Pernambuco, o sonho desenvolvimentista e a história esquecida de uma indústria que quase nasceu no Brasil
Das fábricas de doces do agreste às escavadeiras produzidas no Recife e aos discos prensados pela Rozenblit, Pernambuco viveu um momento de ambição industrial que refletia o espírito desenvolvimentista do Brasil dos anos 1950. Era a época em que rodovias avançavam pelo interior, hidrelétricas surgiam e novas indústrias se multiplicavam no país – e em que parecia possível construir, também no Nordeste, uma economia moderna e tecnologicamente autônoma.
por Celso Pinto de Melo
| “O desenvolvimento não é apenas crescimento econômico. É um processo de transformação estrutural que amplia as possibilidades históricas de uma sociedade.” Celso Furtado [1]. |
O frevo na prensa
Em algum momento do final da década de 1950, numa manhã quente do Recife, uma pequena orquestra se aperta num estúdio de gravação. Os músicos se acomodam entre estantes e cabos enquanto o maestro ergue lentamente a batuta; atrás do vidro da cabine, os técnicos aguardam o sinal em silêncio.
De repente, os metais explodem num ritmo vertiginoso. O frevo começa.
Do outro lado da sala, a agulha do gravador começa a riscar o disco-matriz, registrando aquele som que, poucas semanas depois, ecoaria pelas ruas do Recife no carnaval. Terminada a sessão, a matriz seguiria para a prensa instalada no próprio complexo industrial. Em pouco tempo, milhares de cópias circulariam pelo Nordeste.
A cena se repetiria inúmeras vezes ao longo daqueles anos.
O lugar era a Fábrica de Discos Rozenblit, instalada no bairro de Afogados – então uma zona de intensa atividade industrial, ligada por ramais ferroviários ao Porto do Recife e às linhas que conectavam a capital ao interior do estado. Na prática, Afogados funcionava como um corredor logístico da economia recifense, onde galpões industriais, oficinas e armazéns se articulavam com a ferrovia que ligava o agreste ao porto.
Décadas mais tarde, quando o manguebeat de Chico Science e Nação Zumbi voltaria a projetar a música pernambucana para o mundo, poucos lembrariam que, quarenta anos antes, já existira ali uma pequena e improvável indústria cultural que registrava, prensava e distribuía a trilha sonora da cidade.
Mas o que se passava naquele estúdio dizia respeito a algo maior do que a música.
Aquelas prensas de vinil eram um pequeno fragmento de algo maior: um momento da história brasileira em que o Nordeste começava a acreditar que também poderia construir sua própria base industrial.
O Brasil que acreditava no desenvolvimento
Nos anos 1950, o Brasil parecia viver uma transformação histórica.
Rodovias avançavam pelo interior, novas hidrelétricas surgiam e fábricas multiplicavam-se nas periferias das grandes cidades. No planalto central, uma nova capital erguia-se em ritmo vertiginoso.
Brasília não era apenas uma cidade.
Era um manifesto arquitetônico de um país que acreditava no futuro.
O governo de Juscelino Kubitschek transformou esse clima em política de Estado. O Plano de Metas, lançado em 1956, mobilizou investimentos em energia, transporte, siderurgia e indústria automobilística.
Entre 1955 e 1961, a produção industrial brasileira cresceu em média mais de 9% ao ano, um dos maiores ciclos de expansão industrial de nossa história [2].
Esse dinamismo alcançou também o Nordeste.
Em Pernambuco, o número de estabelecimentos industriais passou de cerca de 2.300 em 1950 para mais de 5.500 em 1970. No mesmo período, o emprego industrial saltou de aproximadamente 45 mil para mais de 130 mil trabalhadores, enquanto a participação da indústria no produto estadual aproximava-se de 25%. Entre 1960 e 1975, a produção industrial pernambucana cresceu a taxas médias superiores a 6% ao ano, um ritmo expressivo para uma economia historicamente baseada na agroexportação.
