Quando a polícia causou a queda de um presidente, por Andre Motta Araujo

Em outubro de 1945 não havia ainda nenhuma prova de que Vargas iria adiar as eleições prometidas quando ocorreu um fato que foi considerado a PROVA das más intenções de Vargas, a SUBSTITUIÇÃO do Chefe de Polícia do Distrito Federal

Quando a polícia causou a queda de um presidente

por Andre Motta Araujo

A questão de nomeação com intenções políticas de um Chefe Polícia percebido como manobra da Presidência para ser instrumento de seu poder causou a queda de Getulio Vargas, deposto pelo Exército em 29 de outubro de 1945.

O período do ESTADO NOVO como etapa final de um governo de Getulio, que tinha começado em 1930, se tornou ditadura em 10 de novembro de 1937, tinha data de validade por força da geopolítica internacional. A queda dos regimes fascistas na Itália, Alemanha e Japão criou um clima contrário à permanência da ditadura varguista no Brasil, clima esse influenciado pelos Estados Unidos e pela participação do Brasil como Aliado no teatro europeu.

Continuavam a existir regimes fascistas em Portugal e Espanha, mas esses não eram países estratégicos para os EUA, o Brasil era o maior país das Américas depois dos EUA e os americanos tinham especial interesse na volta da democracia no Brasil, especialmente porque tinham péssimas relações com a Argentina peronista, neutra na guerra até Março de 1945, mas ainda com um governo fascista e abrigo de muitos nazistas fugidos da derrota na Europa. Havia grande temor de um movimento pós-nazista a partir da Argentina, que recebeu mais de 500 oficiais e altos funcionários alemães fugidos da derrota.

Um Brasil democrático pró-americano era visto como essencial, especialmente porque o Departamento de Estado nunca teve ilusões sobre Vargas, que foi praticamente forçado a entrar na guerra por Roosevelt, que não lhe deu opção. O Brasil era fundamental para a invasão da África do Norte e depois da Itália, operações cruciais para a campanha americana no teatro europeu da guerra, sem as bases aeronavais de Belém, Natal e Recife seria impossível a Operação Torch (invasão da África do Norte) e depois a campanha na Itália.

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Mas apesar de Vargas ter se tornado aliado, os americanos sempre continuaram a ver o ditador como um fascista tropical, amigo de Peron, este mais fascista ainda e a queda de Vargas passou a ser um desejo americano COMPARTILHADO pela alta cúpula do Exército brasileiro, que também via os EUA como a potência vencedora e arbitral no mundo do pós guerra onde o Brasil estadonovista seria deslocado diplomaticamente com a continuação de Vargas no poder.

APESAR de Vargas prometer eleições em dezembro de 1945, havia forte presságio de que na última hora ele iria adiar as eleições indefinidamente. Havia já candidaturas postas para as eleições de 1945 e nenhuma delas agradava Vargas, especialmente a do Brigadeiro Eduardo Gomes, a FAB-Força Aérea Brasileira. A FAB, apesar de criada por Vargas em 1941, era o reduto dos anti-varguistas nas FF.AA.

Mas em outubro de 1945 não havia ainda nenhuma prova de que Vargas iria adiar as eleições prometidas quando ocorreu um fato que foi considerado a PROVA das más intenções de Vargas, a SUBSTITUIÇÃO do Chefe de Polícia do Distrito Federal, agora rebatizada como DEPARTAMENTO FEDERAL DE SEGURANÇA PÚBLICA (e depois POLÍCIA FEDERAL) que era o histórico João Alberto Lins de Barros, personagem de alto nível da Revolução de 30, líder tenentista, foi Interventor em São Paulo no início da Revolução, depois Embaixador no Canada, suas Memórias são um documento importante desse período. João Alberto era também exímio pianista.

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João Alberto Lins de Barros foi substituído por ninguém menos do que BEJO VARGAS, o célebre Benjamim Vargas, irmão do Presidente, personagem polêmico, conflitivo, briguento, a quem todos temiam, andava armado em cassinos e boates e, às vezes, disparava tiros para o ar para mostrar valentia. A nomeação de BEJO foi considerada a senha para o cancelamento das eleições de Dezembro, ou seja, Vargas sabia que viriam reações e colocou na Chefia da Polícia um valentão para enfrentar os inimigos, a Polícia seria sua arma.

No dia seguinte da nomeação de BEJO VARGAS, Getúlio foi deposto pelos Generais Goes Monteiro e Eurico Gaspar Dutra, em nome do Exército, como sendo RENÚNCIA e na condição de exilado dentro do País, na sua fazenda de São Borja, de onde não deveria sair até a posse dos eleitos nas eleições que se seguiriam à nova Constituição de 1946.

