Quem pergunta demais descobre o que não quer, por Fernando Nogueira da Costa

Governo submete-se a um acordo letal com Trump: provocar uma guerra civil e justificar uma intervenção militar na Venezuela. Dois meses já bastaram para ver a irresponsabilidade de 55% dos eleitores.

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Por Fernando Nogueira da Costa

O czar da Economia pronunciou o título deste artigo. É uma lapidar sentença de um governo moribundo em apenas dois meses.

Foi na posse da mais jovem presidente da história do IBGE, a economista Susana Cordeiro Guerra, 37 anos, inexperiente em gestão de pesquisas estatísticas. Nascida em San Francisco (EUA), foi criada no Rio e pertence a uma família com negócios no ramo imobiliário. Formada na Universidade de Harvard em 2003, Susana fez doutorado pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT, na sigla em inglês). Bastou para ser nomeada por um governo do partido do laranjal, ou seja, sem quadros técnicos, o fato dela ser amiga da filha do ministro Paulo Guedes.

Favoritismo e nepotismo: este é o governo do capitão. Nepotismo é um termo utilizado para designar o favorecimento de parentes ou amigos próximos em detrimento de pessoas mais qualificadas. Diz respeito à nomeação para cargos públicos e políticos.

“Quem pergunta demais descobre o que não quer”. O super-ministro não quer “descobrir” o Brasil. Algumas informações sobre a realidade brasileira lhe são inconvenientes. Por exemplo, qual é a fortuna obtida por banqueiros de negócios sem nunca terem adicionado valor produtivo de renda e emprego à economia, só apropriado em transferências de propriedades. Ele ainda não liberou os dados do imposto de renda 2018-AC 2017. É de interesse público, porém, revelar “que país é este”.

O ministro é um reducionista. Reduz temas complexos, desconhecidos por ele, a uma frase “ixxxpiiierta” (à la humor carioca), ou seja, revela uma cultura oral de orelhada. Afirmou “países ricos” terem questionários censitários mais enxutos se comparados ao brasileiro. Ora, os países ricos dispõem de muito mais dados administrativos acessíveis ao público, substituindo parcialmente ao Censo. Não é o caso do Brasil.

Aqui, é a única fonte de informações desagregadas por municípios e até por bairros. O Censo Demográfico não é só imprescindível para elaboração de políticas públicas federais, estaduais e municipais, como também para o planejamento empresarial na análise do mercado brasileiro. A mídia e os próprios bancos necessitam conhecer a estrutura censitária para fazer suas pesquisas amostrais para análises conjunturais.

O Censo não permite apenas uma análise pontual, mas também uma comparação com resultados passados. Se coletar menos informações no próximo ano não permitirá comparações com os censos anteriores, provocando quebra das séries históricas, não permitindo medição da evolução – ou involução – do país. Serão duas décadas perdidas nas estatísticas brasileiras por conta de um governo irresponsável. Não sabe o mal feito a si e aos outros: esta é a definição de idiota. A palavra idiota vem do grego idiótes, expressão antes usada para designar quem não tinha consciência da coisa pública.

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Um estadista revela grande tirocínio, habilidade e discernimento quanto às questões políticas, à administração do Estado. É uma pessoa versada nos princípios ou na arte de governar, ativamente envolvida em conduzir um governo ou moldar a sua política. Este “homem de Estado” exerce liderança política com sabedoria e sem limitações partidárias. Dois meses já bastaram para ver a irresponsabilidade de 55% dos eleitores.

Na primeira derrota ao governo do capitão no plenário, a Câmara dos Deputados derrubou o decreto assinado pelo vice-presidente, Hamilton Mourão, logo no dia 24 de janeiro de 2019. Tinha alterado as regras de aplicação da Lei de Acesso à Informação, permitindo ocupantes de cargos comissionados da gestão, em muitos casos sem vínculo permanente com a administração pública, classificar dados do governo federal como informações ultrassecretas e secretas!

Talvez o velho chicagão (Chicago’s Old) possa aprender algo com a jovem doutora do rival MIT, se ela tiver assistido às aulas de Cesar Hidalgo – e aprendido. Ele é um físico chileno do MIT Media Lab. Hidalgo, juntamente com um grupo de pesquisadores de Harvard e do MIT, realizou um estudo sobre Complexidade Econômica.

Hidalgo apresenta um novo paradigma ou modelo mental sobre o mundo. O conceito central é a informação se opor a entropia. A informação está relacionada à “ordem física”. O diferencial do planeta Terra é a disponibilidade de informação.

Esse raciocínio instiga a releitura da Economia, não por elementos tradicionais como capital e trabalho, mas por elementos tradicionais da Física, como energia, matéria e informação. A tese central de Hidalgo é o crescimento das economias ser explicado pelo crescimento da informação. Sendo assim, para entender porque as economias crescem, é necessário entender os mecanismos pelos quais a informação aumenta, viu, Guedes?
Graças ao engenho de seres humanos e à combinação de conhecimento e know-how são produzidas intrincadas combinações de átomos em objetos (bens) representativos de informação armazenada. Os processos capazes de permitirem às pessoas (ou grupo de pessoas) produzirem objetos ou encapsularem informação envolvem a formação de uma rede profissional e social capaz de acumular e processar conhecimento e know-how. Conhecimento envolve o relacionamento ou ligações entre informações. Já know-how refere-se ao conhecimento tácito, ou seja, à capacidade de realizar ações.

