Pilhagem e repatriação (2), por Walnice Nogueira Galvão

É desse amplo processo, considerado o maior deslocamento de obras de arte da História, que trata o filme A dama dourada, com Helen Mirren.

Gustav Klimt

Pilhagem e repatriação (2)

por Walnice Nogueira Galvão

Entre as mais famigeradas pilhagens de obras de arte que a História registra estão estas duas: a de Lord Elgin e a dos nazistas.

Hoje, os chamados “Mármores Elgin” formam toda uma galeria no British Museum, em Londres, galeria deslumbrante de maravilhas, capaz de fazer um cristão perder o sono. A seu tempo, em 1801, quando o embaixador inglês Lord Elgin os comprou dos turcos que ocupavam a Grécia, em pleno Império Otomano, lotaram 22 navios no transporte para a Inglaterra. E não era qualquer escultura grega clássica, era a decoração do Partenon! Consta que os frisos do templo, dois dos quatro existentes, foram extraídos a serrote. E mais de 200 estátuas em tamanho natural, todas oriundas do ateliê de Fidias, representando as lutas com os centauros, ou com as amazonas, e ainda a procissão da Panateneia, que a cada quatro anos desfilava por Atenas.

Quase dois séculos mais tarde, a ministra da Cultura da Grécia em 1981, Melina Mercouri, teve o atrevimento de pedi-los de volta e é claro que não foi atendida. Melina estrelou o filme Profanação (dir. Jules Dassin, 1962), versão modernizada da tragédia Fedra, de Eurípides. Uma longa e crucial cena se passa na galeria dos “Mármores Elgin”, no British, boa oportunidade para contemplá-los em toda a sua majestade.

Outra pilhagem famigerada é aquela efetuada pelos nazistas, que saquearam todos os países que ocuparam, atendendo ao desígnio de Hitler de construir o maior museu de arte do mundo, na cidade de Linz, na Áustria, onde nasceu. O nome escolhido era Führermuseum, donde se vê que seria um museu pessoal, condizente com sua megalomania. O butim foi sendo escondido em vários lugares, mas sobretudo em  minas de sal na Áustria. Só no fim da guerra os aliados as encontrariam – e ainda bem. Estava tudo lá  e não só obras de arte, mas “objetos culturais”: mapas,  parafernália litúrgica e de cultos em geral, ornamentos e apetrechos, livros, pergaminhos, prataria, joalheria, porcelana, ouro em barra e em moeda… Só na Rússia, no pouco de seu território que os nazistas conseguiram invadir, foram perquirindo sistematicamente todos os museus, instituições, palácios etc., levando embora 1 milhão e 200 mil objetos.  

O filme Caçadores de obras-primas (dir. George Clooney, 2014)relata a busca, por um comitê internacional de especialistas, dos esconderijos em que os nazistas enfurnaram o butim. Entre os oito do comitê, estão vários atores famosos, como o próprio Clooney, e mais Matt Damon, Hugh Bonneville, Jean Dujardin, John Goodman… Cate Blanchet faz o papel de uma conscienciosa arquivista do Museu do Jeu de Paume, onde os alemães foram reunindo o que arrecadavam em toda a França. Ela anotou sigilosamente todas as obras levadas pelos alemães, assim facilitando a recuperação delas ao fim da guerra. O filme se concentra no rastreio e busca da chamada Madona de Bruges, mármore da autoria de Michelangelo, que fora roubado de uma igreja naquela cidade belga mas que hoje, para felicidade de todos nós, está lá de novo.

Não inteiramente desligado dessa saga é o caso de Cornelius Gurlitt, filho de um dos mais importantes marchands alemães do período nazista. Recentemente, depois que morreu, encontraram 1.500 obras de arte em sua casa em Munique, pelo menos parte delas presumivelmente roubadas dos judeus. O estudo das peças e sua restituição ainda está em andamento.

É desse amplo processo, considerado o maior deslocamento de obras de arte da História, que trata o filme A dama dourada, com Helen Mirren. A grande tela de Gustav Klimt  retratando Adele Bloch-Bauer, de uma família de banqueiros vienenses, pendia há mais de meio século da parede do Museu Belvedere de Viena, desde que os nazistas usurparam todas as extraordinárias coleções de arte dos cultíssimos milionários judeus.  Klimt retratou muitas mulheres ricas, a quem cobria de ouro nas telas, como é o caso dessa. Assistimos as peripécias do processo que a sobrinha de Adele moveu contra o Estado para recuperá-la e mais 4 outros trabalhos do mesmo pintor, e que ganhou em 2006. Hoje a tela repousa na Neues Galerie, de Nova York, que a comprou por mais de uma centena de milhões de dólares. Mas é mesmo uma beleza.

Walnice Nogueira Galvão é Professora Emérita da FFLCH-USP

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2 comentários

  1. Belo artigo! Os filmes citados são muito bons também.
    Quanto aos nazistas, assim como os colonizadores europeus, que se espalharam pelo mundo feito um câncer, eram, primeiro e acima de tudo, ladrões.

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