17 de junho de 2026

Prova de Vida, por Dayse Torres

Minha mãe…. CPF…. benefício…. Ela tomou a vacina do SUS, está incluída no IR, eu gostaria de saber se a prova de vida dela está pendente.
Acervo Agência Brasil

Autora relata dificuldade para realizar prova de vida bancária, enfrentando rejeição de documentos e burocracia digital.
Idosa de 96 anos com Alzheimer não consegue prova de vida; familiares enfrentam barreiras legais para representá-la.
Funcionários reconhecem falhas no sistema que invisibilizam idosos e ameaçam suspensão de benefícios previdenciários.

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Prova de Vida

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por Dayse Torres

Sou eleitora, declaro IR e tomei vacina do SUS. Portanto, existo no cruzamento do banco de dados. Mas porém contudo todavia entretanto…. recebo a notificação para provar que estou viva. Vou à agência bancária. Não aceitam a CNH antiga que costumo usar, por causa da foto, volto em casa, pego a recente, faço reconhecimento digital, facial, digito senha, confirmo celular, CPF, email, escaneiam a foto. Agora, sim, existo.

Minha mãe: uma luz vermelha invade minha cabeça. O RG tem uma foto dela, linda, nos anos setenta do século passado. Ela não tem nenhum cadastro digital por onde poderia receber a notificação de que duvidam da sua existência. No sistema do banco, só consta que ela estava viva até 2021. A senhora sabe, há corrupção no pagamento de benefícios, muitos mortos recebem o que vivos morrem tentando em vão obter. Fato incontestável, eu sei. Ligue para o 135.

Ligo para o 135. Digite seu CPF ou o CPF da pessoa para quem deseja informação. Digito. Essa ligação será gravada, tempo de espera vinte e oito minutos, desligo. Ligo, tempo de espera vinte e nove minutos, desligo. Ligo, tempo de espera três minutos, oba, agora vai, tempo de espera cinco minutos — eita, alguém furou a fila — mas, tudo bem, uma voz humana, Em que posso ajudar?

Minha mãe…. CPF…. benefício…. Ela tomou a vacina do SUS, está incluída no IR, eu gostaria de saber se a prova de vida dela está pendente. Você é procuradora ou representante legal? Não. Então, não posso informar nada, ela deve se dirigir à agência bancária. Minha mãe não anda mais, eu só queria…. Peça para ela ligar para o 135.

Minha mãe não fala mais. Ela pode iniciar o atendimento, dar as informações e você prosseguir. Eu poderia fingir uma voz trêmula, me passar por ela, eles acreditariam na mentira, mas não acreditam na verdade que falo. Então, faça uma procuração previdenciária.

Vou ao cartório. Minha mãe tem noventa e seis anos, tem Alzheimer…. Entendo, minha senhora, mas ela precisaria manifestar vontade para designar a pessoa que a represente. Se ela não tem mais essa capacidade, é preciso fazer o processo de curatela. Processo de curatela custa caro e demora. Consulte a defensoria pública.

Volto à agência bancária. Um casal de velhos não lembra CPF, senha, nada, os dois se entreolham, a velha pisca e levanta as sobrancelhas sem parar, o velho liga para alguém, filha, filho? Outro velho, sem a perna direita, acompanhado por um jovem que faz tudo por ele, filho, cuidador, neto? Minha senha no painel, um funcionário velho me atende. Eu só queria…. Eu entendo, minha senhora, coitadinha, noventa e seis anos, não anda e não fala mais. A senhora tentou o 135? Sim, mas…. Tentou a procuração? Também, mas…. Tentou o processo de curatela? Ainda não. Pois eu vou lhe dizer, pessoas depois de oitenta anos ficam invisíveis. Elas não estão no mundo digital nem pertencem mais ao mundo presencial, não existem. Vou ver se consigo a informação que a senhora precisa. Entendi o seu problema e quero ajudá-la. De fato, é um problema, se ela não faz a prova de vida o benefício é suspenso. Tenta todos os sistemas, até a IA do Banco, nada, vinte, trinta minutos, ele muito calmo, nada, aqui só consta que ela fez a última prova de vida presencial em 2021, isso nós já sabemos. Entendo o seu problema, minha senhora, peço desculpas, sinto muito não ter ajudado, tentei tudo que podia, mas, infelizmente….

Velhos existem. Temos prova. Falta o mundo acolher nossa existência.


Dayse Torres é autora de “Vossos Velhos”, finalista no Prêmio Jabuti – Contos em 2017, e do romance “eu sou uma velha”, cuja escrita foi contemplada pelo Projeto Rumos Itaú Social 2023-2024 e será lançado em breve pela Editora Quelônio. 

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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