Outro golpe, 56 anos depois da Marcha com Deus?, por Rui Martins

O Deus do dia 15 de março é iconoclasta, abomina as imagens dos santos inseridos na nossa tradição e cultura. Não entende o latim, fala inglês e é mais ladino e esperto

Por Rui Martins

Em Observatório da Imprensa

A história vai se repetir mais de meio século depois? E sempre com a graça de Deus? Em 1964, eram os católicos carolas, cheirando a incenso, brandindo cartazes nos quais se liam “família com Deus pela liberdade”. Dia 15, os católicos ficarão no fim do cortejo, substituídos pelos evangélicos. As palavras de ordem mais explicitas pedem “Ditadura já” com o fechamento do Congresso e do Supremo Tribunal Federal. Na verdade, os manifestantes farão parte de um pré-cortejo fúnebre de invocação da morte e enterro da democracia e da liberdade, em nome do mesmo Deus que já inspirou, no Brasil e no mundo, outras tantas atrocidades.

Em 1964, o Deus das massas cantado nas ladainhas e nas rezas e novenas era romano, veio com os colonizadores portugueses, participou da criação da nossa sociedade escravocrata, racista e de classes. O Deus do dia 15 de março é iconoclasta, abomina as imagens dos santos inseridos na nossa tradição e cultura. Não entende o latim, fala inglês e é mais ladino e esperto; em lugar de pregar a humildade e a resignação, exalta a prosperidade, numa espécie de Evangelho das bolsas de valores, onde os fiéis investem a fé com alguns reais e recebem abençoados juros capitalizados, visíveis para uns poucos mas utilizáveis só depois da morte no Reino dos Céus, infelizmente ainda não cartografado e de lugar incerto e ignorado.

Além do mesmismo de crentes fiéis no lugar dos devotos, da Bíblia no lugar dos missais, existem outras comparações possíveis?

Não! Em 1964, o pecado maior temido pelos sacerdotes e seus devotos detentores da riqueza eram as reformas de base. Havia o risco dos pobres deixarem de ser tão pobres e o governo era formado por homens competentes nos setores administrados em seus ministérios.
Hoje, em março de 2020, há a perspectiva de um empobrecimento maior e é sofrível e mesmo dramática a formação intelectual, cultural e mesmo humana dos ministros.

Um pouco de lembrança

Lembro-me bem da sexta-feira, 13 de março de 1964, e de ter ouvido trechos do comício do presidente João Goulart na Praça da República, no Rio de Janeiro, diante da estação Central do Brasil. Estava num ônibus da CMTC em São Paulo e alguém tinha um daqueles radinhos de pilha ligado. O ônibus lotado, eu viajando em pé.

Retornava do trabalho, na sede do Sesc na rua Doutor Vila Nova, onde era assistente da direção da Divisão de Orientação Social. Era uma época agitada e o prédio em que trabalhava estava numa posição privilegiada com relação à Faculdade de Filosofia da USP no ataque de que fora alvo por alunos da Universidade Mackenzie, extrema-direita contra alunos de esquerda.

Uma semana depois, na quinta-feira, 19 de março, era a direita conservadora católica e conservadora que se manifestava na Praça da Sé, em São Paulo. Era a Marcha da Família com Deus (sempre Deus) pela Liberdade, acusando Goulart de comunista e inimigo de Deus, pedindo sua destituição.

Deus, que deve ser um empedernido reacionário de direita, ouviu as preces de seus devotos, pois doze dias depois acontecia o golpe militar derrubando João Goulart e criando um regime discricionário com duração de 21 anos.

Mais de meio século depois, exatamente 56 anos, com outros personagens e outro roteiro, talvez o Brasil reviva no todo ou em parte a mesma história. Primeiro a manifestação do domingo, dia 15, em favor do presidente Bolsonaro, com o objetivo justificar um golpe com o fechamento das instituições democráticas.

