Nós Brasileiros entregaremos a EMBRAER aos concorrentes. Somos geniais. Mais um 737, que fiasco !!!!

  5. CANTO:O sapo não lava o pé, não lava pq não quer ele mora lá na lagoa…
    Obs: CADA UM COM A SUA LOUCURA NESTE BRASIL !!!
    Obs2:Desculpe André/ggn não é intenção desrespeitar vcs!!!

  6. Boa tarde a todos e todas
    Podemos depreender do texto do André — que confirma a impressão que temos, os mais velhos — que o país anda para trás ! Os que agora estão no governo são figuras abaixo da mediocridade, pessoas sem cultura, a começar do presidente. Mas o pior não é a falta de cultura. O pior são as decisões que tem por objetivo destruir o que existe.
    Não podemos nos conformar. Essa gente somente será contida com o povo nas ruas. Como professor de História, penso que todos que tem um mínimo de responsabilidade devem se posicionar: a luta que se trava no Brasil se resume a civilização x barbárie.
    Vamos à luta

    Nélson Viana dos Santos

  7. Sugiro a leitura sobre o sistema econômico, político e social vigente no Sul dos EUA até a Guerra da Secessão. A base da economia era a produção e exportação de produtos agrícolas em larga escala (as plantations). O sistema político era dominado por latifundiários, grandes comerciantes e profissionais liberais de renome. A população menos favorecida, em geral, vendia sua força de trabalho por baixos salários e sem direitos (ainda não existiam naquela época) para poderem sobreviver. O pequeno custo de produção era obtido mediante a escravidão de negros trazidos do continente africano.
    Será que o Brasil corre o risco de ver implantado em seu território esse sistema? Em nossa história, parte, ou o todo, funcionou por aqui. É preocupante.

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