4 de junho de 2026

Quando a esquerda se  encontra com a Inteligência Artificial, por André Luan Nunes Macedo

A combinação entre dados, algoritmos e estruturas de poder já está redesenhando a política; ignorar essa disputa não a torna menos real
Reprodução

O gabinete da vereadora Adriana Souza em Contagem (MG) usa IA para organizar demandas populares e qualificar políticas públicas.
Três agentes de IA — Juscelino, Lucerna e Carlitos — auxiliam na gestão, produção legislativa e planejamento estratégico do mandato.
A experiência destaca a importância de uma IA a serviço de projetos democráticos e populares, não como fim, mas como meio.

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Resumo gerado por Inteligência artificial

Quando a esquerda se  encontra com a Inteligência Artificial

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por André Luan Nunes Macedo

Antes de existir um gabinete formal da vereadora Adriana Souza em Contagem (MG), já existia um problema muito concreto: um volume crescente de demandas populares circulando em grupos de WhatsApp, reuniões de bairro, formulários improvisados, áudios e conversas de corredor.

Nesse percurso, via algo se repetir: pessoas confiavam seus problemas à política, mas os registros se perdiam em celulares pessoais, blocos de notas, e-mails esquecidos, prints espalhados.

Foi nesse contexto que comecei a usar ferramentas de inteligência artificial como facilitadoras da gestão desse material: organizar listas de demandas, agrupar por tema, identificar recorrências, sugerir sínteses para reuniões. A IA não era protagonista, mas uma aliada discreta para transformar fragmentos de sofrimento social em informação minimamente organizada.

Quando a vereadora Adriana é eleita e constitui seu gabinete, essa experiência acumulada na militância vira ponto de partida. De um lado, uma concepção política clara: não é papel da vereadora fazer balcão de favores pessoais, disputando no varejo aquilo que cabe ao Executivo resolver. O foco é enfrentar problemas estruturais do município como um todo. De outro, um compromisso ético com quem procura o mandato: quando chegam problemas individuais — de saúde, educação, infraestrutura — a orientação é encaminhá-los de forma devida para os órgãos públicos responsáveis, com registro e acompanhamento.A máxima maoísta, segundo a qual é necessário estar atento a “vida das massas nos seus mais variados níveis” é ampliada ao paroxismo com o uso da inteligência artificial a serviço da luta da classe trabalhadora. Juscelino seria = maoísmo + instrumentalização dos Large Language Models.

Entre o assistencialismo superficial e a frieza burocrática, era preciso encontrar um caminho: usar a inteligência artificial para organizar essas demandas, enxergar padrões, qualificar o debate sobre políticas públicas, sem perder de vista que cada linha de planilha corresponde a uma vida concreta. Do ponto de vista do marxismo (e do Mao, mais uma vez), trata-se de analisar as relações entre o particular e o geral, identificando os setores que mais possuem problemas. Trata-se, portanto, de um método de trabalho de base, que, com isso, nos ajuda a fazer análises preditivas sobre esses problemas.  Saber quem nos procura é identificar a tendência geral dos problemas concretos das maiorias sociais na cidade.

TecnoPolítica, em português claro

Quando falo em TecnoPolítica, não estou pensando em “cidades inteligentes” cheias de telas coloridas ou bugigangas high techs. Estou falando de algo simples e decisivo: como um mandato popular organiza informação, poder e decisão no seu dia a dia.

Um mandato recebe centenas de pedidos, relatos e denúncias. Há quem procure vaga em creche, quem enfrente fila interminável para exame, quem veja a rua alagar toda vez que chove. A vereadora Adriana deixa claro que seu foco é disputar o rumo do município, intervir nas políticas públicas e no orçamento, e não competir com o Executivo na solução caso a caso. Pelo contrário. Adriana foi vice-líder da Prefeita Marília Campos, hoje pré-candidata ao Senado. Sua atuação sempre envolveu uma cooperação, fazendo com que o mandato pudesse fortalecer as ações da gestão do Executivo. 

