Quando Trump e os Clintons eram amigos, por Andre Motta Araujo

Donald Trump não tem amigos, tem “networking”, relacionamento de negócios. Gente com quem conviveu por anos foi chutada pela janela da Casa Branca, sem nenhuma cerimônia

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Quando Trump e os Clintons eram amigos

por Andre Motta Araujo

No gélido mundo da sociedade americana, o conceito de amizade tal qual conhecemos na vida social brasileira, é quase inexistente. Relações de coleguismo em ambiente estudantil e de trabalho são comuns, mas esse relacionamento não se transmuta em amizade para o prolongamento na continuidade da vida. O sentido de amizade e compadrismo é latino e não anglo saxão. Findo o coleguismo de empresa nunca mais vê o colega com quem conviveu por anos na companhia, é assim na vida norte-americana, não há solda humana.

Donald Trump não tem amigos, tem “networking”, relacionamento de negócios. Gente com quem conviveu por anos foi chutada pela janela da Casa Branca, sem nenhuma cerimônia, não foi só Steve Bannon, foram dezenas, Trump não perde tempo com rapapés e desculpas.

Pouca gente no Brasil sabe que Trump e o casal Bill e Hillary Clinton se frequentavam, as famílias eram próximas, os Clinton foram padrinhos do terceiro casamento de Trump em 2005, quando se casou com Melania, hoje se detestam. Nada mais fugaz do que um relacionamento entre americanos, mas com Trump a coisa é ainda mais ligeira, Trump é uma máquina de interesses, negócios, poder, egoísmo, um meteoro na vida e na política, suas “amizades” têm a solidez de uma manteiga sem sal sob o sol, não valem nada e não duram nada.

O HOMEM DE NEGÓCIOS

Trump é homem de negócios atípico nos EUA, não é um executivo ou empresário padrão no mundo do “business” americano. Não tem sócios na sua Trump Organization, não publica balanços, não é discreto, educado e muito menos respeitado e confiável. Todas suas Trump Towers, prédios muito altos e de arquitetura duvidosa, considerada brega pela elite dos arquitetos no uso excessivo de cristais e dourados, aquilo que no Brasil se chama de “cafona”, todos os empreendimentos com esse selo “Trump Towers”, com excecão do de Nova York,  foram usinas de problemas e prejuízos para investidores, especialmente a de San Diego na Califórnia. Os investidores colocavam dinheiro no projeto, Trump retirava a sua parte que era protegida sob um contrato apenas de cessão de marca e depois largava o empreendimento à sua própria sorte, obrigando investidores a colocar muito mais dinheiro do que o previsto para terminar o prédio. Ao tentar processar Trump, os investidores viam que não havia como, Trump estava no projeto apenas como franqueador da marca Trump e não tinha nenhuma responsabilidade legal pela conclusão final do projeto do qual sempre saia com 20 ou 25 milhões de dólares, livrando-se depois dos processos por escapes legais, mesmo que ele e a filha fossem as estrelas do lançamento do prédio em cerimônias regadas a champanhe.

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Por causa de suas falcatruas em série, o cadastro de Trump nos bancos americanos foi para o lixo há décadas, nenhum banco americano lhe emprestava dinheiro, o que o obrigou a partir para o exterior em busca de “funding”. Por um tempo seu maior financiador foi o Deutsche Bank, maior banco da Alemanha, que também lhe cortou o crédito após atrasos de pagamento, rolos sem fim, enganações e complicações legais e problemas em série.

Sem crédito na Europa e EUA Trump caiu de nível de financiadores e passou a operar com o submundo da finança, bancos de paraísos fiscais e, ao fim, bancos de Chipre, um paraíso fiscal da Rússia no Mediterrâneo, onde os bancos têm controle suspeitíssimo de oligarcas de Moscou, daí seu link com Putin.

Trump, antes de ser eleito Presidente, algo que nunca esperava acontecer, tentou construir uma Trump Tower em Moscou. Para obter as licenças, ofereceu a Putin de presente a cobertura do prédio inteiramente decorada. Sua filha Ivanka esteve várias vezes em Moscou para discutir com a Sra. Putin os detalhes da decoração. Com a eleição de Trump à Presidência o projeto foi obviamente suspenso, mas os detalhes do negócio se tornaram públicos nas investigações posteriores à eleição de Trump.

Um negócio pessoal de Trump mostra seu estilo de operar. Trump comprou de Adnam Kashogi, o maior lobista da Arábia Saudita, o super iate NABILA, deu entrada de US$19 mllhões e ficou de pagar mais US$30 milhões em um ano. Deu calote na segunda parte, mas não devolveu o barco. Quando Kashogi, tio do jornalista assassinado em Istambul de mesmo sobrenome, tentou retomar o barco não conseguiu porque Trump ia levando o barco de porto em porto, impedindo a ação legal de retomada. Depois de muito tempo Trump conseguiu revender o barco recuperando o que pagou e transferiu a dívida para o novo comprador.

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Toda essa história é pública e saiu nas revistas internacionais de iatismo com detalhes.

