Repressão como Virtude, por Jean Pierre Chauvin

Suspeito que as declarações de Wagner Moura, anteontem, logo após a exibição do aplaudidíssimo Marighella em Berlim, terão incomodado uma porcentagem de nossos conterrâneos

Foto O Globo

Repressão como Virtude

por Jean Pierre Chauvin

Suspeito que as declarações de Wagner Moura, anteontem, logo após a exibição do aplaudidíssimo Marighella em Berlim, terão incomodado uma porcentagem de nossos conterrâneos, que fingem confundir “ordem” com anticomunismo, antipetismo ou – é de pasmar – “lutra contra a corrupção”. De quantas goiabas, laranjas e sigilos de Estado se constitui essa falácia?

Mas eu comentava o desconforto provocado por Moura, entre os “homens de bem”. Isso também acontece porque, no Brasil, ainda se acredita que “ideologia” e “arte” não devem se “misturar”, sob pena de a política “desvirtuar” o caráter de entretenimento de um filme, de um romance, de uma peça de teatro, ou até mesmo de uma exposição em museu. Mas não há política (ou falta dela) em cenas de mortes arbitrárias? Quem protege quem, no país? Basta avaliar as “propostas” em andamento. A reforma da previdência será o maior assalto aos cidadãos, justamente os que mais colaboraram com o Estado brasileiro. Se isso lhe parece justo, o seu problema não é ignorância; é mau-caratismo, puro e simples.

De volta ao que disse Wagner Moura.

Dentre as evidências apresentadas pelo diretor do filme, há duas muito consistentes: 1. o assassinato da vereadora Marielle Franco aconteceu cinquenta anos após a morte de Carlos Marighella (ambos dentro de carros); 2. Em nosso país, os agentes da segurança pública não protegem o cidadão, mas o Estado.

A senhora, o senhor internauta bote reparo no que ele afirmou. Para além das ideologias (política, religião, família, patriotismo, ordem etc) em que você diz acreditar, reflita bem por que declarações como essa deveriam provocar reações de ódio (contra o que a “esquerda” representa). Como negar evidências? Ou “evidência” só vale para o lado de lá?

Pior, como alguém que aceita notícias falsas, circuladas massivamente – financiadas por verbas de empresários (homens particulares) e políticos (homens públicos) – supõe ter maior credibilidade e ética para condenar um cineasta cujo filme foi festejado e levado tão a sério no exterior?

Embora costume-se achar que portar livros seja sinal de pedantismo ou vagabundagem, não posso me furtar a fazê-lo. Os senhores, que são homens instruídos e ordeiros, perdoarão este gesto. Se não tiverem capacidade de fazê-lo, apelo para o seu elevado poder de complacência, já que dizem defender a democracia.

Afinal, aceitam muito bem as diferenças, haja vista a proporção de alvos, quase sempre negros, xingados, se não mortos por “gente de bem”, no país “abençoado por Deus”. Mas, vamos à indicação. Porventura o leitor, a leitora, terão lido Aparelhos Ideológicos do Estado, de Louis Althusser? (1918-1990).*

Não? Ah, bem. Isso era esperado. Tive um excelente professor que dizia que o objeto livro, neste país, é o melhor dispositivo antifurtos que existe. Ele supunha que bastava deixar uma pilha deles no banco do passageiro para evitar o furto do veículo.

A anedota pode parecer boba, mas cumpre exatamente o papel que se espera do gênero anedótico. Não é para fazer rir (o grau de humor varia muito de pessoa para pessoa); é para estimular a leitura ou, pelo menos, fazer pensar.

“Pensar”? O que será isso, num país de crédulos (e mal-intencionados) dominado(s) pelas redes sociais e grupos de mensagens?

Perdoem-me. Sou um tanto digressivo. Em seu livro, o pensador argelino sustentava a seguinte tese:

O aparelho (repressivo) do Estado funciona predominantemente através da repressão (inclusive a física) e secundariamente através da ideologia. (Não existe aparelho unicamente repressivo). Exemplos: o Exército e a Polícia funcionam também através de ideologia, tanto para garantir sua própria coesão e reprodução, como para divulgar os ‘valores’ por eles propostos”.**

A senhora internauta, o senhor internauta, se considera “gente de bem”? Consegue perceber do que Wagner Moura estava a argumentar, em Berlim? Como se pode elogiar um país que, em 2019 d.C., converte índio em cristão e discute “SE”, repito: “SE” preconceito, homofobia, racismo, machismo, sexismo, assédio moral, censura, teocracia são questões graves, a entrar ou fugir ao escopo do que diz a lei? Que lei? Para quem? Alguém acreditou, mesmo, que a lei fosse “para todos”?

Amarildo, Marielle e Pedro estão mortos. Decerto, não foram poupados nem pela jurisprudência, nem por anjos, nem pelos homens. Por que motivo foram alvejados por balas, mesmo?

Quanto a mim, que, em geral confio mais nos livros que em pessoas, abrirei imediatamente a biografia sobre Carlos Marighella. Na terra do vale-tudo cada um lê a Bíblia que melhor lhe convier, não é mesmo?

[São Paulo, 16 de fevereiro de 2019]

*A julgar pelos recentes anacronismos cometidos por colegas da universidade e alunos que julgam saber mais que seus mestres, achei prudente informar a data de nascimento e morte do filósofo.

**Louis Althusser. Aparelhos Ideológicos do Estado. 6a ed. Trad. Walter José Evangelista e Maria Laura Viveiros de Castro. Rio de Janeiro: Graal, 1985, p. 70.

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