28 de outubro de 2026

Bloqueio a Cuba faz da política sofrimento humano, por Ricardo Viveiros

Impedir ou dificultar o acesso de uma população a recursos indispensáveis à sobrevivência não é uma medida política neutra.
Mural em Cuba

ONU aprova resolução contra bloqueio dos EUA a Cuba com 130 votos favoráveis e 17 contrários em 28/10/2026.
Bloqueio causou prejuízos de US$ 8,083 bi entre 03/2025 e 02/2026 e agravou escassez de energia, água e saúde na ilha.
Brasil apoia resolução e condena sanções que penalizam população cubana, defendendo soberania e solução diplomática.

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Bloqueio a Cuba faz da política sofrimento humano, por Ricardo Viveiros

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“Por trás da rigidez, tem sempre outra coisa; sempre!”
Papa Francisco

A expressiva votação na ONU contra o bloqueio dos Estados Unidos a Cuba reafirma um princípio essencial, o de que nenhum país tem o direito de condenar um povo inteiro ao sofrimento para impor sua vontade político-ideológica.

Em 28 de outubro de 2026, a Assembleia Geral das Nações Unidas aprovou, por mais uma vez, a resolução cubana pelo fim do bloqueio econômico, comercial e financeiro imposto pelos Estados Unidos à ilha. Foram 130 votos favoráveis e apenas 17 contrários. O resultado representa uma contundente vitória diplomática de Cuba e demonstra que a ampla maioria da comunidade internacional continua rejeitando uma política que, há décadas, penaliza milhões de pessoas.

O Brasil reiterou seu apoio à resolução e condenou os efeitos dessas medidas. A posição brasileira reafirma o compromisso com a soberania dos povos, a independência nacional e a solução diplomática dos conflitos. Em um cenário internacional marcado pela polarização, pela ascensão de forças extremistas de direita e pela multiplicação de pressões e chantagens políticas, o resultado da votação ganha significado ainda maior.

Não se trata apenas de uma disputa entre Washington e Havana. Está em jogo a legitimidade de utilizar o sofrimento de uma população como instrumento de pressão para impor mudanças políticas em outro país.

O novo relatório apresentado por Cuba à ONU dimensiona a gravidade dessa situação. Segundo o documento, entre março de 2025 e fevereiro de 2026, os prejuízos provocados pelo bloqueio chegaram a US$ 8,083 bilhões, um aumento de 7% em relação ao período anterior. Os danos acumulados, segundo Havana, alcançam US$ 178,7 bilhões.

As cifras impressionam, mas são as consequências humanas que tornam a política especialmente inaceitável. O chanceler cubano, Bruno Rodríguez, sintetizou a questão: “O bloqueio não castiga um governo, castiga a vida cotidiana de um povo”.

A escassez de combustíveis contribui para prolongados apagões, compromete o abastecimento de água, paralisa transportes e prejudica hospitais e outros serviços essenciais. Segundo Rodríguez, um único navio com 100 mil toneladas de petróleo bruto seria suficiente para reduzir os apagões durante aproximadamente duas semanas.

Quando falta energia em um hospital, não estamos diante de um problema meramente econômico. Estamos falando de cirurgias comprometidas, equipamentos que deixam de funcionar e pacientes submetidos a riscos adicionais. O chanceler relatou situações em que procedimentos cirúrgicos complexos precisaram ser concluídos com lâmpadas recarregáveis ou até com a iluminação de telefones celulares.

Outro dado alarmante apresentado por Cuba é o aumento da mortalidade infantil: de 4 mortes por mil nascidos vivos, em 2018, para 9,9 em 2025. “São crianças, não são números”, afirmou Rodríguez. A frase deveria ser suficiente para recolocar a discussão no terreno da responsabilidade humana.

As chamadas sanções secundárias agravam o quadro. Ao ameaçar empresas, bancos e companhias de navegação que mantêm relações comerciais com Cuba, os Estados Unidos ampliam o alcance do bloqueio e dificultam até mesmo operações que envolvem bens essenciais. Segundo o relatório cubano, mais de sete mil contêineres não conseguiram chegar à ilha devido às ameaças contra empresas de transporte marítimo. Entre as cargas retidas estariam alimentos, medicamentos e dispositivos médicos, inclusive produtos contratados por empresas privadas cubanas.

Impedir ou dificultar o acesso de uma população a recursos indispensáveis à sobrevivência não é uma medida política neutra. É uma forma de pressão cujos custos recaem sobre pessoas que não decidem os rumos de seus governos.

O bloqueio precisa ser examinado não apenas por seus efeitos econômicos, mas também à luz do respeito à liberdade de pensamento, do direito internacional e da proteção à vida. Quando uma política externa compromete o acesso à energia, à água, à alimentação e à saúde, suas consequências ultrapassam os limites de uma divergência diplomática e assumem a dimensão de uma absurda punição coletiva.

