Os sonâmbulos da Pandemia, por Dora Incontri

Os sonâmbulos da Pandemia, por Dora Incontri

Há uma história, que sempre me impressionou, sobre um enigmático mestre espiritual, armênio, esotérico-cristão, se assim podemos dizer, George Ivanovich Gurdjief, nascido no século XIX e morto em 1949, na França. Conta-se que no primeiro encontro com um discípulo seu, saíram ambos às ruas, andando entre o povo, em silêncio. E só com a presença do mestre a seu lado, o discípulo se deu conta de que as pessoas que passavam por eles, estavam dormindo. Caminhavam, iam e viam, como que num estado sonambúlico. Não é à toa que Gurdjief é chamado o “despertador de homens”.

Tem-me ocorrido essa passagem quando vejo estarrecida as boates, festas, praias, cheias de pessoas (e sem máscaras), quando vejo apoiadores do dito cujo buzinando diante de hospitais, onde estão morrendo cidadãos, enquanto para outros nem vagas há! Estão todos em estado sonambúlico, numa espécie de hipnose coletiva, alienados de si, alienados do outro, alienados de qualquer razão e de qualquer senso de realidade.

Lembro de outra passagem, dessa vez de um filme a que assisti muitas vezes na adolescência, na sessão da tarde, Máquina do Tempo, na sua versão de 1960. O personagem viajava para um futuro distante em que um grupo de humanos estava dominado por outro grupo, os Morlocks, que tinham sido humanos, mas haviam se tornando monstruosos e quando tocava uma sirene, iam os humanos em bandos, hipnotizados, para a morte, para serem devorados pelos Morlocks, sem nenhuma reação, de olhos vidrados. O viajante do tempo tentava falar com eles, acordá-los, chamá-los à razão e ninguém reagia. Esse trecho do filme nos provocava uma sensação tenebrosa. Pois é essa a sensação que nos acomete ao vermos festas clandestinas, em todas as classes sociais, com jovens se remexendo sem nexo, geralmente com uma música muito ruim (para o meu gosto), enquanto milhares de brasileiros estão indo para o matadouro do Covid…!

Há gente que classifica essas pessoas de mau caráter… não creio, porque estão numa rota de autodestruição. Cresce o número de jovens entubados e mortos nessa segunda onda. Estão loucos mesmo, estão em estado de letargia psíquica profunda e, parece, só vão acordar quando a dor vier lhes bater de frente. E talvez seja tarde e despertem no além, estremunhados, arrependidos por tantas baladas idiotas.

Esse sintoma de degradação psicológica em que tantos se encontram nesse momento explica largamente a péssima qualidade dos governantes que estão levando o país para o abismo. Muitos apoiam, ninguém reage, e tantos contribuem para o projeto de necropolítica, entregando-se submissamente à morte e tornando-se seus disseminadores. Em parte, os (des)governantes atuais ajudaram a hipnotizar esse povo, com a avalanche de Fake News, que aliás, continuam em ritmo constante nos Whatsapp de família, de grupos religiosos, de comadres e compadres de bairro…

E não tem a ver necessariamente com grau de escolaridade, porque há médicos defendendo cloroquina, advogados sem máscara e doutores e professores que negam a ciência.

Não há ideologia, partido político, esquerda ou direita que justifiquem todo esse atirar-se do povo para a morte. Há os patrões que não liberam – deles é a responsabilidade de quem tem que pegar o metrô, de quem tem que se expor diariamente ao perigo, há os políticos que não assumem um lockdown como deveria ser, mas há também uma parte do povo com uma imaturidade festiva, uma loucura suicida e uma indiferença com a vida do outro. Um cenário deprimente.

Os que estão na resistência, os que estão trabalhando na linha de frente, os que estão guardando a sanidade possível e ajudando a acolher os desesperados, precisam nesse momento ver um sinal qualquer de luz no final do túnel: lockdown, vacina, impeachment… esperar eleições em 2022 é algo muito distante. Milhares estão morrendo! Chega de letargia!

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