Os resultados do terceiro trimestre de 2025 e os desafios estratégicos da Petrobras
por Mahatma Ramos dos Santos[1]
Ao divulgar os seus resultados financeiros e operacionais, na última sexta-feira (7/11), a Petrobras revelou que se mantém diante de grandes desafios estratégicos: distribuir equitativamente o valor gerado entre todos seus grupos de interesse – Estado, agentes privados e o interesse público; reverter a trajetória de distribuição de megadividendos; e elevar de forma consistente os investimentos, inclusive em novas rotas tecnológicas e descarbonização.
Nos últimos anos a Petrobras foi transformada em uma máquina de remuneração de acionistas no curto prazo, estratégia que precisa ser revertida e acrescida da valorização de sua força de trabalho. Entre 2018 (1T18) e o 2025 (3T25), a estatal distribuiu R$ 519,5 bilhões em dividendos, valor superior ao seu valor de mercado atual de R$ 437,9 bilhões[2] e equivalente a 83,0% de todo seu lucro acumulado no período (R$ 625,2 bilhões). Os investimentos, por sua vez, totalizaram R$ 458,7 bilhões, o equivalente a 73,3% do resultado gerado, mas ainda inferior em 11,7% aos dividendos pagos no período.
Esses são elementos que reforçam que o público-alvo da companhia segue sendo os acionistas e seus interesses de curto prazo, inclusive da União, acionista majoritário e que segue orientado por políticas de austeridade fiscal. A Petrobras dos dias atuais não pode, por exemplo, manter um percentual de apenas 1,6% dos seus investimentos em gás e energia de baixo carbono, como observado nos 3T25.
É fato que houve mudanças. Entre 2018 e 2022, a companhia ficou marcada por uma redução sistemática dos investimentos, venda de ativos estratégicos e pagamento de megadividendos. A partir de 2023, a estatal começou a incrementar seus investimentos, que se aceleraram a partir do segundo semestre de 2024, e reduziu o volume de dividendos distribuídos, mas que ainda permanecem acima dos patamares históricos da companhia anteriores ao golpe de 2016.
Na atual gestão, entre 2T24 e 3T25, a Petrobras investiu R$ 154,6 bilhões, equivalente a 143,9% do seu lucro líquido no período, recuperando sua capacidade de investir e mantendo se forte desempenho operacional. No entanto, por outro lado, remunerou em R$ 94,9 bilhões seus acionistas, valor equivalente a 88,3% do resultado líquido apurado (R$ 107,4 bilhão).
Voltando aos resultados do terceiro 3T25: a Petrobras registrou lucro líquido de R$ 32,7 bilhões e distribuiu R$ 12,1 bilhões a seus acionistas. O terceiro resultado trimestral positivo consecutivo não só reverte o prejuízo no quarto trimestre de 2024 (R$17,0 bilhões) como é resultado da expansão dos investimentos operacionais, ainda concentrados na exploração e produção (E&P), que viabilizaram um aumento de 8,4% na produção de óleo e gás e a entrada em operação de 36 novos produtores nos 9M25, em especial nas bacias de Santos e Campos.
Nos primeiros nove meses de 2025 (9M25), a companhia acumulou resultado positivo de R$ 94,5 bilhões, valor 76,3% superior ao registrado no mesmo período do ano anterior (R$ 53,6 bilhões), e ampliou em 28,9% seus investimentos. Apenas em 2025, a companhia já remunerou em R$ 73,0 bilhões seus acionistas, valor 27,2% superior ao observado nos 9M24 (R$57,3 bilhões).
O resultado positivo no 9M25 mesmo em um contexto adverso de queda de 14,4% no preço médio do brent, quando comparado ao 9M24, foi fruto, principalmente, do ponto de vista operacional, da expansão de 8,4% da capacidade produtiva de óleo e gás e manutenção de um elevado fator de utilização do parque de refino da estatal, equivalente a 94%. Foram esses indicadores que permitiram um bom desempenho comercial, com elevação de 1,8% do volume de vendas de derivados no mercado interno e manutenção das receitas de vendas, que alcançou R$ 370 bilhões nos 9M25, apesar da queda de 0,5% nos preços médios do derivados.
Além disso, o resultado positivo com as variações cambiais e monetárias líquidas de R$ 35,9 bilhões nos 9M25, ante o negativo de R$ 19,2 bilhões nos 9M24, contribuiu para um resultado financeiro positivo. A redução das despesas operacionais em 0,7% nessa comparação e associada à redução de 5,6% com gasto de pessoal e de 5,8% com os custos dos produtos vendidos (CPV) também pesaram positivamente para os números finais da empresa no 3T25.
Em síntese, a trajetória recente de produção e a distribuição da riqueza gerada pela Petrobras ilustram a resiliência operacional e capacidade de geração de caixa da estatal, mas também jogam luz sobre a presente disputa entre os interesses de curto prazo de seus acionistas e as necessidades de longo prazo do setor energético nacional. A divulgação do novo plano de negócios da companhia, prevista para o fim de novembro, deve jogar luz sobre possíveis novos caminhos e respostas a conjuntura desafiadora.
[1] Diretor Técnico do Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (INEEP). Membro do Conselho de Desenvolvimento Econômico Social e Sustentável da Presidência da República (CDESS). Doutorando em Sociologia no Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (PPGSA-UFRJ) e pesquisador do núcleo de pesquisa Desenvolvimento, Trabalho e Ambiente (DTA-UFRJ).
[2] Informação do portal Valor Empresas 360, disponível em: https://valor.globo.com/empresas/valor-empresas-360/petrobras/ Acessado em: 12/08/2025.
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