Promover saúde em tempos de pandemia, por Pâmela Pinto

Lives, vídeos e memes informam e estimulam a participação social na Internet

Promover saúde em tempos de pandemia

por Pâmela Pinto

Há cerca de um mês vivemos a primeira pandemia em um mundo hiperconectado. Nas últimas semanas, acumulamos uma nuvem de notícias e notificações nos celulares sobre o vírus SARS-CoV-2, causador da doença COVID-19. Nesse mar de conteúdo, as pessoas estão usando a internet para expressar suas necessidades e debater sobre saúde. Essa participação ativa dos cidadãos, com reflexões sobre bem-estar e o ambiente no qual estão inseridos, tem propiciado uma experiência única de promoção da saúde no Brasil.

A estratégia da promoção da saúde foi disseminada há três décadas, na Carta de Ottawa, e convoca os países a aumentar a capacidade de indivíduos e comunidades controlarem sua saúde e buscarem bem-estar físico, mental e social, de forma completa. Isso requer um diálogo constante entre cidadãos e governo, adaptado às necessidades locais e às possibilidades de cada região. Historicamente, esse diálogo tem sido um desafio. A plena escuta da sociedade e a sua inclusão como ator nas definições de políticas públicas tornou-se também uma lacuna.

Durante a pandemia, a internet tem aproximado os cidadãos em torno de uma pauta comum, permitindo que uma rede horizontal de informações e experiências fosse tecida. Pesquisadores, cidadãos, celebridades e políticos têm usado as redes sociais para combater o vírus. Mensagens centrais, como os cuidados de higiene pessoal e o apoio ao isolamento social, ganharam diferentes formatos e sotaques, e circulam com velocidade impressionante. Seja no vídeo de Ivete Sangalo sobre lavagem de mãos, no Instagram, com 3,5 milhões de visualizações (em um único post), nos tuítes científicos do biólogo Atila Iamarino, ou nos vídeos do ativista Rene Silva, sobre as dificuldades de comunidades cariocas no combate ao COVID-19.

LIVES – Os aplicativos de compartilhamento de imagens, como Instagram e Youtube, têm ganhado um destaque extra na produção e circulação de informações durante a pandemia. Ambos são espaços usados para transmissão em tempo real de vídeos, as lives, de diversos conteúdos. Nesses canais, líderes comunitários e artistas têm conseguido mobilizar audiências, abrindo verdadeiras janelas para o mundo em tempos de quarentena. Inúmeros festivais musicais e apresentações artísticas estão sendo transmitidos às telas de pessoas que puderam permanecer em casa.

O papel colaborativo da rede está sendo explorado por pesquisadores na construção de sites e ferramentas destinadas ao monitoramento de dados sobre o coronavírus no Brasil. Entre as principais iniciativas estão o site #MonitoraCovid19 (https://transparenciacovid19.ok.org.br/sobre.html), da Fiocruz, atualizado sobre o avanço da epidemia nos estados; a avaliação sobre a transparência de dados fornecidos por estados está ranqueada no site da Open Knowledge Brasil (https://transparenciacovid19.ok.org.br); uma rede multidisciplinar de 170 pesquisadores reúne informações e atualizações no site https://analisecovid19.org/.

Por outro lado, a capacidade viral da internet também tem sido usada para escoar notícias falsas. No Brasil, essa realidade foi atestada com o apagamento de mensagens em plataformas como Twitter, Facebook e Instagram de autoridades públicas. Essas redes sociais criaram políticas de combate à desinformação em escala global, sobretudo com o direcionamento de usuários para os perfis oficiais de autoridades de saúde, em particular quando estes buscam pelo tema do coronavírus. Cabe destacar que o Ministério da Saúde, o Senado e a Câmara Federal também usam essas plataformas para veiculação de entrevistas coletivas e atualizações sobre o avanço da doença no país.

A crescente discussão sobre saúde na Internet tem sido um ganho deste período de imprevisibilidade. É uma primeira fase para tornar efetivo o diálogo necessário para promoção da saúde. Ela deve também ser continuada fora das telas e para além da pandemia. Numa segunda fase esta capacidade de diálogo deve se configurar em pleitos organizados junto ao governo. Cabe lembrar que as definições acerca da autonomia da saúde devem estar atreladas à busca por qualidade de vida e acesso ao trabalho, educação, habitação, cultura, lazer e ao meio ambiente. Todos esses temas também estão relacionados ao combate contra o coronavírus e a nossa reorganização enquanto sociedade após a superação desta crise.

Pâmela Pinto – Jornalista e pesquisadora de Comunicação e Saúde

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