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A dedução desse raciocínio leva ao entendimento da Economia como um sistema coletivo e social pelo qual os seres humanos fazem a informação crescer. Se existe informação embutida em objetos, os objetos produzidos por pessoas são “cristais de imaginação”. Tais produtos ou objetos representariam aplicações ou a materialização de conhecimento, know-how e imaginação.

Assim, para Hidalgo, o desenvolvimento econômico está relacionado às capacidades das economias não de comprar, mas sim de “produzir informação”. Para fazer a “informação crescer”, ou seja, para produzir a cristalização de pensamentos de pessoas em objetos tangíveis, é necessária a capacidade de computação, isto é, processos de transformação das informações. Alô, alô, Guedes, o input censitário é fundamental para o processamento inteligente gerar output necessário à vida pública – e empresarial!

Por sua vez, a capacidade de computação requer o bom funcionamento de redes sociais de interação entre pessoas ou grupos de pessoas, sendo afetado por instituições e tecnologias. Das interações entre todos esses componentes, em diversos níveis de escala, emerge um Sistema Complexo, porém, passível de ser interpretado via simplicidade analítica. Esta é a atual e desafiante fronteira do conhecimento, ‘tá entendendo, Guedes?

O conhecimento e o know-how estão “aprisionados” nas mentes e nas redes formadas pelos agentes econômicos. As tecnologias aos poucos reduzem restrições dadas por fronteiras nacionais, facilitando a comunicação e “encurtando” distâncias.

No entanto, como a socialização de informações e/ou conhecimento, sob forma de know-how, é ainda um fenômeno com grande especificidade local, então, eles acabam se acumulando em determinados espaços geográficos. Para Hidalgo, as diferenças de conhecimento e know-how entre nações explicam a desigualdade econômica mundial.

Como as pessoas adquirem conhecimento e know-how? As pessoas aprendem, isto é, adquirem conhecimento e habilidades de outras pessoas, sendo muito mais proveitoso para nós aprender de pessoas detentoras de experiência em tarefas ou ações cujo aprendizado é desejado.

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A diversidade de conhecimento e know-how é fator determinante da capacidade de produção de informações mais complexas, isto é, “cápsulas de conhecimento” com mais know-how embutido. A formação de redes de relacionamentos, inclusive internacionais, desempenha um importante papel no emprego dessa diversidade. Essas redes são científicas – e não tuítes, feicebuques e uotzaps, viu, capitão e bolsonaristas?

Know-how é um termo em inglês com o significado literal de “saber como”. É um conjunto de conhecimentos práticos (fórmulas, informações, tecnologias, técnicas, procedimentos, etc.) adquiridos por uma empresa ou um profissional. Em economia de mercado, traz para si vantagens competitivas.

Possui know-how, por exemplo, a organização empresarial capaz de dominar um nicho de mercado por apresentar conhecimento especializado sobre algum produto ou serviço não possuído pelos concorrentes. Ele está diretamente relacionado com inovação, habilidade e eficiência na execução de determinado serviço. É um produto valioso resultante da experiência acumulada por cientistas e técnicos, inclusive sábios-tecnocratas, em processamento de informações diversas de distintas áreas.

Atualmente, além do know-how, uma empresa ou um país para serem bem-sucedidos devem possuir o “know-why” (saber porquê), isto é, saber o motivo porque algo é feito de determinada maneira. Por isso, novatos inexperientes em gestão pública e geopolítica não podem chegar e, arrogantemente, “sentar-na-janelinha”.

Um péssimo exemplo dessa inabilidade ideológica e diplomática está sendo dado na fronteira com a Venezuela. Mancomunado com colombianos e norte-americanos, este governo submete-se a um acordo com Trump para a consecução de algo irresponsável e letal: provocar uma guerra civil e justificar uma intervenção militar desse conluio do mal, cuja finalidade é o controle da enorme reserva de petróleo da Venezuela.

*Fernando Nogueira da Costa é professor titular do IE-UNICAMP. Autor de “Métodos de Análise Econômica” (Editora Contexto; 2018). http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/

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8 comentários

  1. Talvez, caro Fernando, “inconsequência” seja um termo mais adequado do que “irresponsabilidade”, no caso dos que elegeram Bolsonaro. Assim como creio que haja quem votou no ex-capitão pensando que pobre deve ser reprimido – recalques, temores, preconceitos e discriminações -, creio que haja quem tenha dado esse mesmo voto pensando bem intencionadamente que o alinhamento ao capital do dólar traria prosperidade geral a nosso país. Ambos não têm como fugir à responsabilidade pelos seus votos mas ambos não perceberam que a única consequência com tal alinhamento significaria pobreza – em todos os sentidos que você puder conceber – geral.

  2. Tudo muito bom, tudo muito bem! Então fica assim, se não gostamos de um presidente eleito temos o direito de derrubá-lo!

  3. Meu caro, vida é isto. Máxima entropia não combina com organização de seres vivos. A organização desta complexidade, contrariando o rumo natural das coisas, se faz com gasto de energia, e muita,, inclusive pensar. Mas talvez seja pedir demais.

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