A Região Metropolitana do Recife transformou-se rapidamente.
Entre 1958 e 1973, o número de unidades industriais registradas praticamente dobrou, refletindo o impacto combinado do Plano de Metas e dos incentivos da recém-criada SUDENE [3, 4].
A narrativa desse ciclo de crescimento costuma se concentrar no eixo Rio–São Paulo.
Mas o clima de otimismo não se limitava ao Sudeste.
Pesqueira: o embrião industrial do agreste
Muito antes do discurso desenvolvimentista ganhar força no Brasil, algumas regiões de Pernambuco já possuíam experiências industriais relativamente sofisticadas. Uma das mais importantes estava localizada em Pesqueira, no agreste pernambucano, a pouco mais de 200 km do Recife. Formava-se ali uma rara classe empresarial industrial no interior nordestino.
Desde o início do século XX, Pesqueira tornou-se um polo de produção de doces e conservas de frutas. Empresas como Carlos de Brito e Peixe desenvolveram linhas de produção baseadas na industrialização da goiaba e da banana, transformadas em compotas e extratos distribuídos em várias regiões do país [5].
Esse sistema produtivo articulava a agricultura do agreste, o capital comercial regional e a ferrovia que ligava o interior ao porto do Recife, formando um circuito econômico relativamente integrado para os padrões nordestinos da época.
Mais do que um caso isolado, Pesqueira representava um estágio inicial de diversificação econômica regional [5].
Foi desse ambiente empresarial que surgiram alguns dos projetos industriais mais ambiciosos da história econômica de Pernambuco.
Pernambuco e o impulso industrial
Nos anos 1950, essa base produtiva passou a ser reinterpretada à luz de um novo diagnóstico econômico. Intelectuais e economistas como Celso Furtado, Rômulo Almeida e Ignácio Rangel passaram a argumentar que o atraso do Nordeste refletia estruturas econômicas desiguais.
A partir das propostas formuladas por Celso Furtado no âmbito do Grupo de Trabalho para o Desenvolvimento do Nordeste (GTDN), o governo federal criou, em 1959, a SUDENE [1].
Durante as décadas seguintes, Pernambuco experimentou uma expansão significativa do setor industrial, com crescimento expressivo do número de estabelecimentos, do emprego e de sua participação na economia regional.
Esse movimento não ocorreu no vazio: apoiava-se em uma base institucional em formação, que incluía escolas de engenharia, centros técnicos e universidades emergentes.
A tentativa de industrialização precoce do estado pode ser reinterpretada à luz da abordagem dos sistemas de inovação, entendidos como processos históricos e institucionais baseados na interação entre atores econômicos e sociais. Nessa perspectiva, a inovação não é um ato isolado, mas um processo sistêmico e não linear, condicionado pelo ambiente institucional e macroeconômico [6].
Aplicada ao caso pernambucano, essa abordagem indica que a industrialização não depende apenas de iniciativas isoladas, mas também da articulação entre a base produtiva, as instituições de conhecimento e as políticas públicas. Como observam Fernandes, Sicsú e Melo [7], em contextos periféricos tais sistemas são moldados por trajetórias históricas, relações centro-periferia e desigualdades estruturais, que condicionam simultaneamente suas potencialidades e seus limites.
Esse processo, contudo, esteve longe de ser homogêneo.
Entre as iniciativas empresariais, um caso se destaca.
Herberto Ramos e a ambição da indústria pesada
Se Pesqueira representava a base agroindustrial e a Rozenblit uma indústria cultural emergente, o projeto de Herberto Ramos levaria essa trajetória a um novo patamar: o da indústria de bens de capital.
A empresa Herberto Ramos Indústria e Comércio S.A. foi fundada no Recife em 1951. Diferentemente de outros empreendedores de sua geração, Herberto Ramos iniciou sua empresa já com uma formação técnica consolidada, adquirida na manutenção de máquinas pesadas – o que ajudaria a explicar a ambição de seus projetos industriais nos anos seguintes.
