13 de junho de 2026

Por uma COP da verdade, que promova a transformação da realidade, por Clarice Ferraz

Como diz o seu nome, a COP se concentra no combate ao aquecimento climático, uma fração do problema ecológico que nos atinge.
Reprodução

▸Realização da COP30 em Belém expõe contradições entre desenvolvimento e impactos ambientais, com sete dos nove Limites Planetários já ultrapassados.

▸COP foca no aquecimento global, mas problemática ambiental é mais ampla, interligada e grave, exigindo transição energética ecológica e justa.

▸Desafios da COP30 incluem lidar com impactos socioambientais locais, expansão da geração solar e necessidade de estratégias sustentáveis e eficazes para conter a crise ambiental e climática.

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Por uma COP da verdade, que promova a transformação da realidade

por Clarice Campelo de Melo Ferraz

A realização da COP30 em Belém tem exposto uma série de contradições entre o modelo de desenvolvimento atual e a urgente necessidade de reduzir os impactos ecológicos das atividades humanas.

A COP (Conferência das Partes) faz parte da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas das Nações Unidas (UNFCCC), um tratado internacional para a cooperação climática, impondo limites aos aumentos médios da temperatura global. A UNFCCC foi criada na Rio-92 (Cúpula da Terra) e teve sua primeira reunião em Berlim, em 1995.

Como diz o seu nome, a COP se concentra no combate ao aquecimento climático, uma fração do problema ecológico que nos atinge. De acordo com a equipe de cientistas do Potsdam Institute for Climate Impact Research (PIK), é importante compreender os “níveis seguros para os sistemas e processos biofísicos que, com alta probabilidade, garantem condições de suporte à vida semelhantes às do Holoceno”¹. A partir disso, foi desenvolvido o arcabouço analítico dos Limites Planetários (LPs). Divididos em nove pontos — clima, biodiversidade, uso da terra, ciclos de nitrogênio e fósforo, recursos hídricos, oceanos, poluição do ar, camada de ozônio e poluentes químicos, os LPs capturam as principais funções que regulam o sistema terrestre e tentam estabelecer os níveis de resiliência que assegurem que seus limites não sejam ultrapassados.

Está claro, e cientificamente comprovado, que o problema ecológico é muito mais amplo do que o grave problema do aquecimento climático, objeto da COP. Além disso, todos os limites estão interligados e se retroalimentam. O desmatamento de uma área de floresta nativa de caatinga para a instalação de um empreendimento de geração de energia eólica ou solar pode ocorrer sem aumento de emissões, mas provoca mudança do uso do solo, perda de biodiversidade e desequilíbrio hídrico, além de outros impactos socioambientais negativos. Assim – apesar de ser possível desmatar sem queima da vegetação e suas emissões poluentes, com motosserras e capina química (o que ainda agravaria o limite dos poluentes químicos) –, em um segundo momento, esses impactos promovem o agravamento das emissões, pois reduzem a capacidade do planeta de se regular e absorver naturalmente as emissões.

Neste ano em que somos anfitriões da COP30, recebemos ainda a gravíssima notícia que sete dos nove LPs já foram atingidos. “Mais de três quartos dos sistemas de suporte da Terra não estão na zona de segurança. A humanidade está ultrapassando os limites de um espaço operacional seguro, aumentando o risco de desestabilização do planeta”, afirma Johan Rockström, diretor do PIK.”². A novidade deste ano foi o atingimento do limite de considerado seguro com relação à acidificação dos oceanos – o que, diga-se, explicita a incongruência da exploração de petróleo da Foz do Amazonas. Os pesquisadores mostram que todos os sete limites apresentam tendências de agravamento.

Assim, como disse o Presidente Lula, “A COP-30, em Belém, será a COP da verdade. Será o momento de os líderes mundiais provarem a seriedade de seu compromisso com o planeta”³. É assim que a COP deve ser vista, como uma vitrine para a complexidade da crise ecológica e social e uma luta para preservar a Terra em condições que sejam favoráveis à vida humana. As Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs, na sigla em inglês), que definem a atuação de cada nação para diminuir suas emissões, devem ser estabelecidas olhando para os conflitos entre estratégias de redução de emissões que visem à redução do aquecimento climático e impactos sobre os demais limites planetários. A transição energética precisa ser ecológica.