Ao mesmo tempo, quando alguém bate à porta com um problema concreto, o mandato não ignora: essas demandas são registradas e encaminhadas formalmente aos órgãos competentes, com protocolo e possibilidade de acompanhamento. E, somadas, ajudam a revelar onde estão os nós estruturais da cidade.

Para que isso funcione, o gabinete precisa operar como um organismo que ouve, registra, analisa e devolve. É aí que entra o Planejamento Estratégico Situacional (PES), que coordeno no mandato: uma forma de planejar olhando para conflitos reais, atores concretos, forças em disputa e obstáculos que mudam a cada semana.

Também dialogo com ideias da cibernética de Stafford Beer, que tratam de algo muito prático: uma organização só sobrevive se tiver bons canais de feedback, se conseguir aprender com a própria experiência e ajustar rota continuamente.

TecnoPolítica, nesse contexto, é encarnar esses princípios em ferramentas, fluxos e rotinas que tornem um mandato progressista mais capaz de responder ao que acontece na cidade — sem terceirizar sua inteligência política para o mercado de tecnologia.


Os agentes de IA na rotina do mandato

Imagens de Lucerna, Juscelino e Carlitos

A partir dessa trajetória, desenhamos três agentes de IA criados na plataforma do ChatGPT hoje integrados à rotina do gabinete da vereadora Adriana Souza: Juscelino, Lucerna e Carlitos. Eles não substituem pessoas, não tomam decisões sozinhos e não “sabem” nada por conta própria. Foram desenvolvidos para resolver problemas operacionais específicos, sob supervisão da equipe e da vereadora.

Juscelino: organizar a porta de entrada e o trabalho da equipe

O primeiro sistema é o Juscelino, batizado em homenagem a Juscelino Kubitschek, um dos maiores símbolos da modernização brasileira. A escolha do nome não é estética: trata-se justamente de encarar o desafio de modernizar a gestão das informações de um mandato popular, sem romper com seu compromisso social.

Por trás do nome, há um conjunto de agentes técnicos que operam de forma integrada, mas, no cotidiano, lidamos com tudo isso como um único sistema

Fluxograma de funcionamento dos agentes do Sistema Juscelino. Elaborado pelo próprio autor.

O Juscelino atua na porta de entrada das demandas. Ele recebe textos, prints, áudios transcritos, formulários preenchidos pela equipe e produz um registro padronizado: identifica quem é a pessoa, de qual região da cidade fala, qual o tema principal (saúde, transporte, educação, moradia etc.), qual órgão público está envolvido, se há prazos críticos.

Exemplo de solicitação para o Juscelino.

Perguntas para melhorar o cadastro da demanda feitas pelo próprio Juscelino

Demanda devidamente preenchida

Cada demanda passa a ser uma linha em uma base organizada, que alimenta relatórios internos e mapas de calor da cidade, evidenciando onde se concentram determinadas queixas. É isso que permite, por exemplo, sair da lógica de “resolver o buraco da rua de um eleitor específico” para a discussão sobre política de manutenção viária do município; ou transformar casos repetidos de falta de professor em debate estruturado sobre carreira, concurso e financiamento da educação.

Com o histórico acumulado, o sistema passou a registrar não apenas as entradas, mas também os desdobramentos: quantas demandas foram corretamente encaminhadas, quantas tiveram retorno, quantas chegaram de fato a uma solução satisfatória. Até o dia de hoje (26/02/2026), o gabinete pôde constatar que mais de 1.200 demandas tinham sido registradas devidamente e uma taxa de solução que orbita na faixa de 83% (969 solucionadas). São números que indicam um resultado interessante. Afinal, quanto tempo foi dedicado à resolução das demandas ao invés do seu simples cadastro? Quanto tempo foi economizado com a tarefa burocrática?

