Racismo científico e o legado da escravidão no Brasil, por Cesar Calejon

Afirmar que o Brasil não é um país extremamente racista traduz, invariavelmente, duas coisas: ignorância ou mau-caratismo

Foto: Reprodução/Internet)

Racismo científico e o legado da escravidão no atual paradigma sociopolítico do Brasil

Por Cesar Calejon

Em pleno ano de 2019, com os legados coloniais e imperiais que constituíram a formação da nossa República bem explanados em muitos livros, séries e documentários, afirmar que o Brasil não é um país extremamente racista traduz, invariavelmente, duas coisas: ignorância ou mau-caratismo.

Contudo, a questão neste caso é que, uma vez estabelecidas, certas narrativas, principalmente as que são elaborados na Europa e nos Estados Unidos, podem perdurar por muitas décadas até perderem a influência que exercem sobre a forma como populações inteiras e grupos políticos brasileiros organizam as suas ideias e os seus discursos.

Após quase quatrocentos anos de escravidão no Ocidente e pouco menos de cem anos depois de a Lei Áurea (1888) ser assinada no Brasil, mais precisamente, na década de 1980, duas tendências que ficaram conhecidas como “reducionismo biológico” e “determinismo genético” ganharam muita força entre as comunidades científicas estadunidense, britânica e europeia, em geral. O intuito destas linhas de investigação era tentar explicar o ser humano utilizando parâmetros exclusivamente fisiológicos (reações químicas e físicas que acontecem no organismo humano) e, supostamente, predeterminados, sem levar em conta toda a complexidade das relações humanas e a importância dos ambientes culturais e sociais nos quais os indivíduos se desenvolvem.

Neste contexto, dois livros se destacaram, porque as suas teses transcenderam os muros das universidades e ganharam ressonância na cultura popular da época: The Selfish Gene (O Gene Egoísta), do biólogo britânico Richard Dawkins, e Sociobiology (Sociobiologia), do entomologista estadunidense Edward Osborne Wilson.

Essencialmente, o livro O Gene Egoísta sugere que o ser humano é meramente o produto dos seus genes. Portanto, de acordo com este raciocínio, tudo o que fizermos durante a vida (e a forma como nos constituímos como indivíduos) está predeterminado no nosso material genético. O livro Sociobiologia foi um passo à frente no pré-determinismo. Nele, Wilson afirma que o comportamento dos seres humanos é determinado por aspectos biológicos e universais e que incluem a agressão, a dominação dos homens sobre as mulheres, o racismo e a homofobia, por exemplo, entre tantos outros padrões de comportamento que estão programados de forma irremediável nos nossos genes e não podem ser evitados.

Para refutar estes conceitos (reducionismo biológico e determinismo genético), o neurocientista britânico Steven Rose, em parceria com o geneticista estadunidense Richard Lewontin e o psicólogo e também estadunidense Leon Kamin, escreveu um livro intitulado Not In Our Genes (Não nos nossos genes). “Uma das maiores polêmicas dos Estados Unidos e da Inglaterra durante as décadas de 1970 e 1980 foi sobre o que eu chamo de Racismo Científico, que era, basicamente, a afirmação de que os brancos são dominantes sobre os negros, porque os negros possuem uma inteligência geneticamente inferior aos brancos”, explica Rose.

Para sustentar tais falácias, testes de Quociente de Inteligência (QI) foram desenvolvidos (e continuam sendo utilizados) para determinar o “nível de inteligência” de uma pessoa, partindo do pressuposto que a inteligência é um valor genético, absoluto, predeterminado para todos os seres humanos e pode, portanto, ser medido em determinada escala, o que cria sujeitos fortes ou fracos no quesito inteligência. “Para começar, a proposição de que você pode reduzir a definição do que é a inteligência para medir em uma escala certamente não faz o menor sentido. Contudo, estes livros venderam muitas cópias, se tornaram muito conhecidos na cultura popular, e a tese do determinismo genético, particularmente a suposição de que existe uma diferença genética considerando a inteligência de brancos e negros, tornou-se parte do discurso da extrema-direita nos Estados Unidos, na Inglaterra e até na França, onde estas falsas concepções foram usadas por um movimento que ficou conhecido como Nouvelle Droite (A Nova Direita), por exemplo. Eles insistiam que a sociobiologia diz que o egoísmo e o racismo estão nos nossos genes e que estas condições formam, inevitavelmente, parte do que é ser humano”, pondera o neurocientista.

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“Segundo, o raciocínio por trás do determinismo genético para estabelecer um valor de QI também caracteriza um entendimento equivocado tendo em vista as possibilidades da própria genética enquanto disciplina. Felizmente, o mundo evoluiu e a compreensão de como a genética e as neurociências atuam no comportamento humano é muito mais ampla e integral hoje do que era há 25 anos”, complementa Rose.

