Reza fina e amor, mandinga pra lidar com Saci, por Mariana Nassif

"Saci, aqui nessa terra, a gente acolhe com reza fina e amor, amor e amor, fia, disso ocê num pode desanuviar"

Reza fina e amor, mandinga pra lidar com Saci, por Mariana Nassif

Uma amiga comprou recentemente uma terra mundialmente conhecida pela presença de Saci. Chegando lá, meio que por educação (que temos), sondou a vizinhança, pra ter certeza antes de espreitar raiz, fazer casa e moradia, porque era ali, naquele solo forte e que sorria onde ela queria morar – não só ela queria morar mas, especialmente, ela queria viver ali, dançar ali, conhecer aquele lugar e botar sua saia pra rodar naquele terreno, em segurança.

Mas mal sabia a amiga que Saci era coisa difícil de lidar. Ainda mais em lugar de criador, que aquela serra toda era famosa de verdade por esse fato – ali tinha até fazenda de sacis, veja só! Era praticamente impossível ignorar a presença do ser que andava por aí, meio desequilibrado por estar sempre numa perna só, pitando seu cachimbinho de madeira e iniciando foco de vendaval por aquele lugar. A educação da amiga fez convidar pra almoço, chá, café, e olha que com bolo de fubá. Mas de nada adiantou: foi xícara espatifando pela janela, panela de feijão queimando no fogão e sal no lugar de açúcar bem na hora da cobertura adocicada do bolinho. Engrenagens emaranhadas pelos fios dourados do destino, que naquele momento emperravam ao primeiro sinal de encontro.

Mesmo que poucos, eles ocorriam – e sempre, sem dúvida alguma, por um excelente motivo, e o motivo era o amor.

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Sei eu que era um tal de Saci roubar roupa do varal, Saci intrigar bicho-mata-e-planta e colocar biriba no lugar onde minha amiga ia passar. E minha amiga, que já esboçava sinais de extremo desgaste e soltava fumaça em S.O.S. pra voltar pra terra os caboclos que deram conta de conter apronto do passado, caiu de cama, adoecida nas partes do ventre, que é de onde pulsa o coração de mãe Oxum. Renasça, olha a chance.

Não quero parecer tendenciosa ao escrever essa história, porque o relato é constante e mutante, mas é também folclórico o encontro que ocorreu entre minha amiga e o amor, bem naquela terra, inclusive naqueles arredores todos – magia pouca é bobagem, mas de cabra a cachoeira, garrafa de vinho e sono sem ter hora pra acordar, tem de tanto e tudo que ela mais gosta por lá, até ervas fresquinhas prontas pra fazer um chá. Minha amiga ama tanto o que tem raiz por ali que olha, barulho algum pode atrapalhar. “Raiz às vezes não tem razão de ser, segue, filha, a caminhar”. Aquele chão – que inclusive atiça uma mistura de água e terra necessária pra surgir e aparecer, afinal é da lama de Nanã que o novo vem.

Não foi muito rápido que ela percebeu que para se desenvolver daquilo tudo precisaria, e ainda precisa, existir em seu próprio espaço e tempo, fazendo dessa tarefa a mais religiosa de seu dia: aquilo que já era tão novo por ali e, justamente por isso, talvez fosse necessário anotar lembretes em tudo quanto é cipó e amarrar com sininho nas extremidades, porque ela sabia que precisava existir e que sim, aquela existência passeava por caminhos dos quais ela já havia se perdido certa vez por acreditar nos mapas de uma raposa aventureira, e, ufa e enfim, então, passou a resgatar: “religioso me religa, e onde religo pulsa meu lar.”

Colocou novas cores nas palavras, ajudou a regar a mata com tanta água que jorrou e esticou as pernas, pronta pra retomar o caminhar, esse que só deseja estar perto dele, daquele solo forte e que sorri, cultivando sementes e aprendendo a transformar com o fogo, labaredas a dançar.

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Queimou o passado e ainda apaga as brasas com pingo de lágrima.

Ferveu água, reuniu pedaços de maçã e um fio de mel numa bela xicrinha de cerâmica com a borda lascada e verteu a doçura de construir um sonho ou dois, mesmo que com o sono ainda um tanto atrapalhado e a cabeça assustada com a barulheira que faz lá fora mas, agora, já sabendo do silêncio que era preciso manter naqueles arredores para que a vida seguisse mais leve, fluindo nas profundezas como um potente mergulho no rio – e aquele tempo, ela sabia, tinha data pra chegar. Preceitos findam, enfim.

Acendeu uma vela, colocou café perto do toco e um fio pra nêga foi fiar. “Saci, aqui nessa terra, a gente acolhe com reza fina e amor, amor e amor, fia, disso ocê num pode desanuviar”, foi o que ela disse agachada na pedra e Saravá, minha amiga, Saravá!

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