22 de junho de 2026

Por que acreditamos em fake news?, por Ádamo Antonioni

De modo geral, as pessoas acabam aderindo mais facilmente às informações que sustentam suas crenças e rejeitam àquelas que contestam.

Por que acreditamos em fake news?

por Ádamo Antonioni

Hoje em dia tudo é fake news. Qualquer argumento que me contradita, que me interpela e choca com a minha visão de mundo, chamo de fake news. Qualquer cidadão, independentemente da escolaridade ou classe social, evoca o argumento do: “isso que você está dizendo é mentira, é fake news”. 

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Vivemos a “Era da pós-verdade” (do inglês, post-truth), onde as notícias falsas_ baseadas em emoções, teorias conspiratórias, manipulação de dados e distorção de fatos_ ganham mais relevância do que o trabalho sério de um jornalista que checa a informação que recebeu, busca a pluralidade de fontes, diferentes especialistas versados no assunto e fundamentado na realidade. 

O Dicionário Oxford elegeu em 2016 o verbete “pós-verdade” como palavra do ano, cujo significado é: “relativo a ou que denota circunstâncias nas quais fatos objetivos são menos influenciadores na formação da opinião pública do que apelos à emoção ou à crença pessoal”. Uma das figuras públicas que ficou mundialmente conhecida por mentir descaradamente foi o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Segundo levantamento do Wasghigton Post, em um ano de governo, Trump forneceu, em média, sete informações falsas por dia. 

Seguindo a mesma estratégia, o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, comumente dissemina mentiras via redes sociais, negando evidências científicas como no caso em que atacou dados do desmatamento da Amazônia. O Inpe (Instituto Nacional de Pesquisa Espaciais) apontou que o desmatamento aumentou em 60%. Outra mentira que proferiu foi negar a existência da fome do Brasil. Apesar dos governos petistas terem tirado o país do Mapa da Fome, com a atual agenda de governo de direita_ marcado pelo aumento do desemprego e cortes em programas sociais_ o país pode voltar. Atualmente, 5,2 milhões pessoas sofrem com a insegurança alimentar, de acordo com o Relatório da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO). 

Essas fake news ganharam espaço graças à internet. Em seu livro “A morte da Verdade”, Michiko Kakutani argumenta que “a internet havia não apenas democratizado a informação de maneira inimaginável, como também estava fazendo com que a ‘sabedoria das multidões’ tomasse o lugar do conhecimento legítimo, nublando perigosamente os limites entre fato e opinião, entre argumentação embasada e bravata especulativa”. 

Mas, afinal, por que acreditamos nas fake news? De modo geral, as pessoas acabam aderindo mais facilmente às informações que sustentam suas crenças e rejeitam àquelas que contestam. Conforme Kakutani: “As primeiras impressões são difíceis de serem descartadas, porque há um instinto primitivo de defender o próprio território, porque as pessoas tendem a produzir respostas emocionais em vez de intelectuais ao serem questionadas e são avessas a examinar cuidadosamente as evidências”. 

Além disso, as fake news se fundamentam na verossimilhança e não na verdade. A verdade são os fatos concretos, a realidade. A verossimilhança é “aquilo que se constitui a partir de sua própria lógica. Daí a necessidade para se construir o ‘efeito de verdade’”. Para ficar mais claro, um exemplo: você já ouviu falar, a um tempo atrás, de atores e atrizes de novela que faziam vilões e que acabavam sendo agredidos nas ruas por telespectadores? As pessoas iam tirar satisfação com esses artistas pelas “maldades” que cometiam. Isso acontecia porque, apesar da novela ser uma ficção, ela se baseia numa verossimilhança, ou seja, produz um “efeito de verdade”, produzindo uma realidade que convença àquele que assiste. Claro que muitas coisas mudaram. Mas este exemplo nos mostra como pode ser tênue a barreira entre ficção e realidade. 

É valendo-se dessa confusão que ditadores tomam o poder, usando discursos baseados no cinismo, violando a verdade e apelando para o medo. Em “Origens do totalitarismo”, Hannah Arendt argumenta: “O súdito ideal do governo totalitário não é o nazista nem o comunista convicto, mas aquele para quem já não existe a diferença entre o fato e a ficção (isto é, a realidade da experiência) e a diferença entre o verdadeiro e o falso (isto é, os critérios do pensamento)”. 

Assim são as fake news. Elas não têm como objetivo relatar a realidade, mas pretendem persuadir o receptor, convencê-lo de que sua narrativa é a única verdadeira. Para conseguir esse feito, ela produz um “efeito de verdade”, apropriando-se da estrutura jornalística de uma notícia, ou seja, contém título, foto, um lead (o primeiro parágrafo de uma notícia, geralmente, atrativo), citação de fontes, etc. Há interesses velados na elaboração de uma fake news, dentre eles, manipular a opinião pública e difamar a reputação de alguma figura pública. 

Como diria o papa Francisco: “Não existe desinformação inofensiva; acreditar na falsidade pode ter consequências calamitosas”. Notícia verdadeira_ objetiva, empírica, baseada em evidências_ se tornou joia rara. Recorrer às luzes da razão nunca foi tão necessário para conseguir identificar que fake news não passam de quinquilharias. Na dúvida, vale lembrar o velho ditado popular: “nem tudo que reluz é ouro”. 