Inicialmente tratava-se de uma oficina dedicada à manutenção de máquinas importadas utilizadas em obras públicas. Esse ponto de partida era comum em países em processo de industrialização. A manutenção de equipamentos importados frequentemente funcionava como uma escola prática de engenharia, permitindo que técnicos locais aprendessem a fabricar peças e, eventualmente, a projetar equipamentos próprios.
No final da década de 1950, a empresa deu um salto tecnológico. Em 1959 apresentou uma escavadeira sobre esteiras, denominada HR-75A, equipada com um motor diesel Perkins de cerca de 95 hp. O equipamento representava uma tentativa pioneira de desenvolver tecnologia nacional em um setor dominado por fabricantes estrangeiros [8].
Nas duas décadas seguintes, a empresa produziu 76 escavadeiras, guindastes e dragas, com parte da produção vendida no Sudeste brasileiro.
O passo seguinte seria ainda mais ambicioso.
A fábrica de tratores que não nasceu
Em 1970, Herberto Ramos submeteu ao GEIMOT, órgão federal responsável por coordenar a política de máquinas e tratores, um projeto ambicioso: a instalação de uma fábrica de tratores de esteira em Carpina, na Zona da Mata pernambucana.
O plano previa uma produção inicial de 249 tratores por ano, com expansão para 1.200 unidades anuais e um índice de nacionalização próximo de 90%.
Mas o empreendimento enfrentaria obstáculos que iam muito além das dificuldades técnicas e financeiras típicas de projetos industriais dessa magnitude.
No início da década de 1970, quando o projeto aguardava análise do governo federal, uma disputa empresarial acabaria por desencadear uma crise que paralisaria completamente a iniciativa.
Uma empresa concorrente, a Faço S.A., associada ao grupo Fiat-Allis, apresentou um pedido de falência – cuja motivação seria posteriormente questionada no âmbito da CPI.
O momento não poderia ter sido mais crítico. Enquanto a acusação judicial se arrastava, o projeto da nova fábrica de tratores dependia justamente de decisões administrativas e financeiras que exigiam a estabilidade jurídica da empresa proponente.
O efeito foi imediato. Bancos interromperam negociações de crédito, fornecedores suspenderam contratos e o processo de análise do projeto pelo GEIMOT foi interrompido.
Na prática, o empreendimento ficou paralisado antes mesmo de ser formalmente examinado pelo governo.
A controvérsia acabaria por ganhar uma dimensão nacional alguns anos depois.
A CPI que expôs as tensões da industrialização brasileira
Junho de 1975. Brasília. A sala da CPI das Multinacionais, instalada na Câmara dos Deputados para investigar a atuação de grandes corporações estrangeiras no país, estava lotada. Deputados, assessores, jornalistas e representantes de empresas disputavam as cadeiras do plenário.
Quando Herberto Ramos foi chamado a depor, o clima era de expectativa.
Segundo o registro no Diário do Congresso Nacional, ele relatou aos parlamentares a sequência de eventos que havia paralisado seu projeto industrial [9]. Durante o depoimento, afirmou que o pedido de falência apresentado pela empresa multinacional havia sido utilizado como instrumento para bloquear a expansão de sua empresa, justamente quando ela buscava implantar uma nova fábrica de tratores no Nordeste.
Mesmo sem decisão judicial definitiva, a própria existência do processo já havia produzido efeitos devastadores.
Jornais da época registraram a controvérsia. O Diário de Pernambuco noticiou a crise envolvendo a empresa e as dificuldades enfrentadas pelo projeto industrial, enquanto o Jornal do Commercio do Recife acompanhou as discussões parlamentares sobre a atuação de multinacionais no setor de máquinas pesadas.
Anos depois, o Supremo Tribunal Federal consideraria improcedente o pedido de falência.
Mas o projeto industrial já estava morto.
