Por que o discurso do ódio não é liberdade de expressão?, por George Lakoff

Publicado no dia 28 de outubro de 2018, este texto de Lakoff, em tradução de Letícia Sallorenzo, precisa ser lido e relido, pois trata do ódio que nos atinge a todo momento

Por que o discurso do ódio não é liberdade de expressão?

por George Lakoff

Tradução de Letícia Sallorenzo

A liberdade em uma sociedade livre é para todos. Portanto, a liberdade exclui a imposição à liberdade dos outros. Você é livre para andar na rua, mas não para impedir que outros o façam.

A imposição à liberdade de outros pode vir de forma física imediata e evidente – bandidos vindo atacar com armas. A violência pode ser uma espécie de expressão, mas certamente não é “liberdade de expressão”.

Como a violência, o discurso de ódio também pode ser uma imposição física à liberdade dos outros. Isso porque a linguagem tem um efeito psicológico imposto fisicamente – no sistema neural, com efeitos incapacitantes a longo prazo.

Aqui está o motivo:

Todo pensamento é realizado por circuitos neurais – não flutua no ar. A linguagem ativa neuralmente o pensamento. A linguagem pode, assim, mudar o cérebro, tanto para o melhor quanto para o pior. O discurso de ódio muda o cérebro dos odiados para o pior, criando estresse tóxico, medo e desconfiança – tudo de forma física, tudo presente na atividade dos circuitos neurais de uma pessoa todos os dias. Este dano interno pode ser ainda mais grave do que uma punhalada. Ele se impõe à liberdade de pensamento e, portanto, age livre de medo, ameaças e desconfiança. Ele se impõe à capacidade do indivíduo de pensar e agir como um cidadão totalmente livre por muito tempo.

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É por isso que o discurso de ódio se impõe à liberdade daqueles que são alvo do ódio. Uma vez que ser livre em uma sociedade livre não requer se impor à liberdade dos outros, o discurso de ódio não se enquadra na categoria da liberdade de expressão.

Discurso de ódio também pode mudar o cérebro daqueles com preconceito leve, movendo-se para o ódio e a ação ameaçadora. Quando o ódio está fisicamente em seu cérebro, então você pensa que odeia e sente ódio, e você é movido a agir para realizar o que você, fisicamente, em seu sistema neural, pensa e sente.

É por isso que o discurso de ódio não é “mero” discurso. E uma vez que se impõe à liberdade dos outros, não é um exemplo de liberdade.

Os efeitos físicos de longo prazo, muitas vezes incapacitantes, do discurso de ódio sobre os sistemas neurais dos odiados não têm status na lei, já que nossos sistemas neurais não têm status em nosso sistema legal – pelo menos não ainda. Essa é uma lacuna entre a lei e a verdade.

 

2 comentários

  1. Uma das razoes de atentado ao pudor e atentado violento ao pudor serem tipificados como crimes nas diversas legislaçoes penais é esta, agride costumes e a liberdade sexual alheia. É importantíssimo que alguns setores, inclusive “da esquerda”, tenham cuidado com isso.

  2. Excelente texto. O discurso de ódio, feito em larga escala no Brasil atual,solapa os alicerces da democracia , pois, na prática , esse discurso e as ameaças e atos violentos que dele decorrem impedem que pessoas possam exercer direitos garantidos pela constituiçao. Talvez o exemplo mais claro , atualmente, dessa limitaçao de direitos imposta pelo discurso de ódio seja o exílio forçado a que foi levado o deputado Wyllys. Conheço jornalistas que foram morar no exterior devido ao linchamento a que eram expostos em locais públicos e nas redes sociais , efetuado pelo fascismo hoje empoderado. O direito de expressao é uma garantia fundamental, e a democracia nao comporta que alguem tenha a possibilidade de restringir direitos. A ideologia de ódio leva ao cerceamento de direitos, portanto é criminosa em si e, nesse sentido, torna-se evidente que tal ideologia nunca poderia ser garantida como um direito. A lei brasileira tem essa lacuna de considerar ideologia de ódio apenas o nazismo da forma como este expressava-se no regime hitlerista, e a pregaçao de um ideário racista atentatório contra etnias. Atualmente, neste contexto atual de simploriedade tosca e violenta, é rotineiro ouvir defenderem a proibiçao do marxismo, porque essa ideologia proporia uma ditadura, e desta forma supostamente seria ideologia do ódio contra quem dela divergisse. Apesar de ser óbvio que o marxismo nao é, conceitualmente, uma teoria que dirija ódio ou pregue violencial contra algum grupo social. No socialismo real houve repressao em alguns momentos, e uma teoria politica-social-economica pode, na prática, ser usada para atacar algumas pessoas. Principalmente no caso do neo-liberalismo, que causa profundo sofrimento a populaçoes, e no caso do fascismo, que leva a exterminios. Mas ,uma teoria que em si nao prega a agressao contra grupos sociais, nao é parte intrinseca do uso que se fez dela em algum momento histórico. Mas o momento é de idéias ilógicas e delirantes, e quem nao apóia o atual fiscal do carnaval é considerado comunista e inimigo da familia, incluindo nesta lista de comunistas o papa, FHC, fernanda lima, reinaldo azevedo. E este tipo de pensamento recebeu aval do povo para governar

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