Pronto Socorro de Jesus? Poste de Trump, Capilouco ou Coiso, por Armando Coelho Neto

Foto El Pais

Pronto Socorro de Jesus? Poste de Trump, Capilouco ou Coiso

por Armando Rodrigues Coelho Neto

Cena 1 – Fins da década de 90. Andava eu durante a madrugada pela Av. São João (região central de São Paulo/SP), quando vi uma grande porta aberta que dava acesso a um salão bem iluminado com lâmpadas fluorescentes. Na entrada, dois brutamontes com cara de vigilantes clandestinos, fingindo cara de bonzinhos, prontos para dar boas vindas. O desesperado qualquer – fosse drogado, depressivo, abandonado, traído por marido ou mulher, gay expulso de casa, mulher espancada –  ali entrando, teriam uma torneira pra beber água, talvez café e banco para sentar. Protegidos da chuva e do frio, ainda receberiam a promessa de salvação. Aberto 24 horas, tinha na entrada uma placa: “Pronto Socorro de Jesus”.

Cena 2 – Início do ano 2000 surge a notícia de que um determinado partido político estaria cadastrando familiares de presidiários para torná-los eleitores de um determinado candidato. De quebra, dentro dos princípios da legislação eleitoral, só não podem votar os presos que tiverem condenação criminal transitada em julgado (sem recurso) e os que perderam direitos políticos. Mas, presos provisórios aguardando decisão judicial têm direito ao voto. Isso feito em cada estado, com base na população carcerária, daria para criar uma bancada de defesa de interesses dos presos, inclusive com assistência às famílias (também eleitoras). A operação teria sido abortada, líder neutralizado, a articulação vive na clandestinidade.

Cena 3 – Ano 2018. Tenho um amigo que se declara “cristão comunista” e, um dia ele teve um diálogo com a pessoa que limpa a piscina de sua casa. “O senhor é tão bom que nem parece comunista”. Comunista tem que ser mal? Perguntou meu amigo. “Sim. Eles tomam tudo da gente”, respondeu o empregado. E o que o senhor tem pra perder? Nada, respondeu o “piscineiro”. Mas um dia quero ter. O pastor da igreja disse que o “Bolso…” é o candidato de Deus.

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Cena 4 – Nos WhatsApp da vida, surgem mamadeiras com bico em formato de pênis, kit gay, o candidato Haddad jogando bíblias fora e fazendo apologia à Stalin num vídeo editado. Cenas de uma peça são introduzidas ao movimento “Ele Não” e menores armados de metralhadora desafiam todos em favelas cariocas. Enquanto isso, o Coiso estava homiziado numa fraude que só a história esclarecerá.

Cena 5 – O jornal Folha de S. Paulo noticia que as tais mensagens difundidas em massa tiveram financiamento de Caixa 2. No mesmo jornal, o General Villas Boas diz que Lula precisava estar preso em nome da estabilidade. Presumo que aplacaria a fúria dos extremistas que o Exercito não quer enfrentar, pois afinal de contas com eles se afinam? Resumo, Lula preso político com o aval da covarde caserna, que nem nacionalista é, e bate continência para “Fora Temer”.

Cena 6 – A apuração do Caixa 2 vai ser tratado com a mesma lentidão do julgamento da chapa Dilma/Temer. Pode ser objeto de debate quando (e se) o Coiso tentar passar os pés pelas mãos  (fugir do script do golpe). A essa cena se agrega a notícia de que hackers teriam violado  sistemas do Tribunal Eleitoral. Urnas sob suspeita, como explicar erros crassos dos institutos de pesquisas no primeiro turno? Como explicar Dilma (MG) em primeiro lugar amargar uma quarta posição? O que dizer de Requião? E os anônimos eleitos?

Cena 7 – A suposta e cogitada bala de prata que Fernando Haddad não foi disparada. O que era? Segundo más línguas, sujaria a eleição do Coiso, mas não o impediria de ganhar. Com o tratamento à la Steve Bannon (preposto de Trump na ajuda ao Coiso), tal bala viraria fake News. Mas aí? Não será apurada?

