Porcos-espinhos em Davos
por Elcemir Paço Cunha
Carney expressa um globalismo desiludido
A participação de Mark Carney, primeiro-ministro do Canadá, na última edição do Fórum Econômico Mundial, em Davos, recebeu uma considerável cobertura e produziu variada repercussão. Seus efeitos foram sentidos na mídia brasileira inclusive. Na Ásia, o tom da fala foi repercutida no sentido de exortar os países da região a apresentarem, em conjunto, uma “resposta à ruptura da ordem global baseada em regras”.
O primeiro-ministro conclamou à união aquelas potências médias, como o próprio Canadá, Reino Unido e países da União Europeia. Carney disse que as “as potências médias devem agir juntas, porque se não estivermos na mesa, estaremos no cardápio”. Essa afirmação foi feita diante do que considera como a “era de rivalidade entre grandes potências”, que corroeu a “ordem internacional baseada em regras” e que elegeu a força dos mais fortes como critério para as relações entre os países. Essas mudanças, argumentou, expressam que vivemos “no meio de uma ruptura, não de uma transição”.
Diante do quadro, esboçou uma nova abordagem para seu país, declaradamente inspirada no que Alexander Stubb, presidente da Finlândia, chamou de “realismo baseado em valores”. Na síntese que Carney expôs, essa abordagem reflete que:
“buscamos ser tanto princípioistas quanto pragmáticos – princípios em nosso compromisso com valores fundamentais, soberania, integridade territorial, proibição do uso da força, exceto quando consistente com a Carta da ONU, e respeito aos direitos humanos, e pragmáticos ao reconhecer que o progresso é frequentemente incremental, que interesses divergem, que nem todo parceiro compartilhará todos os nossos valores”.
É uma questão central e que merece um mergulho maior na fonte primária de inspiração.
Stubb projetou esse realismo baseado em valores considerando seu país, a Finlândia, como parte integrante do chamado “Mundo Ocidental” — um clube restrito, digamos. Em geral, isso se refere à Europa ocidental, América do Norte (Estados Unidos e Canadá) e Austrália. Em suas próprias palavras proferidas no mês de maio de 2024:
“O realismo baseado em valores, eu diria, abre espaço para a política externa. O que isso significa? Significa que você se apoia basicamente em dois pilares. Um deles são os valores. Ou seja, você ainda acredita fortemente nos valores básicos que criaram as sociedades bálticas, nórdicas e europeias. Direitos humanos, direitos fundamentais, liberdade, democracia, estado de direito, proteção das minorias, instituições e regras internacionais. Você acredita que existem bens globais coletivos que precisam ser administrados em conjunto dentro de uma ordem internacional clara. Você se mantém fiel a isso, não abandona essa ideia. Mas então chegamos ao ponto do realismo. Você é realista e reconhece que nem (…) todos vão se tornar uma democracia liberal, nem todos vão se tornar uma república funcional, nem todos acreditam na economia social de mercado ou na liberdade, nem todos acreditam no institucionalismo liberal ou no liberalismo internacional, e isso significa que você terá que fazer concessões em seus valores de tempos em tempos para conseguir resolver as grandes crises globais existentes”.
De muitos modos isso lembra o pragmatismo na política externa brasileira, de resto uma economia subordinada. Mas já nos habituamos à renovação de coisas há muito conhecidas. Esse não é o ponto, entretanto. O ponto é que essa abordagem Subb-Carney, nem tão nova assim, reflete uma reorganização relativa das relações estabelecidas em que as potências médias se encontram subordinadas.
De muitos modos, o pronunciamento de Carney é expressão do desespero econômico, militar e geográfico do Canadá diante de seu antigo parceiro de primeira hora, os Estados Unidos da América, agora governado pelo mascate Trump e sua trupe de reacionários. A honestidade com a qual Carney proferiu saber “que a história da ordem internacional baseada em regras era parcialmente falsa” aumenta a impressão sobre as questões existenciais envolvidas. Mas houvesse Trump poupado seu vizinho de ameaças imperialistas, essa história parcialmente falsa continuaria verdadeira para Carney?
Seria interessante providenciar uma análise integral do pronunciamento, mas devemos aqui nos ocupar com apenas um ponto essencial não tão óbvio ao próprio Carney e que é útil ao entendimento simultaneamente das atuais circunstâncias da economia mundial e de como se dá uma administração política da economia capitalista em contexto global em alteração. E isso considerando que a (re)articulação dos países é uma consequência do fato de que o terreno próprio da acumulação capitalista é o mercado mundial.
