10 de junho de 2026

Os EUA, a Venezuela e a dominação de espectro total, por Gustavo Lopes

Muito se tem opinado sobre as verdadeiras e aparentemente incontornáveis motivações para as violações cometidas pelo imperialismo yankee.
Caracas sob ataque - Reprodução

Os EUA realizaram ataques à Venezuela, incluindo o sequestro do presidente Maduro em 3 de janeiro, intensificando tensões bilaterais.
A estratégia dos EUA, baseada na dominação de espectro total, envolve bases militares globais, sanções econômicas e apoio a grupos opositores.
Desde 1998, sanções e ações coercitivas dos EUA agravaram a crise econômica e social da Venezuela, afetando saúde e infraestrutura.

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Os EUA, a Venezuela e a dominação de espectro total

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por Gustavo Melo Novais da Encarnação Lopes[1]

Com os reincidentes ataques à Venezuela, perpetrados pelos Estados Unidos da América (EUA) e tendo como um dos pontos de inflexão mais importantes o sequestro do presidente Nicolás Maduro e da sua esposa, ocorrido no último dia 3 de janeiro enquanto resultado da escalada da tensão entre os dois países, muito se tem opinado sobre as verdadeiras e aparentemente incontornáveis motivações para as violações cometidas pelo imperialismo yankee. Para entender o ataque, faz-se necessária a investigação das razões pelas quais os EUA atentam contra a soberania Venezuela, compreendendo suas nuances e contradições.

Há quem defenda, de maneira reacionária e delirante, que os EUA, apesar de ignorarem quaisquer parâmetros mínimos em relação às normas internacionais, vêm investindo contra o país em função da necessidade de desmonte de um esquema de tráfico internacional de drogas, supostamente comandado pelas lideranças da esquerda do país caribenho, financiando o bolivarianismo e mantendo a população do país sob o seu jugo. Por outro lado, a partir de observações um pouco mais concretas, argumenta-se sobre o desenvolvimento tecnológico da China e de como como isso faria com que os EUA precisassem garantir fontes de energia “baratas” para continuar competindo com os chineses. Além disso, sustenta-se ainda que, diante de uma Ordem Internacional Liberal em decadência (Taggart, 2020, p. 1), os EUA estariam testando os alcances da sua hegemonia, consolidada após a queda de boa parte das experiências históricas do socialismo entre as décadas de 80 e 90 do século passado.

Existem elementos de materialidade nas duas últimas leituras, mas, ao focar em aspectos consequenciais, deixa-se de entender o fenômeno como um todo, levando em consideração a natureza histórica e econômica do imperialismo norte-americano, enquanto parte estruturante da economia mundial, refletindo o papel e a importância do país na manutenção de tal dinâmica. Sendo um sistema que precisa se apropriar do exterior para continuar a subsistir, o imperialismo precisa ser tomado em conta quando da averiguação do recente ataque norte-americano.

Luiz Alberto Moniz Bandeira, historiador e cientista político soteropolitano, deixou como legado uma das contribuições mais extensas e qualitativamente rigorosas sobre a geopolítica mundial. Como exemplo da robustez da sua obra, Moniz Bandeira escreveu uma trilogia sobre os EUA, iniciada com “Formação do Império Americano” e seguido pela obra “A Segunda Guerra Fria”, tendo como culminância o livro “A Desordem Mundial”, conformando um corpus (Bandeira, 2016, p. 23), devendo ser observado no âmbito da totalidade.

Os três escritos cobrem campos diversos das Ciências Sociais, inter-relacionando com fluidez desenvolvimento e política internacional e demonstrando como os EUA construíram um complexo produtivo-militar e vêm exercendo uma política de poder imperialista, tendo como pano de fundo a garantia do controle das fontes energéticas e de matérias primas e, do mesmo modo, a instrumentalização da economia para dar as cartas do investimento no mercado mundial, facilitando assim o acesso e domínio às suas próprias organizações (Bandeira, 2017, p. 23)[2]. Nesse bojo e, em particular, o conceito de dominação de espectro total é importante para entender as práticas imperialistas dos EUA enquanto continuum.