Volto ao Pronto Socorro de Jesus, articulação primária de bases. O pronto socorro de Jesus não foi atrás de ninguém (Cena 1). Abriu a porta e deixou os aflitos (eleitores) entrarem. Tiveram água, abrigo e conforto na madrugada, espaço social, esperança e aos aflitos ensinou/indicou quem seria o instrumento material da esperança. Mas, no caso dos presídios (Cena 2), a montanha foi a Maomé com a lei, religião, esperança e linguagem fácil. Mas, fora dali, um comunista não pode ser uma pessoa boa (Cena 3) ou seja, o demônio não pode se apresentar como demônio (ator Pedro Cardoso, em Portugal). Afinal de contas, se trata do público que acredita facilmente em mentiras (Cena 4), que são tratadas na base e no contexto das cenas 5, 6 e 7 (chantagem, coação, fraude, no golpe com supremo, forças armadas e tudo).  

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A mídia corporativa trata o “eleito” pelo nome. Noutros escaninhos é conhecido como “Ele Não”, “Coiso”, “Poste do Trump”. Os que o veem como psicopata o chamam de capilouco (capitão louco) e juram de pés juntos que seu afastamento das Forças Armadas teria sido por loucura e não por ser um mau militar (que é). Fato: pela lei contra o terrorismo que o Coiso quer endurecer, ele seria enquadrado por apologia à tortura, discriminações, incentivo à violência, ameaça de matar pelo menos 30 mil, começar uma guerra civil e um confronto com a Venezuela.

O que ele diz desmente, seu programa de linhas gerais não passou por debates entre seus concorrentes ou com a imprensa. Qualquer avaliação no momento, seja de futuro ou de psicopatia é precipitada. Há um clima de farsa no ar desde sempre, acentuado pela misteriosa facada – para alguns, um simples encontro entre psicopatas, numa cena ensaiada em que deu branco num dos atores.

Fatos reais tratados como metáforas, as sete cenas falam por si, e o futuro das esquerdas urge da objetividade do Pronto Socorro de Jesus, longe das teorias, egos, narrativas arrogantes, textões. Os socorristas estão em cada esquina/quebrada das periferias – locais onde a militância não vai tanto ou não vai mais.

Conheci um político num distrito de São João Evangelista (MG), que após eleito arrancou as portas de sua casa. Noite e dia está aberta : tem café, sopa, água, conversa. Quando o peão perdeu a crença nas instituições buscou a igreja. Instituições falidas, perdemos a fé e somo nós precisamos buscar o peão. Afinal, Poste de Trump, Capilouco ou Coiso, ele está aí criando (não tão) novas cenas (farsas).

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Armando Rodrigues Coelho Neto – advogado e jornalista, delegado aposentado da Polícia Federal e ex-integrante da Interpol em São Paulo.

 

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3 comentários

  1. “..quando o peão perdeu a

    “..quando o peão perdeu a crença nas instituições buscou a igreja..”

    desculpe, Igreja é uma instituição !! e a qual delas vc se refere ?

    Não, o povo não buscou ninguém ..mergulhou sim na piscina da sua própria IGNORÂNCIA e frustrações, e junto aos que pensam igual ao que fala a grande mídia a DÈCADAS – via redes sociais devidamente seletivas – deu um “foda-se” pra todo mundo que pensa diferente e que fica com esse “bla bla bla” que demora a mostrar soluções praticas pra problemas emergnecias (tipo desemprego e VIOLENCIA)

  2. A fé não costuma falhar…

    Como dizia uma postagem de outra dia “Você sabe o que é comunismo? Nunca vi, nunca experimentei, so ouço falar”.

    Esse é um dos problemas do Brasil. Quase tudo parte de idéias recebidas, preconceitos, chavões. Agora que os templos invadiram nosso Pais, como ressuscitar Inês?

    E agora que a escola emburreceu total, como ensinar relações de classe, escravagismo, comunismo, socialismo, dialética, filosofia, sociologia, poesia, literatura, pensadores……..

    Não é apenas o Capilouco não. Os progressistas cochilaram e acordamos nessa embrulhada. A população assustada e enojoda (sic) reagiu à altura. 

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