Por que “Parasita” ganhou o Oscar?… É a geopolítica, estúpido!, por Wilson Ferreira

E Bong Joon-ho está no lugar certo e na hora certa: o tema da desigualdade entrou na agenda da democracia liberal diante da ascensão da maior ameaça anti-globalização

por Wilson Ferreira

Nem o mais otimista crítico poderia imaginar que a Academia, profundamente arcaica, quebrasse a tradição e premiasse com o Oscar máximo um filme falado em língua estrangeira. O drama satírico sul-coreano com forte crítica social à forma mais avançada de exploração capitalista (o capitalismo cognitivo), “Parasita”, de Bong Joon-ho, levou a estatueta de Melhor Filme – além de Roteiro Original, Filme Estrangeiro e Diretor. O que levou a Academia quebrar a tradição de 93 anos? Uma distribuidora independente que fez uma campanha excelente? Um diretor carismático que conquistou amizades em Hollywood? O momento atual em que as mídias sociais e plataformas de streaming estão ditando as regras? Ou seria o resultado de um movimento unificado por diversidade? É a geopolítica, estúpido! Desde o crash de 2008, a Academia tem premiado temas recorrentes, que atendem à agenda econômica e política externa. Mas a geopolítica mudou quando a China se tornou mais poderosa do que foi a União Soviética no passado. E Bong Joon-ho está no lugar certo e na hora certa: o tema da desigualdade entrou na agenda da democracia liberal diante da ascensão da maior ameaça anti-globalização: o nacional-populismo de extrema-direita. 

 

Esse humilde blogueiro deve confessar que ficou surpreso com a vitória do drama satírico sul-coreano Parasita na festa do 92º Oscar. Não só por ter superado grandes nomes e filmes como a metalinguagem de Hollywood em Era uma vez em Hollywood; o brilhantismo técnico de 1917; as receitas de milhões de dólares juntamente com a polêmica de Coringa; a reinvenção de um clássico em Little Women; as corridas selvagens de Ford X Ferrari; o desgosto conjugal sempre renovado em História de Casamento; e o retorno do icônico diretor, Martin Scorsese, de filmes sobre gangsters em O Irlandês.

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Esse era um ano que qualquer um desses filmes poderia levar o Oscar para casa. Seja qual fosse o resultado, todos sairiam felizes do teatro Dolby, em Los Angeles.

No entanto, a vitória de Parasita foi surpreendente, inovadora – o primeiro filme não falado no idioma inglês a ganhar o Oscar de Melhor Filme em 93 anos. E, numa noite infernal do diretor Bong Joon-ho, ainda levou mais três Oscars – quando subiu no palco para pegar o terceiro prêmio, o diretor já estava visivelmente confuso com a surpresa.

Um prêmio considerado praticamente impossível pela maioria dos especialistas, principalmente pela concorrência do filme 1917, de Sam Mendes. O mais otimista jamais poderia imaginar que a Academia, profundamente arcaica, quebrasse a tradição e celebrasse um filme falado em língua estrangeira.

Alguns falam que o grande responsável foi uma campanha excelente. Desde que Parasita ganhou a prestigiada Palma de Ouro, a Neon, uma distribuidora independente, deteve os direitos norte-americanos, colocando elenco e a equipe de produção do filme em todos os lados – festas chamativas, entrevistas e sendo fotografados com os mais brilhantes nomes da área cinematográfica.

Também o peso de uma bilheteria de sucesso – a Academia parece adorar premiar sucesso com mais sucesso… embora normalmente em língua inglesa. Talvez o carisma e o entusiasmo de Bong Joon-ho que fez amizade com grandes nomes de Hollywood. 

Ou mais: Parasita surgiria num momento em que a indústria hollywoodiana vive tempos de mudanças estruturais – além das mídias sociais e as plataformas de streaming estarem reescrevendo as regras, há um movimento unificado de esforços para defender a diversidade em Hollywood – racial, linguística etc.

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Um momento específico: desigualdade e luta de classes

Porém, o sucesso de Parasita surge em um momento muito específico de circunstâncias que podem não ser facilmente replicáveis, embora a safra atual de cineastas asiáticos esteja trabalhando duro para que o Oscar desse ano não seja apenas um breve momento de glória.

Em postagem anterior, este Cinegnose mostrou como o diretor Bong Joon-ho é um especialista no tema desigualdade e luta de classes, como ficou evidente em produções anteriores como Expresso do Amanhã e OkjaParasita faz um comentário crítico sobre a forma mais avançada de exploração capitalista – um sistema que se torna invisível atrás de aplicativos e celulares, precarizando “não pessoas” em subempregos terceirizados. Até que o ressentimento e luta de classes explode no interior da luxuosa casa de uma família sul-coreana abastada – clique aqui.

No fundo, é um filme inclassificável e incômodo – começa como uma comédia de costumes para evoluir para a sátira, o suspense, o drama do conflito de classes sociais, até atingir o ápice do horror. As variações do tema da luta de classes nos filmes anteriores do diretor, chega ao estado da arte de reflexão, ironia e humor negro em Parasita.

Como explicar que um filme como esse, difícil de ser digerido mas, ao mesmo tempo, cativante pela estranheza, tenha levado o Oscar 2020? Só os motivos acima, derivados exclusivamente do campo da indústria cinematográfica não explicam. Principalmente quando sabemos que Hollywood e sua Academia historicamente sempre acompanharam as mudanças das políticas econômicas e geopolíticas do Governo norte-americano.

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Nesse momento o império norte-americano, o líder da economia globalizada com seu poder industrial, tecnológico, militar, nuclear, financeiro e cultural, vive o momento da necessidade de inflexão.

Acerto de contas com o neoliberalismo

Segundo Jennifer Harris e Jake Sullivan, da Foreign Policy, a política econômica e externa dos EUA vive a necessidade de fazer um acerto de contas com o neoliberalismo. “Um imperativo geopolítico e econômico”, afirmam, num momento em que a China “já atingiu um nível de força econômica e de influência que a União Soviética nunca teve” – clique aqui.

Para eles, os especialistas em segurança nacional argumentam que a geopolítica dos EUA deve ir além da filosofia econômica liberal – “Afinal, o mundo agora tem um experimento ao vivo de 10 anos, mostrando como a austeridade e a falta de investimentos diante do baixo crescimento produzem autocratas desestabilizadores no molde do Viktor Orban da Hungria e Jair Bolsonaro, do Brasil”.

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