Política Industrial à Brasileira: Da Fuga ao Conflito à Paralisia
por Henrique Morrone
Nenhum país se industrializa por consenso — muito menos por consenso total — e o Brasil insiste em tentar. O resultado é conhecido: políticas começam, mas não se completam; incentivos se multiplicam, mas não transformam; e a economia permanece presa a uma estrutura que evita o conflito necessário para mudar de patamar. O debate parece técnico, mas seu fracasso é político.
Por décadas, tentamos ativar o crescimento via crédito, obras e desonerações. Mas estímulo não é investimento. E investimento não ocorre quando a macroeconomia trabalha na direção contrária. Juros altos valorizam o câmbio, encarecem o capital e comprimem a rentabilidade da manufatura. A indústria perde duas vezes: investir fica caro e produzir fica desvantajoso. Não há política industrial que sobreviva a uma macro que a desmonta todos os dias.
Isso afeta diretamente a taxa de lucro relativa. Por que investir na indústria — setor de retorno lento e risco tecnológico — se a renda financeira e a agropecuária exportadora oferecem ganhos imediatos e estáveis? No Brasil, a macroeconomia premia não produzir. A desindustrialização é consequência lógica de incentivos invertidos. A Política Nacional de Informática ilustra isso: tentou-se formar um setor nacional, mas juros altos, câmbio valorizado e a abertura rápida dos anos 1990 tornaram a importação mais vantajosa que produzir.
Mesmo assim, a indústria segue sendo o setor que melhor remunera o trabalho. Embora a diferença salarial tenha diminuído, os salários industriais continuam mais altos e sustentam o mercado interno. Mas isso não basta quando a manufatura perde rentabilidade para aplicações financeiras e para a soja.
É aí que o investimento público se torna decisivo. Ele coordena expectativas, reduz riscos e cria a escala inicial necessária para que o setor privado acompanhe. Em economias tardias, vigora o mecanismo descrito por Rosenstein-Rodan: ninguém investe porque ninguém investe. O Estado precisa ser o primeiro a saltar. Mas isso exige algo raro no Brasil: um Estado forte, com direção estratégica e capacidade real de coordenar a produção.
A Coreia do Sul fez isso. O Estado disciplinou conglomerados, administrou juros e câmbio, direcionou crédito e condicionou incentivos a desempenho. Criou e manteve a rentabilidade industrial antes que ela existisse. Essa lógica ecoa Friedrich List: proteção não é abrigo, é educação econômica. Proteger indústrias nascente sem exigir metas é cultivar ineficiência; proteger condicionando a desempenho é construir capacidade produtiva. A Coreia seguiu List. O Brasil, não.
Alice Amsden completa o diagnóstico. A Coreia partia de uma sociedade menos desigual. Isso permitiu disciplinar elites sem enfrentar veto absoluto. No Brasil, a desigualdade extrema dá ao sistema financeiro, ao agronegócio e aos setores importadores enorme poder de bloqueio. A Coreia podia enfrentar o conflito; o Brasil foge dele. E política industrial sem conflito produz apenas um caminho vazio.
A geopolítica reforça a diferença. A Coreia foi um “desenvolvimento convidado”, como lembra Wallerstein: recebeu apoio militar, financeiro e tecnológico dos EUA em plena Guerra Fria. Pagou caro — guerra, ocupação, dependência —, mas foi convidada a crescer. O Brasil nunca recebeu convite algum. E, quando tentou avançar em setores estratégicos, enfrentou pressões e vetos abertos.
Hoje, o reshoring reabre uma janela estreita. Mas ela exige coerência macroeconômica, Estado forte e coragem política. Nenhum país industrializa com juros altos, câmbio valorizado e políticas contraditórias.
O Brasil não falhou por falta de caminhos.
Falhou porque segue um caminho vazio.
E, enquanto evitar o conflito, a paralisia continuará vencendo.
Henrique Morrone é economista e professor da UFRGS.
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