Formulado entre as décadas de 1990 e de 2000 pelas forças armadas estadunidenses no âmbito dos documentos Joint Vision[3], textos estratégicos que norteiam os aspectos de desenvolvimento das forças militares e de suas operações, o conceito visa “[…] estabelecer e manter a hegemonia americana, sob o manto ideológico da defesa de valores universais que, aliás, seguem apenas na medida de sua conveniência […]” (Bandeira, 2022, p. 20). Para isso, os EUA se valeriam de ataques preventivos em nome da defesa da “liberdade”, da “democracia” e da “livre iniciativa” (Bandeira, 2016, p. 75) de uma rede global de mais de 750 bases militares ao redor do mundo[4], incluindo a América Latina como uma importante esfera de influência, além da utilização de táticas não convencionais de guerra, como o fomento de organizações de oposição política aos regimes alvo e a utilização de grupos paramilitares[5]. Outro aspecto importante e, muitas vezes marginalizado nas análises sobre a política internacional, é o papel do dólar. Mesmo após a ruptura do sistema de Bretton Woods, em 1971, o dólar continuou a ser a moeda de reserva internacional, permitindo aos EUA financiar os seus déficits até os limites possíveis, valendo-se da sua soberania monetária e da sua hegemonia internacional. Partindo dessas práticas e ferramentais, a manutenção e expansão da sua hegemonia se tornam possíveis, viabilizando os seus interesses econômicos, geopolíticos e ideológicos, que se manifestam e devem ser observados de maneira sobreposta.

A Venezuela vem sofrendo, desde a eleição de Chávez, em 1998, com diversas dessas práticas, assim como com os seus desdobramentos. Para além das múltiplas tentativas de interferência norte-americana no país, com ensaios e concretizações golpistas de diversas formas já bem documentadas (Salgado, 2021; Emerberger e Podur, 2021), a partir da segunda década do presente século a situação se intensificou substancialmente, conforme diagnóstico elaborado por Moniz Bandeira (2022)[6]. A partir de então, durante a gestão de Barack Obama, várias sanções econômicas foram impostas à Venezuela, envolvendo o bloqueio de ativos econômicos da PDVSA em instituições financeiras internacionais, empresa de maior destaque do setor petrolífero venezuelano, em conjunto com limitações de trânsito no que se refere ao comércio exterior de mercadorias e ao investimento estrangeiro. O objetivo, por óbvio, vem sendo a desestabilização econômica e política do país, que ainda é refém da fragilidade estrutural decorrente de uma economia dependente do petróleo e pifiamente diversificada. Os resultados se manifestam catastroficamente: crise no sistema de saúde pública da Venezuela, aumento da mortalidade infantil, redução brusca no Índice de Desenvolvimento Humano e destruição da infraestrutura econômica e financeira.

Na esteira das sanções, a coerção continuou. O reconhecimento por parte dos EUA de Juan Guiadó enquanto presidente da Venezuela; a manipulação da mídia, em conjunto com organizações da sociedade civil, fortalecendo a ideia de “crise humanitária”; as acusações de narcoterrorismo, com bombardeios de barcos na região caribenha próxima à Venezuela, sem que houvesse correspondência factual para embasar as acusações de transporte de drogas. Todos esses eventos antecederam o sequestro do presidente Maduro, deixando um rastro de morte, devastação e ofensa à soberania e ao direito internacional[7], revelando que, caso haja necessidade, a dominação poderá ser valer da destruição, desde que viabilize o cumprimento dos objetivos do imperialismo.

O acesso facilitado ao petróleo viscoso venezuelano, próprio para abastecer algumas das refinarias nos EUA?  O controle geopolítico sobre a região do Caribe, com vistas à proteção do Canal do Panamá frente à influência crescente da China na região? A pressão sobre os governos da América Latina, sobretudo aqueles considerados como “progressistas”, para comunicar que a política do “big stick” ainda dá o tom da relação entre a potência do norte e a região? Sem dúvida, esses são quesitos a se considerar, mas não isoladamente. Pensar a dominação de espectro total, sobretudo em um contexto de retomada aberta da Doutrina Monroe por Donald Trump[8], é importante para compreender que as práticas imperialistas dos EUA se estendem temporal e espacialmente.

Referências:

BANDEIRA, Luiz Alberto Moniz. A desordem mundial: o espectro da total dominação: guerras por procuração, terror, caos e catástrofes humanitárias. 1. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2016.