A movimentação das placas tectônicas, encabeçadas principalmente por China e Estados Unidos, apenas aparentemente sinaliza uma ruptura geral como fazem crer as tintas com que Carney pintou o quadro esboçado por ele. Domesticamente, as medidas praticadas no Canadá são as mesmas anteriores à “ruptura” aludida, como cortes de impostos, remoção de barreiras comerciais internas, aumento de investimentos em áreas estratégicas, como energia, IA, minerais raros. A novidade vem principalmente motivada pelas forças externas, como aumento dos gastos com defesa e acordos variados com China, Qatar e os ainda projetados com o Brasil e Índia, para citar alguns.
Esses gastos adicionados e diversificação de parcerias foram motivados principalmente pelas ameaças imperialistas reais e retóricas do mascate Trump ao país vizinho, como sugerido anteriormente. Devemos ver nisso uma consequência da reação dos Estados Unidos ao desafio chinês, que foi eleito como a principal ameaça à hegemonia da nação trumpista nesse atual contexto do século XXI. Esse desafio é talvez a face mais visível de outras movimentações das peças, mas não de uma sublevação do próprio tabuleiro e da lógica objetiva subjacente. Contra essa impressão provocada por Carney, vale iluminar essa lógica subjacente e como a força é permanentemente a alternativa nos choques interestatais uma vez que as nações operam sobre essa lógica essencial da economia capitalista:
“A realidade da “globalização”, muito idealizada em nosso tempo, é obrigada a permanecer como uma tendência perigosamente unilateral, carregada de antagonismos materiais explosivos, enquanto as células constitutivas, os microcosmos de nosso lar planetário, são internamente dilaceradas pelas contradições, em última instância, irreconciliáveis de sua centrifugalidade vigente. Pois a característica centrífuga das determinações mais profundas do sistema do capital como tal acarreta os imperativos estruturalmente arraigados da expansão antagônica do capital e de sua defesa legitimadora do Estado separada/alienada. Consequentemente, dada a sua função absolutamente crucial no processo de reprodução social global, o tipo de defesa legitimadora do Estado próprio do metabolismo social estabelecido não pode assumir qualquer outra forma senão a sobreposição a todo custo. E isso equivale, sempre que necessário, até mesmo à afirmação mais violenta possível dos interesses das forças em conflito no âmbito da tomada de decisão política/militar global no domínio das relações interestatais.
Naturalmente, a verdade mais preocupante a esse respeito é que “a Lei” instituída pelas formações estatais do capital na base material antagônica de seus próprios microcosmos constitutivos, seja no plano doméstico ou no internacional, não pode funcionar e realmente não funciona. Ela funciona de facto somente ao afirmar-se como força – ou “lei do mais forte” –, surgindo e prevalecendo como imposição legitimada pelo Estado em oposição a toda resistência e recalcitrância em potencial. Nesse sentido, “a Lei” se impõe ao decretar categoricamente a viabilidade constitucional de si mesma em sua simbiose com a relação estabelecida de forças, e continua a fornecer sua legitimação pelo Estado com a mesma afirmação categórica enraizada na força, até que haja uma grande mudança na relação das próprias forças”. (Mészáros, 2015, p. 17-18)
Uma vez que os Estados operam dependentes e como alavancas essenciais da reprodução global do capital, os parâmetros desse sistema se fazem ativamente presentes por meio da tendência expansiva de talhe antagônico. Diante disso, qualquer ordem internacional baseada em regras é apenas a face aceitável e de convencimento que nubla as relações de forças entre as formações estatais do capital. E não parece que “uma grande mudança na relação das próprias forças” esteja em andamento. Certamente ocorre um rearranjo das forças e de suas combinações que respondem à mesma lógica econômica prevalecente de uma economia capitalista global.
Nesse rearranjo, podemos observar de modo solar um exercício projetado de uma administração política nesse palco mundial, pelo menos destacando aqui elementos do pronunciamento do primeiro-ministro canadense como ilustração de elementos desse exercício que talvez nem a ele seja totalmente evidente.
Nessa direção, a primeira questão importante é reconhecer o exercício da administração política como “ajustamento permanente das medidas à luz da comparação entre efeitos pretendidos e efeitos produzidos” (Paço Cunha & Guedes, 2025, p. 95). Para dar corpo a esse exercício, podemos considerar a antiga parábola dos porcos-espinhos colhida (não sem alguma lástima) no terreno irracionalista de um filósofo alemão:
“Vários porcos-espinhos se aglomeravam para se aquecer em um dia frio de inverno; mas, ao começarem a se espetar com os espinhos, foram obrigados a se dispersar. No entanto, o frio os juntou novamente, quando exatamente a mesma coisa aconteceu. Finalmente, após muitas tentativas de se encolher e dispersar, descobriram que o melhor seria ficar a uma certa distância uns dos outros. (…) Por esse arranjo, a necessidade mútua de calor é satisfeita apenas de forma muito moderada; mas aí as pessoas não se espetam”. (Schopenhauer, 1951, p. 84-85)
Não vale a parábola inteira, mas só as partes que ajudam na provação de supor as nações como porcos-espinhos, com o perdão da metáfora, numa temperatura das circunstâncias variada no tempo. A tarefa é encontrar certa integração interestatal que produza resultados proveitosos, é estabelecer “algum ponto móvel entre (…) posições tendo em vista os objetivos de longo prazo e as modificações circunstanciais que se apresentam no processo de implementação de tal medida” (Paço Cunha & Guedes, 2025, p. 94). No caso presente, tais posições são representadas por isolamento vs. integração. Muito isolamento ou muita integração? Não há resposta pronta e estática para isso. Carney também não tem essa resposta na medida em que é uma questão prática, de exercitação e ajuste permanentes, mas nos ajuda a sublinhar essas questões porque expressa uma reavaliação geral da medida atual do grau de integração global e dos seus resultados colhidos até aqui.