Trump também teve e tem casinos espalhados pelo mundo, especialmente um grande cassino na Trump Tower do Panamá, o que por si só é carimbo de empresário controvertido. Cassino é negócio de máfias de jogo em qualquer lugar do mundo e dono ou sócio de casino carimba qualquer empresário, não é para qualquer um, é preciso ousadia especial, é negócio pesado.

A VIDA POLÍTICA DE TRUMP

Trump foi um político tardio, entrou na política já no outono da vida e transferiu para a política seus métodos no mundo empresarial, métodos que pode se classificar com a expressão “chicaneiro”, que é uma etapa antes do estelionato, é o operador sem escrúpulos, mas que não chega ao delito, escapa pela porta dos fundos. Trump sempre soube usar sua extraordinária ousadia e ausência de pudor, explorou negócios de alta exposição como o concurso de Miss Universo, de cuja organização é dono, shows de televisão de gosto duvidoso e outras baixarias.

Um padrão do método Trump é aproveitar qualquer oportunidade que apareça para se expor e ganhar nome e prestígio no tipo de público brega americano, que é vasto e ignorante.

Como contrapartida, seu nome e prestígio é abaixo de zero na elite social e intelectual americana, onde jamais penetrou, sua origem é da imigração alemã da Renânia, de onde veio seu avô que explorou bordeis em Nova York. A alta elite americana é fechada entre descendentes de ingleses, escoceses e holandeses, os círculos sociais nos EUA são blindados de maneira invisível e jamais Trump será um Roosevelt. É significativo que a família Bush, Republicanos históricos desde o avô do último Presidente, o Senador Prescott Bush, votou em Hillary, o que declararam publicamente, para não votar em Trump, que nunca foi da elite Republicana, apenas se infiltrou no Partido e dele se aproveitou. Os Bush votarem pela primeira vez na vida em um candidato Democrata, tal sua repulsa por Trump. Tenho amigos de 40 anos Republicanos que tiveram altas posições nos Governos Reagan e Bush pai e filho e nenhum votou em Trump, que consideram um falso Republicano.

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O fato é que Trump é Presidente, cheio de acusações e polêmicas, continua Presidente e será reeleito pelo divisionismo do Partido Democrata. Trump é um fato da realidade histórica, produto de um dos “ciclos de insanidade” pelos quais passa a cada quarto de século os EUA, como foi a rejeição pelo Congresso do Tratado de Versalhes, a Lei Seca e o Macartismo, ciclos que cobram seu preço histórico. A rejeição de Versalhes abriu caminho para o nazismo, a  Lei Seca abriu caminho para o crime organizado e o Macartismo rachou a sociedade americana que vinha unida  pela vitória na Guerra.

O trumpismo, ao destruir todas as alianças estratégicas dos EUA no mundo, abre caminho para a China como potência mundial. Além disso Trump rachou, como nunca antes, a sociedade americana, aprofundou as divergências e diferenças sociais entre ricos e pobres, brancos e negros, americanos de raiz e latinos, é um homem sinistro, nefasto, corrosivo e destrutivo, mas foi eleito mais por seus defeitos que por suas escassas qualidades. Os Trump são acidentes da civilização e temos que sobreviver apesar deles, o mundo sobreviveu a Átila, Savanarola, Hitler e sobreviverá a Trump.

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8 comentários

  1. Não é a toa que os americanos têm a estranha figura do “melhor amigo”, um quase irmão que acompanha por toda vida a outra pessoa.
    Acho que é uma válvula para dar vazão à toda essa pressão social em que vivem.

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  2. Prezado André

    Se temos Bozo presidente, Trump é aquele palhaço assassino do filme “It”. Não é apenas a loucura coletiva que explica que trastes assim sejam eleitos ou se destaquem. É algo pior, que a Era da Ignorância trouxe.
    Grande artigo, mais uma vez. A falta de escrúpulos e egoísmo extremo de Trump lembra FHC, figura mesquinha

  3. E nós, brasileiros, sobreviveremos a Bolsonaro e suas milícias.
    Igual a Trump, Bolsonaro também tem prestígio no público ignorante. Por isso, a estratégia de destruir a Cultura e a Educação.

  4. O mundo sobreviveu a Átila, Savonarola ou Hitler porque não havia a quantidade de armas nucleares que há hoje. De resto, parabéns e obrigado pelo excelente artigo.

  5. Trump na América; Teresa may e David Cameron e provavelmente Boris Johnson no Reino unido; o momento não está fácil

  6. Vivemos em um circo. O palhaço do espetáculo, filhos& auxiliares chamam a atenção para pautas ridículas ( tomadas de 3 pinos, pirocas, …) enquanto o principal se esconde atrás do palco, encoberto por cortinas. Enquanto a plateia ri das idiotices do palhaço, a nação ( em silêncio…) vai sendo retalhada e entregue. Petróleo, água, Amazônia ( verde e azul…), aeroportos, Base de Alcântara… E a plateia ri do palhaço, sem entender que os verdadeiros palhaços estão na plateia rindo de si e de sua desgraça, de sua inércia. E a plateia ri…

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