Quando Dominique Strauss-Kahn caiu em desgraça
por Daniel Afonso da Silva
Aqueles dias do 14 de maio ao 23 de agosto de 2011 causaram choques de percepções de realidade no mundo inteiro. Ninguém, atento e educado, passou incólume. Dois nomes tomaram conta do noticiário. Nenhum deles completamente conhecido de todos. Um portava credenciais de interesse e respeitabilidade mundiais, mas seguia pouco aderente ao cotidiano de populares. Outro, era inteiramente anônimo, ordinário e desconhecido, inclusive em seus círculos mais restritos.
Tudo se deu em Nova Iorque.
Primeiro em Manhattan.
Depois, no Queens, no Aeroporto Internacional John F. Kennedy.
O dia era o 14 de maio de 2011; e caiu num sábado. Um sábado ameno, normal, trivial, agitado, convulsionado, inspirador nos Estados Unidos da América. Um dia de sábado que parecia de domingo. Muita gente no aeroporto de Nova Iorque. Gente do mundo inteiro. Gente chegando, passando, indo. Encontrando-se; despedindo-se. Partindo.
Entrava meio-dia quando os passageiros, com destino ao Charles de Gaulle, em Paris, começaram a adentrar o clássico equipamento da frota Air France. Tempos depois, embarque finalizado e tripulação a postos, a aeronave estava pronta para taxiar. Tudo ia certo, correto, completo e tranquilo. Até que autoridades do aeroporto ordenaram tudo descontinuar. O aeroplano deveria seguir no chão.
Depois dos atentados de 11 de setembro de 2001, esse tipo de imobilização de aeronaves perto da partida tinha virado frequente nos Estados Unidos. Então, ninguém, tripulação ou passageiros, habitué do serviço, algo estranhou. A surpresa veio, somente, na irrupção de impávidos e circunspectos agentes do departamento de polícia de Nova Iorque no interior do avião.
Esses senhores da ordem e da lei chegaram determinados. Procuravam alguém preciso. Sabiam exatamente quem era, onde estava e o que, cotidianamente, fazia. E sabiam que fazia coisas importantes, aos Estados Unidos e para o mundo inteiro. Tinham, porém, dúvidas, apenas, sobre o que ele, imediatamente anteriormente, fizera. Pela gravidade das dúvidas e pelo grau elevado da suspeição de feitos ruins, vieram, então, ao avião, averiguar.
O procurado em questão era Dominique Strauss-Kahn. Nome e sobrenome do Diretor-Geral do Fundo Monetário Internacional. Professor, empresário e político francês, antigo Ministro das Finanças da França e candidato, confirmado do Partido Socialista, para concorrer à sucessão presidencial em 2012.
“Acompanhe-nos, por favor”.
O voo seguiu. Dominique Strauss-Kahn – doravante, DSK –, ficou.
Os policiais detinham o seu aparelho celular. Eram incalculáveis os danos que o extravio dos contatos da agenda daquele aparelho poderia causar. Convencionava, assim, por bem, localizar o dono e entregar. Mas não era esse, simples e somente, o propósito da interpelação.
Uma investigação criminal havia sido instaurada, horas antes, no 45 W 44th St, New York, NY 10036. Endereço de recente pernoite de DSK, no suntuoso quarto 2806, do charmoso Hotel Sofitel, do grupo francês Accor, na cidade-mundo, Nova Iorque.
Uma camareira, sem nome nem rosto, havia acusado, pesada e incisivamente, o patrão do FMI de havê-la agredido moral, psicológica e sexualmente. Segundo seu relato, ela passara faire le ménage. Adentrou o aposento sem se atentar se alguém estava. Já dentro, percebeu que o locatário estava e se banhava. Assentou-se na cama. Imaginou, por súbitos instantes, em dizer algo. Quem sabe, desculpar-se e sair. Logo surgiu alguém. Era um homem. Entreolharam-se. Ele, dorso nu, fez-se, totalmente, nu. E, com impulsão, teria, segundo ela, avançado sobre ela com feição lasciva de intenções luxuriosas não compartidas.
Frente à insanidade da luta corporal, ambos, coléricos e perplexos, desfizeram-se da presença e entraram em desespero.
A camareira, seguiu crescendo em gritos, corredores afora, ao passo que o frio imobilizador de pernas dava lugar à taquicardia constrangedora da alma. DSK, por sua vez, ia progressivamente chocado com a negativa, confortado no prazer traquinas de medos passageiros de travessuras rotineiras e determinado a fechar tudo aquilo em sua memória seletiva de aventuras sádico-libertinas corriqueiras. Algo grave havia sucedido. Mas tudo era grave, em emoções e sentidos, no cotidiano desse executivo de reputação mundial desde que ele saiu do anonimato de uma infância tranquila no Marrocos e, a partir da juventude, ingressou conhecer os encantos mundanos, diurnos e noturnos, da França e de Paris. Nada, portanto, para ele, ali, nu e desacorçoado, novo em si. Que, por imposição do métier, seguiu absorto em preocupações fugidias de altíssimo funcionário internacional e displicente com a organização de tarefas simples, como revisar se sua mala levava todos os seus pertences. Uma imprudência que materializou indícios de feitos ruins. Seu celular ficara sobre a cama. Ninguém abandona celular – uma segunda pele, quase uma prótese untada ao corpo – senão em desespero, choque de emoções e/ou, eventualmente, em fuga sem perdão. Munidos desse celular e dos relatos de aflição da camareira, os agentes da polícia iniciaram a investigação. Uns peritos ficaram no quarto 2806 do Sofitel. Outros oficiais mais graduados foram ao aeroporto ao encalço do presumido malfeitor.
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Versão ampliada deste texto está https://revistas.usp.br/revusp/article/view/240542/216922
Daniel Afonso da Silva é doutor em História Social pela Universidade de São Paulo e autor de “Muito além dos olhos azuis e outros escritos sobre relações internacionais contemporâneas”.
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