Repertório, por Mariana Nassif

Quem não prefere deitar numa maca com cobertinha enquanto recebe toques sutis que curam ao esforço e compromisso (auto) que a aquisição de repertório pressupõe?

Repertório, por Mariana Nassif

Esses dias estávamos na praia, namorado, os pais dele, a filha dele, eu. Uma moça que conhecemos se aproxima, cumprimenta e fala pra menininha: “ah, que delícia de passeio na praia com sua segunda mamãe…”. Pausa. Respiro profundamente, tentando encontrar um jeito de não cortar a buena onda da amiguete sem deixar passar. “Ah, você errou! A gente é amiga, né, pequena?” – “É”. Pronto, vida que segue.

Chego em casa e me coloco a pensar em todo o cansaço emocional do último ano, intensamente embasado justamente na questão dos papéis e me deparo com a premissa do repertório. Não canso de pensar que enorme parte dos problemas do mundo se resolveriam com aumento de repertório – muito mais eficaz que barra access, tethahealing e bençãos inapropriadamente culturais, vai por mim. Acontece que adquirir repertório leva tempo e trabalho, normalmente trabalho de transformação interna e daí a gente tem que passar por algum perrengue antes de solucionar o sofrimento do perrengue anterior e, claro, quem não prefere deitar numa maca com cobertinha enquanto recebe toques sutis que curam ao esforço e compromisso (auto) que a aquisição de repertório pressupõe?

Será que só cabe à namorada do pai o papel de segunda mãe? Será que essa é (ainda) uma forma aparentemente carinhosa (ou não: a possibilidade desse papel existir tira muita gente do eixo por aí e no beco escuro explode a violência) de seguir aprisionando mulheres em competições extremamente nocivas e descabidas, portanto machistas? Não quero ser crítica exclusivamente à querida que chegou com a frase, não é esse o ponto. A crítica é à norma, ao que existe de mais comum que é a reprodução de falas e vistas de muito antigamente. Não quero entrar no mérito pessoal mas explorar que sair do modelo retrógrado exige estudo, compromisso, movimento. Isso é um fato.

Existem diversas maneiras de adquirir repertório. Pessoalmente, recorro à terapia e ao Candomblé. A Umbanda também é uma fonte de onde já bebi muita água, quase 20 anos de imersão e encantamento, e pra onde desejo voltar, em breve. Eita povo arretado, esse de Aruanda, e a saudade mata a gente, morena. Faculdades, amigos, esportes, fé, religião, livros, filmes, experiências com cogumelos… não sei, não quero saber como cada um vai de encontro a esse desenvolvimento, mas sugiro com veemência que o façam, que busquem expandir. Sobre questões de maternidade e família, acompanho a Lua e o Peu, no Instagram e no podcast, e aprendo, aprendo, aprendo, pra lidar com a filha que me cabe e com a família que desestruturo e realinhavo desde meus dois nascimentos, em 1979 e 2018 (quem é sabe que é).

Não é possível que uma mulher que namora o pai não possa ser outra coisa que não a segunda mãe. Por aqui, estabelecemos que somos amigas, que é uma categoria de pessoas queridas, próximas, que atuam como rede de carinho, companhia, cuidados e outras coisas e que, especialmente, é uma categoria conhecida da criança, muito simples de compreender para (quase) todos os envolvidos. Esse quase, que quase sempre gera problemas – como a moça da praia que veio ser uma querida e poderia causar tormentas exaustivas – são as pessoas que só enxergam um ou dois exemplos de possibilidades, quase sempre olhando pra trás, quase sempre com um discurso quase coerente e quase com carinho, normalmente numa boa intenção. Mas foi quase, e quase é quase nada. Uma boa solução é ampliar repertório e, não sei se já falei aqui em cima durante esse texto todo, ampliar repertório dá um baita de uma trabalheira, mas para as premissas afroteológicas que venho aprendendo (e que você encontra também online nas figuras públicas dos Babalorixás Sidnei Nogueira e Rodney William), é a única possibilidade viável.

Desenvolver a cabeça. Orí O Orí Níkan – é Orí, somente Orí. Nenhum Orixá pode abençoar sem o consentimento do Orí.

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