Getulio foi forçado a aceitar essas condições, que não foram tão duras como ele poderia esperar. Não lhe foram tirados direitos políticos e Getulio foi eleito Senador por vários Estados e ao fim ele apoiou aquele que o depôs, EURICO GASPAR DUTRA, que foi eleito Presidente derrotando o Brigadeiro Eduardo Gomes.

Muitos estranharam o apoio de Getulio àquele que poderia ser considerado um traidor, Dutra era Ministro da Guerra de Getulio, mas Vargas era um estrategista sofisticado, calculista frio e político experimentado. Ele tinha certeza que Dutra não iria persegui-lo, não iria abrir Comissões de Inquérito sobre seus quinze anos de poder, até porque ele, Dutra, era personagem central de seu governo como fiel escudeiro do Estado Novo, seu Ministro da Guerra desde 1937, era portanto sócio de seu passado, persegui-lo ele tinha certeza de que o Brigadeiro Eduardo Gomes faria. Se o Brigadeiro ganhasse Getulio tinha absoluta certeza que seria preso e morreria na cadeia, portanto Dutra era o mal menor e DUTRA SÓ GANHOU POR CAUSA DO APOIO DE GETULIO, que tinha mesmo após a queda imenso prestígio popular por todo o País.

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Como dizia Napoleão, que temia Fouché, primeiro Chefe de Polícia da era moderna, “o controle da Polícia é fundamental para o Poder” e o Grande Corso teve seu imenso poder numa Europa onde mandou e desmandou por uma década, dois pilares, a Polícia com Fouché e a Diplomacia com Talleyrand, dois enormes personagens, de dimensão histórica, ambos políticos refinados e estrategistas brilhantes, sem eles Napoleão jamais governaria a Europa.

No caso do Brasil, Getulio sempre teve personagens históricos à frente da Polícia, o tenebroso Filinto Muller, depois João Alberto, pivô da Revolução Paulista de 1932 e fechou o ciclo com o controvertido Bejo Vargas pivô de sua queda. Realmente, a Polícia como arma política não é coisa simples, no Império, da Ditadura e na Democracia.

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1 comentário

  1. Ode ao Fascista. É impressionante a doutrinação que foi criada em torno de um Ditador Assassino. Ditador desde o golpe civil militar de 1930 até 1954. Ditador é Ditador. Aqui tentamos ‘dourar a pílula’. É a tragicômica história brasileira destes 90 anos. Institutos ” FGV ” por todos lados, enquanto condenam ” Ulstra’s ” da vida, omitindo criminosos como Filinto Muller, os Porões, Paus de Arara e Cemitérios Clandestinos da Ditadura Vargas. 1945 é o Golpe para cima. Golpe para “americano” ver. O Nazista Dutra, Braço Direito do Fascista, derruba o Governo que criou e comandava, para depois fabricar a volta do mesmo Ditador ao Poder (é para levar isto a sério?!) em Eleições controladas por este Estado Ditatorial (alguma semelhança com dias atuais de Voto Obrigatório em Urnas Eletrônicas de Biometria FascistoNazista? Afinal Pátria das Coincidências). Juntamente com todo Corpo Militar que dava suporte ao Governo Ditatorial. E toda esta estrutura civil, esquerdopata, nepotista e militar (Leonel Brizola,Tancredo Neves, João Goulart, Juscelino Kubscheck,…), reproduzida nas Eleições seguintes até o Golpe Militar de 1964. Jânio Quadros atropela o Militar Marechal Lott, da Coligação do Partido de JK, GV, GD, Tancredo,…Inacreditável é que nos dias de hoje, tentarem dar algum significado Democrata, Estruturante ou Estadista a estes 90 anos de Tragédia Nacional. TRAGÉDIA NACIONAL. O Nepotismo da Família do Fascista na figura de Tancredo Neves condena e enterra esta Nação desde 1930, até os dias de hoje, na Figura Familiar e ainda muito influente de Aécio Neves (quase Presidente da República, com apoio de todos satélites do projeto fascista de 1930: USP, FEDERAIS, UNE, MEC, OAB, SINDICALISMO,…) Ficamos tentando explicar o fracasso enquanto caçamos fantasmas? Os responsáveis estiveram e estão aí por todas estas décadas. E foram replicados e replicaram este mesmo Estado nestes 40 anos de farsante Redemocracia (produzida adivinhem por quem? Parceria Tancredo Neves/Jose Sarney). Como será que chegamos até aqui? Inacreditável !!!! Pobre país rico. Mas de muito fácil explicação.

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