Com efeito, Carney expressa um globalismo desiludido. “Nas últimas duas décadas”, disse ele, “uma série de crises nas áreas financeira, saúde, energia e geopolítica expôs os riscos de uma integração global extrema”. E isso porque esteve, explicou, “dentro da mentira do benefício mútuo por meio da integração”, uma integração que se tornou “a fonte da sua subordinação”, completou. Em suma, a integração elevada produziu efeitos problemáticos, de alta subordinação do país às economias mais fortes, às nações mais poderosas. Por outro lado, a resposta a isso não é um mundo de isolamento das nações, de busca de autonomia absoluta, pois “um mundo de fortalezas será mais pobre, mais frágil e menos sustentável”. No fundo, é algum ponto entre isolamento e integração, um ponto distinto do hoje praticado no qual não se produziu os melhores benefícios, segundo a avaliação de Carney sobre o seu país e as nações de potência assemelhada. Nisso caminha o cálculo dos riscos envolvidos. Como ele mesmo disse, um “gerenciamento dos riscos”.
Isso explica o elogio à abordagem do “realismo baseado em valores”, antes explicitada. Como disse o primeiro-ministro canadense, seguem agora “calibrando nossos relacionamentos (…) priorizando um engajamento amplo para maximizar nossa influência, dada a fluidez do mundo no momento, os riscos que isso representa e os riscos para o que vem a seguir”. A síntese da questão, como administrador político que projeta sua prática, está em uma forma de “autonomia estratégica” que expressa um ponto circunstancial entre isolamento e integração. Como dissemos, é o ajuste permanente em busca de um ponto móvel, que varia no tempo e sob circunstâncias diferenciadas. Nos termos de Carney, é uma “geometria variável, ou seja, diferentes coalizões para diferentes questões”, é a construção de “coalizões que funcionam”: é um ponto intermediário e variável entre isolamento e integração.
Enquanto administrador político do capital, Carney procura um grau de autonomia que lhe proporcione um ajuste confortável no relacionamento isolamento-integração interestatal no novo rearranjo em andamento. Por limitação imanente, a razão prática que opera nesses termos não pode alcançar as antes designadas “determinações mais profundas do sistema do capital” as quais acionam os “imperativos estruturalmente arraigados da expansão antagônica do capital e de sua defesa legitimadora do Estado”, na dicção anterior de Mészáros. Para o realismo de Carney, trata-se de alteração provocada pela quebra dos relacionamentos baseados em regras institucionais e não das compulsões que advêm da lógica capitalística permanentemente perturbadora. A razão que opera entre integração e isolamento vive nesse plano mais superficial da relação interestatal sem atingir a autêntica força motriz das placas tectônicas mundiais.
Costumam chamar estadistas de animais políticos. Em geral as metáforas prediletas são as de leões e de raposas. Como animais administrativo-políticos, a imagem de porcos-espinhos ajustando-se mutuamente em circunstâncias alteradas também lhes cai muito bem.
Referências
Mészáros, I. (2015). A montanha que devemos conquistar: reflexões acerca do Estado. Boitempo Editorial.
Paço Cunha, E., & Guedes, L. T. (2025). Natureza do Pensamento Administrativo Político a Serviço da Acumulação. Revista Brasileira De Administração Política, 17(2), 88–108. https://doi.org/10.9771/rebap.v17i2.71028
Schpenhauer, A. (1951). Estudos sobre o pessimismo. In: Schopenhauer: Essays from the parerga and paralipomena. London: George Allen and Unwin LTD. Disponível em: https://archive.org/details/in.gov.ignca.17417
Elcemir Paço Cunha – Departamento de Ciências Administrativas. Faculdade de Administração e Ciências Contábeis – FACC/UFJF. Programa de Pós-Graduação em Administração – PPGAdm/FACC. Universidade Federal de Juiz de Fora – UFJF
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