________. Formação do Império Americano: da guerra contra a Espanha à guerra Iraque. 1. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2017.

________. A segunda guerra fria: geopolítica e dimensão estratégica dos Estados Unidos: das rebeliões na Eurásia à África do Norte e ao Oriente Médio. 6. ed. rev. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2022.

EMERSBERGER, Joe; PODUR, Justin. Extraordinary Threat: The U.S. Empire, the Media, and Twenty Years of Coup Attempts in Venezuela. Nova Iorque: Monthly Review Press, 2021.

SALGADO, Tiago Santos. Democracy Delivers: a intervenção dos EUA na Venezuela chavista. Rio de Janeiro: Telha, 2021.

TAGGART, Jack. Global development governance in the ‘interregnum’. Review of International Political Economy, p. 1-24, 2020.


[1] Pesquisador do Laboratório de Análise Política Mundial (LABMUNDO). Doutor em Administração Pública e Sociedade (UFBA). Doutorando e mestre em Relações Internacionais (UFBA). Bacharel em Humanidades – Ênfase em Estudos Jurídicos (UFBA).

[2] Moniz Bandeira discute, logo no início do livro “Formação do Império Americano”, o conceito de “imperialismo” a partir do tensionamento com o conceito de “ultraimperialismo”, valendo-se de autores como Rosa Luxemburgo, Lênin, Hilferding e Kautsky. Apesar de eventuais discordâncias com a abordagem do autor quanto à teoria leninista do imperialismo, esse ponto não será melhor desenvolvido aqui, em virtude do caráter breve do texto. Para a análise aqui proposta, importa a análise material que Moniz Bandeira faz do imperialismo estadunidense, bem como dos seus meios de operação.

[3] Em 1995, o relatório “Joint Vision 2010. America’s Military: Preparing for Tomorrow” faz um aproximação com o conceito, sendo desdobrado no relatório “Joint Vision 2020: America’s Military – Preparing for Tomorrow”, de 1999. Ambos os documentos estão disponíveis em: https://discover.dtic.mil/. Acesso em 10 de jan. de 2026. 

[4] Estimativa de 2023. No texto “Onde os EUA têm bases militares?”, pode-se encontrar um mapa com a disposição das bases. Disponível em: https://noticiabrasil.net.br/20231127/onde-os-eua-tem-bases-militares-31703188.html.  Acesso em 10 de jan. de 2026.

[5] Nos últimos anos, o número de denúncias sobre a ação de milícias mercenárias na Venezuela vem crescendo. Um dos momentos de maior atenção se deu em 2024 quando do anúncio, por parte do ministro do Interior da Venezuela, da prisão de 6 acusados de envolvimento com essas milícias, bem como a apreensão de 400 fuzis que seriam utilizados para, supostamente, assassinar Nicolás Maduro e Delcy Rodríguez. Disponível em: https://www.brasildefato.com.br/2024/09/18/mercenarios-dos-eua-e-400-fuzis-o-que-esta-por-tras-da-mais-recente-tentativa-de-golpe-na-venezuela/. Acesso em 10 de jan. de 2026.

[6] A edição aqui utilizada foi a revisada. A 6º edição foi lançada em 2013, e, nesse sentido, a análise de Moniz Bandeira ocorreu antes da imposição oficial das sanções por Obama, mas tendo como pano de fundo a atuação de organizações financiadas pelos EUA para desestabilizar a Venezuela e, do mesmo modo, as inflexões golpistas já ocorridas durante o governo Chávez.

[7] Estima-se que, ao menos, 32 cubanos tenham perdido a vida durante a incursão, enquanto fontes anônimas estimam que, aproximadamente, 80 venezuelanos tenham morrido, entre civis e militares. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/cy593p3wzp4o. Acesso em 10 de jan. de 2026.

[8] Em documento do National Scurity Strategy, de novembro de 2025, a estratégia atual do governo Trump se mostra como corolário da Doutrina Monroe, endossando as suas práticas enquanto “senso comum”. Disponível em: https://www.whitehouse.gov/wp-content/uploads/2025/12/2025-National-Security-Strategy.pdf. Acesso em 10 de jan. de 2025.

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