Outro aspecto da verdade que convém ser discutido é a falta de justiça em torno das soluções de descarbonização propostas. Aos impactos ambientais no território se somam os impactos sociais. Os grandes empreendimentos prejudicam as condições de vida das populações que os circundam, provocando desde problemas de saúde a disputas dentro das comunidades atingidas. A perda da vegetação nativa provoca a supressão da evapotranspiração e, consequentemente, a perturbação do ciclo hidrológico. A escassez de água é aprofundada pelo alto consumo realizado pelos empreendimentos para lavar os painéis solares, para retirar a poeira que provém do solo seco e sem cobertura vegetal, por eles mesmos suprimida. A vulnerabilidade hídrica do semiárido tem aumentado e pode evoluir para processos de desertificação. Sem água e sem solo vivo, não há produção de alimentos. Nessa trajetória, além dos diversos problemas socioambientais já mencionados, avança-se para um problema de insegurança alimentar.

A questão é urgente. Dados do MapBiomas (2025) revelam que a expansão da geração solar no Brasil cresceu 43 vezes entre 2016 e 2024, totalizando 35,3 mil hectares, dos quais 44,5% resultaram de supressão de formações vegetais, sobretudo dos biomas Caatinga e Cerrado. Essa expansão foi intensificada em 2024, com um crescimento de 40% em relação ao ano anterior, totalizando 53 GW de capacidade instalada total da fonte naquele ano (ANEEL, 2025; ONS, 2025).

Trinta anos depois de sua primeira reunião, a constatação é de que o acordo internacional não foi capaz de manter o nível de aquecimento em níveis considerados seguros para a humanidade. As estratégias de mitigação adotadas até agora não foram suficientes. Especificamente, as estratégias de transição energética baseadas unicamente na expansão da capacidade instalada das fontes de geração eólica e solar negligenciam aspectos essenciais de uma transição ecológica justa e sustentável. Importantes impactos socioambientais locais e regionais estão sendo invisibilizados ou negligenciados para atender às metas contábeis de emissões de carbono.

Atingimos 1,5°C de aquecimento antes do esperado e estamos caminhando para atingir temperaturas que o corpo humano, e diversas outras espécies, não suportam. Já sabemos que não se combate o problema das mudanças climáticas apenas com a redução de queima de combustíveis fósseis. Agora, além do desafio da mitigação de danos ambientais e agravamento da crise climática, é preciso também que o modelo de desenvolvimento econômico prepare a população para lidar com chuvas torrenciais acima das médias históricas, prolongados períodos de estiagem e ondas de calor cada vez mais intensas e longas, produzindo forte perturbação do ciclo da água, da fertilidade do solo e das condições de reprodução da vida.

Não há dúvidas de que vivemos uma policrise. Como coloca Adam Tooze, “na policrise, os choques são díspares, mas interagem de modo que o todo é ainda mais avassalador do que a soma das partes”4. As crises ambientais, sociais, econômicas e políticas estão interligadas e se aprofundam mutuamente, numa sinergia perversa.

Espera-se que a COP30 não se limite à constatação da verdade. É preciso transformar a realidade. Para isso, a Conferência deve trazer soluções coerentes com um projeto de desenvolvimento que promova uma transição energética justa e sustentável.

Clarice Campelo de Melo Ferraz é professora da UFRJ e diretora do Instituto Ilumina.

1 Rockström, J., Donges, J.F., Fetzer, I. et al. Planetary Boundaries guide humanity’s future on Earth. Nat Rev Earth Environ 5, 773–788 (2024). https://doi.org/10.1038/s43017-024-00597-z
2 https://www.pik-potsdam.de/en/news/latest-news/seven-of-nine-planetaryboundaries-now-breached-2013-ocean-acidification-joins-the-danger-zone
3 https://cop30.br/pt-br/noticias-da-cop30/na-assembleia-geral-da-onu-presidentelula-diz-que-cop30-sera-a-cop-da-verdade
4 https://www.theguardian.com/us-news/2025/mar/06/polycrisis-disasterspolitics#:~:text=Or%2C%20as%20Adam%20Tooze%2C%20a,%2C%E2%80%9D%20
Homer%2DDixon%20says.&text=If%20playback%20doesn’t%20begin%-
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  1. AMBAR

    31 de outubro de 2025 10:55 am

    Não há momento mais inoportuno para se realizar a COP no Brasil do que este que vivemos agora. Momento de mais absoluta contradição, em que o país não é exemplo para nada. A busca de soluções deve se fixar em bons exemplos e não na própria crise. Quem está em crise não se vê. Para se combater um incêndio temos que sair dele, se não queimamos juntos. Melhor fazer um tour pela China com bons intérpretes do que pagar altos preços de aluguel em barracos no meio do mato.

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