Isso não significa ignorar os problemas internos de Cuba ou impedir críticas ao seu governo. Todo governo deve ser submetido à avaliação pública, e nenhuma sociedade está imune a erros, contradições ou decisões questionáveis. Mas criticar um governo é diferente de submeter toda a sua população a medidas que agravam a precariedade e ameaçam direitos fundamentais. Os direitos humanos não podem ser seletivos, tampouco subordinados a conveniências geopolíticas.

As recentes ameaças de Washington revelam que os Estados Unidos não abandonaram suas pretensões hegemônicas sobre Cuba. A ilha é independente desde 1º de janeiro de 1959, e seu povo afirma estar disposto a defender a soberania nacional. Nenhuma política em relação ao país deveria se apoiar em chantagens, pressões eleitorais ou cálculos conjunturais.

A estratégia de asfixia econômica, desestabilização interna e tentativa de forçar uma mudança de regime tem raízes históricas. A invasão da Baía dos Porcos, em 1961, e a Operação Mangusto são exemplos de uma longa confrontação que não conseguiu submeter Cuba. A insistência nesse caminho tampouco oferece perspectivas de solução. Ao contrário, aprofunda o antagonismo e transfere à população o custo de uma disputa geopolítica. A aproximação entre setores mais radicais do exílio cubano e grupos políticos de Washington apenas contribui para prolongar o impasse.

As ameaças de impor tarifas, retirar vistos de funcionários governamentais e suspender recursos de cooperação internacional também evidenciam a disposição de exercer pressão sobre países que contrariem os interesses de Washington. Ainda assim, não impediram que a maioria dos integrantes da ONU reafirmasse seu apoio à resolução cubana.

O resultado demonstra que a comunidade internacional não está disposta, ao menos em sua ampla maioria, a aceitar sem reação medidas que afrontam a soberania dos povos. É uma vitória política importante, embora não represente, por si só, o fim do bloqueio nem garanta que seus efeitos sejam imediatamente reduzidos.

A história mostra que décadas de restrições não alcançaram o objetivo declarado de dobrar Cuba. Em vez de produzir uma solução, alimentaram a desconfiança, aprofundaram as dificuldades econômicas e perpetuaram o confronto. Não há razão para acreditar que a intensificação dessa equivocada política produzirá resultados diferentes.

Havana afirma manter disposição para dialogar com os Estados Unidos, sem precondições, com base na igualdade soberana e no respeito mútuo. Essa possibilidade deve ser estimulada. A defesa da independência cubana não exige concordância com todas as decisões de seu governo, mas o reconhecimento de que cabe ao povo cubano decidir seu próprio destino, sem coerção externa.

A firmeza manifestada por Cuba diante das ameaças deve ser compreendida nesse contexto. O país declara-se disposto a defender sua soberania, independência e integridade territorial. A comunidade internacional, por sua vez, precisa trabalhar para evitar uma escalada cujas consequências seriam imprevisíveis, privilegiando a diplomacia em lugar da confrontação.

“Cuba não é uma ameaça, o bloqueio sim”, afirma o chanceler cubano. Pode-se concordar ou discordar de Havana em inúmeras questões. O que deveria unir todos os comprometidos com a dignidade humana é a compreensão de que nenhum conflito político justifica expor uma população inteira ao risco de adoecer ou morrer por falta de alimentos, medicamentos ou atendimento médico.

O fim do bloqueio não significa alinhamento ideológico com o governo cubano. Significa defender o direito dos povos de viver em paz, preservar sua independência e escolher seus caminhos sem punições coletivas. Significa reconhecer que a diplomacia deve prevalecer sobre a coerção e que a soberania não pode ser um privilégio reservado às nações mais poderosas.

A votação de 28 de outubro é, portanto, mais do que nova vitória diplomática de Cuba. É uma manifestação de solidariedade internacional e um chamado à coerência na defesa dos direitos humanos. Mesmo que Washington insista em sua política de pressão, não poderá apagar o significado de uma maioria que voltou a se posicionar contra o bloqueio.

Quando a questão é o respeito à soberania, à independência e à liberdade de pensamento, a solidariedade ultrapassa fronteiras e divergências ideológicas. Defender Cuba, nesse sentido, é defender um princípio universal: nenhum povo deve ser submetido à vontade de outro país. Somos todos responsáveis por sustentar esse princípio, porque a dignidade humana não admite fronteiras nem exceções.

Ricardo Viveiros, jornalista, professor e escritor, é doutor em Educação, Arte e História da Cultura (Universidade Presbiteriana Mackenzie); membro da Academia Paulista de Educação (APE) e da Comissão de Liberdade de Imprensa e Direitos Humanos da Associação Brasileira de Imprensa (ABI); autor, entre outros livros, de A vila que descobriu o Brasil, Memórias de um tempo obscuro e Um inferno em Mianmar – Os perigos da escravidão moderna. Apresenta, aos domingos às 7 horas (da manhã), na TV Cultura, o programa “Brasil, mostra a tua cara!”.

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