Rozenblit: a fábrica que gravou o Nordeste
Enquanto Herberto Ramos tentava construir uma indústria de máquinas pesadas, outro empreendimento surgia no Recife em um setor completamente diferente.
Fundada em 1954, a Fábrica de Discos Rozenblit tornou-se, por algum tempo, a maior gravadora fora do eixo Rio–São Paulo.
Seu fundador, o comerciante recifense de origem judaica José Rozenblit, tinha então cerca de quarenta anos. Proprietário de uma loja de rádios e vitrolas no centro do Recife, ele havia percebido algo que as grandes gravadoras do Sudeste ignoravam: havia no Nordeste um enorme mercado consumidor de música regional praticamente ausente dos catálogos nacionais.
Foi a partir dessa percepção que Rozenblit decidiu instalar no Recife uma fábrica completa de discos, capaz de realizar todas as etapas da produção fonográfica – da gravação em estúdio à prensagem final dos vinis.
O selo criado pela empresa recebeu o nome Mocambo, palavra historicamente associada às comunidades formadas por escravizados fugitivos no Nordeste e, por extensão, às camadas populares da sociedade. Ao adotar esse nome, a gravadora estabelecia uma ligação simbólica explícita com a cultura popular urbana do Recife.
Sob este selo, produziu discos de diversos artistas e chegou a ocupar uma posição relevante no mercado fonográfico brasileiro. No final dos anos 1950 e no início dos anos 1960 a empresa chegou a responder por cerca de 20% da produção nacional de discos, com milhares de unidades prensadas semanalmente [10].
Estima-se que, entre o final dos anos 1950 e meados da década de 1960, uma parcela muito significativa dos frevos gravados comercialmente no Brasil tenha passado pelos estúdios ou pelas prensas da Rozenblit. Entre os nomes ligados à gravadora estavam Capiba, Nelson Ferreira e Claudionor Germano, figuras centrais da música pernambucana.
A empresa também procurou ampliar seu catálogo para além da música regional. Por meio do selo Artistas Unidos, passou a gravar intérpretes de música popular brasileira e a disputar espaço no mercado fonográfico nacional em expansão [10, 11].
Graças a essa estratégia, a empresa chegou a operar uma das maiores estruturas de prensagem de discos do país fora do eixo Rio–São Paulo.
O destino da empresa, porém, seria marcado por circunstâncias adversas.
Localizada numa área baixa da cidade, próxima ao rio Capibaribe, a fábrica sofreu repetidas enchentes nas décadas de 1960 e 1970.
Pressionada pela concorrência das grandes gravadoras e pelos prejuízos acumulados, encerraria suas atividades no final da década de 1970.
Mas sua importância histórica permaneceu.
Graças aos discos prensados naquela fábrica, uma parte essencial da história musical pernambucana foi preservada e permanece até hoje na memória atávica dos pernambucanos.
O que sobrou daquele ciclo
Se muitas das experiências industriais surgidas em Pernambuco durante o ciclo desenvolvimentista desapareceram, algumas conseguiram sobreviver e transformar-se em empresas de grande porte.
Um dos exemplos mais conhecidos é o Grupo João Santos, cuja origem remonta a empreendimentos industriais ligados à produção de cimento. Ao longo das décadas seguintes, o grupo consolidou-se como um dos principais produtores do setor no país, expandindo suas atividades para os diferentes estados brasileiros.
Outro exemplo importante é o Grupo Votorantim. Seu fundador, José Ermírio de Moraes, nasceu em Nazaré da Mata, em Pernambuco, e tornou-se uma das figuras centrais da industrialização brasileira no século XX.
Mas talvez o exemplo mais interessante de continuidade histórica desse ciclo industrial pernambucano tenha surgido fora da Região Metropolitana do Recife, no agreste do estado.
