Por uma esquerda ecológica, com Greta Thunberg, por Dora Incontri

A adolescente sueca, com síndrome de Asperger, foi bombardeada à direita e à esquerda ou solenemente ignorada por representantes de ambos os lados.

EUROPEAN PARLIAMENT/FLICKR

Por uma esquerda ecológica, com Greta Thunberg, por Dora Incontri

O mundo (e leia-se ainda mais o Brasil) está num turbilhão tão avassalador que muitas vezes não sabemos o que fazer, que bandeira levantar, qual a prioridade de luta politica, social, econômica… É como se estivéssemos numa casa pegando fogo e ficamos confusos para saber o que salvar primeiro ou mesmo se podemos salvar alguma coisa.

Enquanto existe uma minoria planetária que detém o poder econômico nas mãos e não se importa minimamente com a fome, o desemprego, a desigualdade, o colapso climático, a violência ceifando vidas jovens (numa irracionalidade e num cinismo impressionantes), uma outra minoria – a dos que pensam e se preocupam e são ativistas – está muitas vezes fragmentada, dividida, com prioridades distintas e distantes. Isso nos causa ainda maior angústia.

Nessa última semana, ficaram claras essas divisões diante do discurso de Greta Thunberg na ONU. A adolescente sueca, com síndrome de Asperger, foi bombardeada à direita e à esquerda ou solenemente ignorada por representantes de ambos os lados. Os de direita, com teorias conspiratórias e fakenews, de que a menina estaria sendo financiada por George Soros, hoje em dia o bode expiatório demonizado pela extrema direita internacional. Os de esquerda, colocando a adolescente como suspeita de financiamento de empresas suecas, comprometidas com a sustentabilidade.

Se ela está sendo financiada ou não, isso não interfere com os fatos em si: o que ela está dizendo é verdade, é pertinente, é urgente. E da parte dela, é sincero. Ponto.

Como educadora e como espírita, acho extremamente relevante que pessoas muito jovens, como Malala ou Greta estejam chegando à ONU para reivindicarem e darem suas mensagens às gerações instaladas no poder e lentas ou omissas diante das urgências que assolam o planeta. Para nós, reencarnacionistas, são espíritos que já nascem com uma missão específica, já trazem uma bagagem do passado – embora devamos considerar que só uma boa educação estimula o desabrochar dessa consciência precoce. No caso de Greta, nascida e criada num dos Estados do mundo mais avançados em termos de igualdade e educação e, no caso de Malala, com um pai, que contrariou o extremismo muçulmano e matinha no Paquistão uma escola para meninas.

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Se elas serão usadas ou manipuladas no meio do caminho por interesses conflitantes, é algo que teremos de observar, mas sem julgamentos prévios. Mas sua atuação agora é positiva, é bem-vinda, é promissora.

A questão clara é que precisamos ter um projeto para o planeta – e não mais apenas para um país. Proletários do mundo, uni-vos? Não! Seres humanos do mundo, uni-vos! É possível pensar nisso? Tanto é possível, como necessário e natural que assim seja. O sistema econômico, predatório e desigual, que nos sufoca, é internacional, estendendo suas garras em toda parte, acabando com o sistema de vida do planeta, explorando mão de obra escrava na África, na China e na América Latina, promovendo guerras e mortes para a indústria armamentista se locupletar, envenenando o solo do planeta com agrotóxicos promovidos pelas grandes corporações internacionais – a maior delas, Monsanto, agora Beyer… Então, como podemos pensar em soluções nacionais se as nações e as corporações se entrelaçam em jogos de interesses e explorações, de mortes e devastação?

A convocação de Greta para crianças e adolescentes do mundo todo, e com uma repercussão impressionante, demonstra que chegamos a um ponto em que ou todos nos unimos por uma causa comum, contra uma minoria que não se importa conosco, ou caminharemos para a morte coletiva.

Basta nos compenetrarmos, por exemplo, do que acontece com o maior império do planeta: o do tio Sam. Interferem em nossa política, ajudaram a promover o golpe de 2016, tomam o nosso petróleo etc. etc. É chocante que alguém, que tenha um mínimo de instrução no século XXI, não saiba o que tem representado essa nação, que nasceu como sendo a maior democracia do planeta e se mantém como o maior império violento e abusivo (no dizer de Noam Chomski, um Estado terrorista). Pois essa mesma nação é extremamente injusta, predatória, com seu povo mesmo. Atualmente são 40 milhões que lá estão em situação de pobreza. A quantidade de gente morando nas ruas, em trailers, barracos ou carros, é estarrecedora. Às vezes, sabemos das notícias de quantos norte-americanos morrem sem auxílio médico, porque simplesmente não têm dinheiro para pagar um remédio, um médico e um hospital. Isso para não mencionar a condição da população afrodescendente, que apesar da luta de Martin Luther King e outros ativistas, apesar da conquista de direitos civis tardios e óbvios, ainda se debate com a desigualdade, a injustiça, a morte pela polícia e o encarceramento em massa.

Então, temos de nos conscientizar que um jovem negro ameaçado de extermínio na favela brasileira tem muito em comum com um negro do Harlem encarcerado injustamente por 30 anos. Que uma floresta ameaçada no Brasil tem tudo a ver com as terras inundadas na África. Que uma luta política identitária como das mulheres, dos LGTBs ou dos negros não pode desconsiderar o capitalismo internacional, o patriarcado de séculos de todos os povos e a necessidade de salvar a nossa casa comum – pois se não cuidarmos dela, não sobrará ninguém para contar a história.

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Infelizmente, existe uma esquerda tradicional, ainda herdeira da revolução industrial, que acredita no desenvolvimentismo predatório da natureza. Embora um Lula, uma Dilma, um Haddad sejam infinitamente melhores do que essa gentalha que está no poder atualmente, eles nunca incorporaram como deviam a agenda ecológica. Basta ver que foi Dilma que deixou construir Belo Monte e Lula ainda defende o projeto. Temos que lembrar que o socialismo real, o da União Soviética e da China (agora capitalista), foi tão ou mais predatório da natureza que o capitalismo ocidental.

Agendas como economia solidária, autônoma e colaborativa, vegetarianismo como forma de atitude ética não só com os animais como para com o próprio meio ambiente (sabe-se o quanto de água e desmatamento se requer para a criação e matança do gado), união de todos os povos, sem fronteiras, contra Estados que estão a serviço do capital, da guerra e da exploração de outros povos e do próprio povo que governam – essas são algumas das prioridades que devemos ter sempre em mente.

Unamo-nos, pois, enquanto humanidade, para salvar o planeta e o ser humano, enquanto ser de direitos, enquanto ser livre e criativo – agora ameaçado também pelo advento cada vez mais invasivo da inteligência artificial. Mas esse é um assunto para outro artigo…

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