Infelizmente, o atual presidente brasileiro não acompanhou esta evolução. Exatamente por isso, ainda como então pré-candidato à Presidência da República, Jair Bolsonaro fez ataques de cunho racista, em tom de piada, contra negros durante um discurso no Clube Hebraica, no Rio de Janeiro, em abril de 2017. “Eu fui num quilombo. O afrodescendente mais leve lá pesava sete arrobas. Não fazem nada. Eu acho que nem para procriador ele serve mais”, disse o atual presidente do Brasil.

Este tipo de raciocínio, que ataca negros, gays e mulheres, é percebido como “humor”, de forma natural ou como “brincadeira” por boa parte da população brasileira por conta das associações implícitas que permeiam toda a visão de como o mundo funciona (ou deve funcionar) de acordo com os elitismos históricos, o pré-determinismo genético e o reducionismo biológico, que formam o Racismo Científico.

Além do nefasto legado histórico deixado por séculos de escravidão, esta tendência (reducionista e pré-determinista) de perceber a realidade está relacionada, de certa forma, com a maneira como os povos ocidentais vêm fazendo ciência nos últimos quatrocentos anos.

“Toda a história do desenvolvimento da ciência no Ocidente desde o século XVII vem sendo uma tentativa de reduzir os objetos de estudo. Isso significa reduzir o complexo para o simples. Reduzir o biológico para o químico ou o físico. Este reducionismo é um aspecto-chave da metodologia científica. Nós não podemos realizar experimentos no laboratório sem reduzir as coisas, sem remover o quanto for possível todos os elementos do ambiente externo. Então, como neurocientista, eu treino os meus animais em pequenas caixas para tentar controlar tudo e alterar uma variável por vez, para em seguida perguntar questões muito básicas sobre como reage o comportamento ou a química (presente no organismo) do animal”, explica o neurocientista.

Contudo, a vida real não acontece desta forma. A vida real envolve o desenvolvimento, a mudança, uma interação constante com o seu meio, seja você um rato ou um ser humano. “O problema é que esta metodologia reducionista representa quase o único jeito que nós temos de perguntar e responder as questões na ciência”, prossegue Rose. “Esta acabou se tornando uma forma predominante de olhar também para as questões supercomplexas da psicologia, por exemplo. Muitos livros foram escritos por psicólogos, filósofos e neurocientistas para tentar reduzir a complexidade da experiência humana às propriedades das células do organismo. Reduzir a consciência, reduzir tudo o que acontece dentro da mente às propriedades dos neurônios contidos no cérebro. Então, surgem livros com nomes como The Ethical Brain (O Cérebro Ético), The Social Brain (O Cérebro Social), The Synaptic Self (O ser sináptico), The Tell-Tell Brain (O Cérebro Tell-Tell), como se a pessoa fosse reduzida ao cérebro que possui dentro da cabeça”, enfatiza Rose. “E esse reducionismo é um jeito muito poderoso de tentar explicar a condição humana. Eu tenho genes que construíram o meu cérebro de uma forma específica e eu venho me comportando de determinada maneira porque o meu cérebro está constituído deste modo. Este é o argumento da neurociência reducionista e da genética reducionista”, garante Rose.

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Uma abordagem genética mais recente e integral ficou conhecida como a revolução epigenética. “O que a epigenética nos demonstrou, de fato, é que nós precisamos entender o desenvolvimento (da vida) como o resultado de uma interação complexa e dialética entre os genes e o ambiente. E organismos, não apenas os seres humanos, mas até os seres unicelulares, não são meros objetos passivos, mas fatores ativos na formação das suas próprias experiências ou destinos. Até uma simples bactéria, por exemplo. Caso você coloque-a em uma gota d’água e depois adicione um pouco de açúcar na água, ela vai nadar em direção à parte doce da gota. Portanto, ela escolhe um ambiente e evita o outro. Ao escolher o ambiente, ela também o altera e é alterada por ele”, conclui o neurocientista.

Em um nível muito básico, ao escolher um ambiente em detrimento de outro, uma bactéria ajuda a constituir e é constituída pelo novo meio que se forma a partir desta escolha. Como disse Steven Rose, esta dinâmica se aplica para bactérias, ratos ou humanos. Apesar disso, as bactérias não têm discernimento para entender como são nocivos os reducionismos, determinismos e elitismos. Os humanos têm.

 

Cesar Calejon é jornalista com especialização em Relações Internacionais pela Fundação Getúlio Vargas e escritor, autor do livro A Ascensão do Bolsonarismo no Brasil do Século XXI

 

1 comentário

  1. Esse sujeito Cesar Calejon, sem dúvida, é o dono da verdade, porque quem discorda dele é um ignorante no assunto ou mau-caráter. Desculpe deus Cesar, mas eu discordo de vossa divindade. Que Deus me proteja.

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