O sucesso improvável: o Grupo Moura
O Grupo Moura foi fundado em 1957, na cidade de Belo Jardim, no agreste pernambucano, por Edson Mororó Moura, então com trinta e quatro anos. A trajetória da empresa ilustra bem a transição de uma economia agroindustrial tradicional do interior nordestino para o surgimento de uma indústria tecnológica moderna.
Inicialmente ligado ao comércio regional, Edson Moura foi enviado pela família a São Paulo para aprender técnicas de produção de doces – atividade muito presente na economia do agreste. Foi ali, no entanto, que entrou em contato com o setor de baterias automotivas, então um ramo industrial em plena expansão.
Ao retornar, decidiu fundar uma pequena fábrica de baterias em sua cidade natal. A proximidade entre Belo Jardim e Pesqueira (a cerca de 30 km de distância), não era apenas geográfica, mas econômica: tratava-se de um mesmo microcosmo regional em transformação, onde uma tradição agroindustrial consolidada começava a dar lugar a iniciativas industriais de maior complexidade tecnológica.
Nos primeiros anos, a produção era limitada e voltada ao mercado regional. Gradualmente, a empresa ampliou sua escala, investiu em tecnologia e consolidou uma rede de distribuição que ultrapassou as fronteiras do Nordeste.
Nas décadas seguintes, o Grupo Moura expandiu suas instalações industriais, criou centros de pesquisa e passou a atuar em mercados internacionais. Hoje é uma das maiores fabricantes de baterias da América Latina [12].
Mais do que um caso isolado de sucesso empresarial, a trajetória da empresa sugere algo mais profundo: mesmo quando fracassados, determinados projetos industriais deixam um legado de conhecimento técnico, redes empresariais e experiências produtivas a ser aproveitado por gerações posteriores.
Em outras palavras, mesmo os fracassos daquele ciclo desenvolvimentista ajudaram a construir as bases da industrialização que viria depois.
Epílogo – Um futuro que chegou a ser imaginado
Entre as fábricas de doces de Pesqueira, os discos prensados pela Rozenblit e as escavadeiras produzidas por Herberto Ramos corre o mesmo fio histórico. Todos esses empreendimentos pertencem a um momento singular da história econômica brasileira: um breve período em que parecia possível construir uma indústria moderna também fora dos centros tradicionais do país.
A industrialização pernambucana naquele ciclo desenvolvimentista resultou da convergência entre iniciativas empresariais locais, políticas públicas de desenvolvimento regional e uma base produtiva já existente em setores como os de alimentos, têxteis e bens de consumo.
A industrialização de Pernambuco nesse período não se limitou às iniciativas empresariais aqui examinadas. Ela incluiu também grandes projetos estatais e paraestatais, como a COPERBO (Companhia Pernambucana da Borracha Sintética), criada nos anos 1960 no âmbito das políticas de desenvolvimento regional, e o projeto da Fosforita Olinda, voltado à exploração de depósitos fosfáticos na região de Peixinhos para a produção de fertilizantes. Esses empreendimentos expressavam a aposta do planejamento público – especialmente por meio da SUDENE – na construção de uma base industrial mais diversificada no Nordeste.
O foco aqui, no entanto, é mais específico. Trata-se de observar uma geração de empresários e empreendedores que, naquele ambiente de otimismo desenvolvimentista, buscou estruturar iniciativas industriais próprias em Pernambuco – muitas vezes com recursos limitados, mas com uma ambição tecnológica e produtiva incomum para a região.
Muitas dessas experiências desapareceram com o tempo. Outras migraram para regiões mais industrializadas do país. Algumas poucas conseguiram sobreviver e transformar-se em empresas de grande porte.
Ainda assim, todas pertencem a um capítulo hoje pouco lembrado da história econômica brasileira: aquele breve instante em que Pernambuco acreditou ser possível reinventar sua trajetória produtiva e construir, também no Nordeste, uma base industrial moderna própria.
Recordar esse momento é lembrar que, em determinado ponto da história brasileira, o desenvolvimento deixou de ser apenas uma aspiração distante e passou a orientar projetos concretos de transformação econômica.