A seguir, uma manifestação pela democracia e contra as manobras golpistas do presidente Bolsonaro, no dia 18 de março.

Haverá, depois, o sacrossanto golpe apoiado pelos pastores evangélicos, mas sem o apoio geral da imprensa, como ocorreu em 1964?

Serão fechados o Congresso e o Supremo Tribunal Federal? O Brasil se converterá no Irã cristão?

Logo saberemos.

***

Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. É criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu Dinheiro sujo da corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, A rebelião romântica da Jovem Guarda, em 1966. Foi colaborador do Pasquim. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de LisboaCorreio do Brasil e RFI.

 

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2 comentários

  1. Pensar faz bem ao cérebro e não tem contra-indicação.

    Então vamos pensar um pouco.

    O Bolsonaro não tem como levar mais gente para manifestação do que ele levava quando ainda não tinha começado a governar e fazer cagadas. Depois que assumiu o governo, a popularidade foi reduzida sensivelmente. Já caiu a ficha de muitos eleitores do Mito. Assim, essa manifestação não tem como ser superior às anteriores. A minoria de Bolsominions fiéis que comparecerão à manifestação contra as instituições pode até ser barulhenta, mas eles não tem força para sustentar eventual golpe do Bolsonaro. A menos que 70% ou mais da população fique imobilizada, com cara de paisagem.

    O próprio Bolsonaro prevê o fracasso da manifestação e tenta chantagear os Presidentes do Senado e da Câmara, afirmando que se eles abrirem mão do orçamento, a manifestação ocorrerá mas será muito fraca.

    Caso os Presidentes da Câmara, do $enado e do $TF cedam aos interesses do Bolsonaro e recuem, a manifestação, que seria um fracasso, será um fracasso do mesmo jeito e o Bolsonaro sairá fortalecido, afirmando que a manifestação, que seria triunfante, foi fraca porque houve o recuo das instituições frente aos seus caprichos e desmandos, e não porque seria fraca de qualquer jeito.

    Se as nossas instituições forem ocupadas por idiotas, o Bolsonaro pode ter feito uma jogada de Mestre, e não de idiota, tal qual quando ele desafiou os governadores a zerarem o ICMS como condição para ele zerar os impostos federais sobre combustíveis.

    A condição para o Bolsonaro retirar o dedo do fiofó da população é que os Governadores também retirem seus dedos.

  2. O comportamento irrequieto e bastante desavergonhado de diversos grupos golpistas faz-nos antever o pior.

    Entretanto, a sofreguidão e a virulência com que esses grupos encontram-se combatendo entre si, me leva a acreditar que, na hipótese de um entre eles sobressair-se aos demais e conseguir seu intento golpista, as chances de se manterem no poder, em médio e longo prazo, não sejam muito elevadas.

    Entre os grupos golpistas, com a cabeça acima da superfície, destaco: olavistas e família bolsonaro, militares, evangélicos, milicianos, ex-bolsonaristas de carteirinha, tais como Dória, Witzel e alguns parlamentares desiludidos.

    Alguns participantes desses grupos talvez transitem em mais de um deles.

    Acredito que na hipótese de algum desses grupos prevalecer sobre os demais, sua manutenção no poder não será muito fácil. Seja pela exclusão dos demais, seja pelo contexto internacional, que mesmo com uma possível reeleição de Trump deve-lhes ser bastante desfavorável.

    O mais provável, me parece, um golpe disfarçado com uma articulação levando à votação do impedimento do presidente e à posse do vice.

    Guedes (ou outro da mesma linha) e Moro seriam os sustentadores “ideológicos” com o apoio entusiasmado da rede Globo que procuraria legitimar o processo alegando ter sido realizado dentro das regras constitucionais.

    Afastariam os grupos mais tóxicos, e hoje amplamente ridicularizados, e se formaria uma coalizão “limpinha e cheirosa” com cara tucana.

    A oposição precisa estar atenta para não servir de massa de manobra para este cenário.

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