O Juscelino também cumpre outra função importante: ajudar a analisar a sobrecarga dos assessores responsáveis por direcionar e acompanhar as demandas. Ao cruzar quem registrou, quem assumiu o acompanhamento e quantos casos estão sob responsabilidade de cada pessoa, o sistema permite identificar desequilíbrios e redistribuir tarefas.

Nesse sentido, o Juscelino funciona como uma espécie de operador de recursos humanos no seu sentido mais positivo e cuidadoso: em vez de usar dados para controlar e punir, ajuda o mandato a proteger a equipe de sobrecargas, enxergar gargalos e ajustar o fluxo de trabalho.


Lucerna: moldes, rascunhos e formação política

Enquanto o Juscelino estrutura a relação com as demandas da população e o trabalho da equipe, a Lucerna foi desenvolvida para apoiar a frente jurídica e legislativa do mandato.

Fluxo do Sistema Lucerna

Ela recebe descrições de situações políticas (“queremos questionar determinada política municipal”, “precisamos responder a este ofício”, “há um problema recorrente em tal área”) e auxilia a equipe a consultar regimentos da casa, a Constituição Federal e a Constituição estadual, além de outras normas relevantes. A partir daí, ajuda a elaborar moldes e rascunhos de textos: estruturas básicas de requerimentos, esboços de ofícios, modelos iniciais de projetos de lei.

O ponto central aqui não é a “precisão milimétrica” de cada artigo citado, e sim o fato de que a equipe não precisa começar do zero a cada iniciativa. A Lucerna oferece um primeiro desenho, uma versão inicial que deve obrigatoriamente passar pelo crivo da assessoria e da vereadora, ser revisada, corrigida, ampliada, politicamente situada.

Comando solicitado e trecho da resposta da Lucerna

Como todo sistema desse tipo, a Lucerna pode, em alguns momentos, apresentar interpretações equivocadas ou verdadeiros delírios. Isso não é escondido e, por isso mesmo, nunca é usada como fonte única ou definitiva. Em vez de ser tratada como “autoridade”, ela é vista como um disparador de reflexão: coloca sobre a mesa hipóteses, caminhos possíveis, vocabulário jurídico e político que a equipe pode aceitar, recusar ou reformular.

Essa dinâmica tem um efeito que considero crucial: a aprendizagem personalizada e a formação política da equipe. Cada interação com a Lucerna é também um exercício de leitura crítica de normas, de tradução jurídica para a realidade concreta da cidade, de debate sobre as implicações de cada escolha de palavra em um texto legislativo.

Em vez de substituir o trabalho intelectual, o sistema ajuda a criar condições para que mais pessoas participem dele, inclusive assessores que não vêm de formações jurídicas tradicionais, mas que carregam experiência de território e de luta social.


Carlitos: vincular planejamento e prática

Por fim, o Carlitos é o agente conectado diretamente ao Planejamento Estratégico Situacional do mandato. Ele lê a planilha de planejamento — com ações, prazos, responsáveis e status — e ajuda a produzir diagnósticos sobre o andamento das tarefas.

Uma imagem contendo Texto

O conteúdo gerado por IA pode estar incorreto.Fluxograma do Sistema Carlitos

Com base no que já foi concluído, no que está atrasado e no que se acumula em determinadas áreas, o Carlitos aponta riscos: concentração de atividades em poucas pessoas, temas que estão sempre sendo empurrados para frente, discrepâncias entre o que o mandato se propôs a fazer e o que consegue realizar com os recursos atuais.

Essas análises chegam às reuniões de planejamento como um insumo a mais. Não há “decisão automática”; há informações organizadas que a equipe e a vereadora utilizam para escolher prioridades, redistribuir tarefas e ajustar o foco às condições reais de atuação.

De novo, trata-se de usar IA não para “otimizar” o gabinete em abstrato, mas para dar concretude a uma pergunta que todo mandato progressista precisa responder: onde colocar energia, com quem, em que ritmo, para produzir mudanças reais na cidade?