Uma história que ainda interpela o presente
A história de Herberto Ramos não é apenas a cronologia de uma empresa que fracassou.
É também a história de um país que, em determinado momento, tentou construir sua própria indústria – inclusive em regiões que haviam permanecido historicamente à margem do processo de industrialização brasileira.
Se houve um momento em que Pernambuco tentou, ainda que brevemente, enfrentar essa estrutura, foi aquele em que empresários, técnicos e trabalhadores imaginaram que também no Nordeste poderia nascer uma indústria moderna.
Muitos desses projetos não chegaram a se consolidar. Outros foram interrompidos pelas mudanças da economia brasileira ou pela força de estruturas produtivas já consolidadas em outras regiões do país.
Ainda assim, deixaram algo mais duradouro do que as fábricas que desapareceram: a evidência histórica de que aquela transformação chegou a ser imaginada – e, por algum tempo, começou a ser construída.
Talvez por isso permaneça tão atual a advertência de Celso Furtado: “o subdesenvolvimento não é uma etapa do desenvolvimento, mas uma estrutura histórica que precisa ser transformada” [1].
A história dessas iniciativas lembra que, em certos momentos, o Brasil tentou justamente fazer isso.
E como lembraria Darcy Ribeiro décadas depois [13], os povos não fracassam por falta de talento ou de recursos: fracassam quando deixam de acreditar em seus próprios projetos de futuro.
Experiências semelhantes ocorreram em outras regiões do mundo. Cidades como Medellín, na Colômbia, e Monterrey, no México, também surgiram como polos industriais fora dos centros tradicionais, mas conseguiram sustentar trajetórias duradouras. O contraste ajuda a iluminar não apenas o que foi tentado em Pernambuco, mas também o que não chegou a se consolidar.
Bibliografia
1. Furtado, C., A Operação Nordeste. 1961, Rio de Janeiro: Instituto Superior de Estudos Brasileiros.
2. Bielschowsky, R., Pensamento econômico brasileiro: o ciclo ideológico do desenvolvimentismo (1930-1964). 2000, Rio de Janeiro: Contraponto.
3. Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste, Relatório anual de atividades. 1974, SUDENE: Recife.
4. Cano, W., Raízes da concentração industrial em São Paulo. 1998, Campinas: Instituto de Economia da Unicamp.
5. dos Santos, E.M.L., A Fábrica da Macaxeira e a industrialização pernambucana (1930-1960). 2017, Universidade Federal de Pernambuco: Recife.
6. Cassiolato, J.E. e H.M.M. Lastres, Sistemas de inovação e desenvolvimento: as implicações de política. São Paulo em Perspectiva, 2005. 19(1): p. 34–45.
7. Fernandes, A.C., A. Sicsú e L. Melo, Entre fenecer e florescer: a saga de um [proto]sistema de inovação em Pernambuco. 2026 (em preparação).
8. Lexicar, B., Herberto Ramos – indústria brasileira de máquinas pesadas. 2023.
9. Brasil. Câmara dos, D., Comissão Parlamentar de Inquérito das Multinacionais: depoimento de Herberto Ramos, in Diário do Congresso Nacional. 1975: Brasília.
10. Lopes, H.M., Rozenblit: indústria fonográfica e cultura regional no Brasil (1954-1984). 2025, Universidade de São Paulo: São Paulo.
11. Vicente, E., Da vitrola ao iPod: uma história da indústria fonográfica no Brasil. 2014, São Paulo: Alameda Editorial.
12. Moura, E.M. e P.S. Moura, Grupo Moura: 60 anos de inovação e tecnologia. 2017, Belo Jardim: Baterias Moura.
13. Ribeiro, D., O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil. 1995, São Paulo: Companhia das Letras.
Celso Pinto de Melo – Professor Titular Aposentado da UFPE – Pesquisador 1A do CNPq – Membro da Academia Brasileira de Ciências
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