Curitiba, PR, 29 de julho de 2019.

Ádamo Antonioni é formado em Jornalismo e Filosofia, Mestre em Comunicação pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS). Autor do livro: “Odeio, logo, compartilho: o discurso de ódio nas redes sociais e na política”. Disponível na versão e-book: https://www.eviseu.com/pt/livros/917/odeio-logo-compartilho/

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3 Comentários
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  1. Arthemisia

    30 de julho de 2019 11:04 am

    O ocidente tem um lastro que ampara essa propensão para acreditar em fakes, que é o cristianismo. A bíblia é uma fonte eterna de lendas que foram tornadas em fakes. Nunca esquecerei a cena do filme A última tentação de Cristo, na qual Jesus fala para Paulo que não morreu crucificado, que estava ali vivo; e Paulo diz: não importa se ele morreu ou não, o que importa é que essa passou a ser a crença.

  2. Eugenio Arima

    30 de julho de 2019 11:47 am

    Ao invés da pergunta “por que as pessoas acreditam em fake news?”, preferiria perguntar “por que as pessoas passaram a acreditar em fake news?”, ou “por que a educação falhou?”.
    Imaginavam os iluministas do século XVIII que a ciência seria o desvendador dos mistérios, sepultando as crenças e a ignorância. A educação seria construída sobre este firme pilar e, com isto, o indivíduo se libertaria do jugo da tirania, da religiosidade que aprisiona, tornando o sujeito digno de ostentar o título de humano.
    Por que falhou miseravelmente três séculos depois? Digo falhou no sentido da universalização do conhecimento, do raciocínio, da capacidade de discernir, algo evidentemente, tão falho atualmente.
    Considero que não fomos em nossa maioria, educados adequadamente sobre a ciência. Nas escolas, o conhecimento costuma ser transmitido como “verdade revelada”. É assim porque os cientistas (poderia substituir o termo por profetas) o disseram.
    Muitos professores são incapazes de demonstrar experimentalmente (somos sensoriais) porque a terra é esférica. Nem se deram ao trabalho, ou não sabem, explicar de modo sensível a maior parte dos eventos físicos ou químicos. Sem essa de falta de laboratório. Muitas das questões de física e química requeriam equipamentos simples quando foram deduzidas. O que falta é conhecimento dos professores.
    Falta conhecimento sobretudo, do que é ciência. As marchas e contramarchas do conhecimento científico, precisam ser entendidas, às vezes, como “os cegos tateando um elefante”. As conclusões não são definitivas muitas vezes. Para o apedeuta, essas contramarchas geradas pelas novas descobertas afetam a ideia de “verdade”.
    Só há uma resposta para 2+2, ensinam os professores nas escolas básicas. Como faço para introduzir a ideia de limites, na educação mais avançada?
    Logo, entendo que a questão central não é a crença em si, mas como esta foi formada.
    Crença, para muitos, guarda a relação com a “verdade”. Se acreditamos (para muitos, a terra esférica é crença) e esta “verdade” foi revelada por alguém ou por um sistema em que resolvemos acreditar, então torna-se indiscutível, impenetrável a outros pontos de vista, porque congelada está como crença.
    É por isso que temos profissionais pouco inovativos: estão aferrados às crenças geradas pela sua forma de descobrir a “verdade”.
    Para quem crê que a democracia é o único caminho, como refutar o fato que há democracias que levam o país ao caos e ao atraso? Daqui a pouco teremos a democracia LDL e HDL. A boa e a má. Francamente, e ainda querem que as pessoas acreditem nesta?
    Por que preferem os jovens a ditadura? porque não a experimentaram, porque foram induzidas a crer que naquela época (o passado sempre é melhor), havia menos problemas que hoje em dia. Esta é a verdade que querem.
    Quando me perguntam sobre porque o PT falhou, quando havia indicadores tão bons, costumo rebater com a frase atribuída a Einstein: nem tudo que pode se contar, de fato conta.
    Estar empregado é bom, mas levar 3 horas para chegar e outras 3 para voltar dele, é péssimo.
    Ter dinheiro e bens é bom, mas ser assaltado e até perder a vida por isto, é péssimo.
    Ter caso é absolutamente necessário, mas viver a incerteza de conseguir pagar o financiamento, é péssimo.
    A imprensa, grande culpada em divulgar as incertezas da realidade e, crendo que o leitor pudesse distinguir o certo do errado, o clima do tempo, na hipótese mais benigna, ou induzindo a “crer” no melhor e no pior ao sabor de quem paga, na maioria das vezes, ajudou a propagar esse estado das coisas.
    O consolo é que atingi até países de maior nível educacional como Suécia, Inglaterra, Alemanha. Logo, de fato, a educação e ciência falharam.
    Como corrigiremos esse erro?

  3. Anônimo

    30 de julho de 2019 2:16 pm

    A fake news corrobora aos interesses de quem a propaga, seja por ignorância ou por má-fé, pura e simples.
    Para defender argumentos sem defesa, nada melhor que uma fake. Junta-se a isso o baixo nivel de instrução das pessoas, mídia mainstream mais que tendenciosa e temos um terreno mais que fértil para propagação.

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