IA não é neutra: disputar o sentido da tecnologia

Entre militantes, servidores públicos, docentes e trabalhadores em geral, a desconfiança em relação à inteligência artificial é compreensível. Na dinâmica dominante, algoritmos têm sido usados para intensificar ritmos de trabalho, precarizar vínculos e vigiar trajetórias.

No setor público, o risco é semelhante: sistemas automatizados podem interferir em filas, benefícios, priorização de territórios, muitas vezes sem transparência e sem participação social. A tecnologia não é neutra: ela sempre opera dentro de um projeto político. O clichê, nesse caso, se confirma.

Por isso, a pergunta central não é se a IA vai chegar à política institucional. Ela já chegou — nos sistemas de monitoramento, nas plataformas contratadas, nos modelos de comunicação e análise de dados. A pergunta é: a serviço de quem ela vai operar?

A experiência que relato aqui — construída no mandato de Adriana Souza em Contagem — busca ser um contraexemplo: usar IA para organizar a porta de entrada das demandas, transformar casos em insumos para debate de políticas públicas, qualificar a produção legislativa e fortalecer o planejamento. Tudo isso com um horizonte claro: olhar para o município como um todo, sem abandonar quem chega com um problema individual, mas sem reduzir o mandato a balcão de favores.

Não se trata de celebrar a tecnologia, mas de recolocá-la em seu devido lugar: infraestrutura a serviço de um projeto democrático e popular.


Um convite à esquerda: entrar em campo

Este artigo não apresenta um modelo pronto para ser copiado. Cada cidade, mandato e movimento terá suas especificidades. Nosso objetivo é sinalizar que existe espaço para que o campo progressista crie suas próprias soluções tecnopolíticas, em vez de apenas consumir tecnologias prontas, desenhadas a partir de outras prioridades.

O alerta é direto: se a esquerda não se ocupar desse tema, outros o farão — e a experiência internacional mostra que não será, em geral, em favor do povo trabalhador. A combinação entre dados, algoritmos e estruturas de poder já está redesenhando a política; ignorar essa disputa não a torna menos real, apenas nos torna menos capazes de intervir nela.

Ao mesmo tempo, há uma oportunidade concreta: aproximar universidade, mandatos populares e movimentos sociais. No caso de Contagem, a experiência do gabinete da vereadora Adriana Souza permitiu experimentar uma forma diferente de organização do trabalho político, que agora se projeta para a disputa em nível estadual com sua pré-candidatura a deputada estadual.

Talvez o futuro da esquerda passe por perguntas como estas:
Como reduzir o tempo entre o relato de um problema e uma decisão de política pública?
Como transformar a soma de casos individuais em base para decisões que alterem estruturas?
Como usar a inteligência artificial para fortalecer o serviço público e a democracia, em vez de fragilizá-los?

Hoje, no mandato da vereadora Adriana Souza, em Contagem, Juscelino, Lucerna e Carlitos são três componentes dessa tentativa. Não são solução mágica, nem substituem o trabalho de base, a escuta, a presença na rua. Mas ajudam a construir um gabinete mais organizado, mais atento ao que se passa na cidade e mais preparado para agir de forma estruturante.

Cabe ao campo progressista decidir se esses experimentos vão ser exceção ou se farão parte de uma agenda mais ampla de disputa do digital — uma agenda em que a tecnologia é meio, e não um fim em si mesmo.


Por André Luan Nunes Macedo – Professor do Departamento de História da Universidade Federal de Viçosa (UFV), idealizador dos agentes de inteligência artificial do gabinete da vereadora Adriana Souza em Contagem (MG) e responsável pelo Núcleo de Planejamento Estratégico Situacional do mandato.

Declaração de uso de IA: este artigo foi escrito pelo autor com ajuda da Lucina, uma inteligência artificial que contribui para a redação preliminar dos artigos. O primeiro rascunho foi elaborado pela Lucina, que, posteriormente foi drasticamente modificado e editado.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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