Saga do povo brasileiro, por Sergio Xavier Ferolla

Antes do descobrimento, boatos e informações revelavam que piratas e aventureiros, circulando pelo litoral, aqui deixaram náufragos e desertores que sobreviveram se integrando aos silvícolas.

Saga do povo brasileiro

por Sergio Xavier Ferolla

Findo o mês de abril, quando seria justo comemorar quinhentos e vinte e um anos da chegada de Cabral, nuvens negras na política ofuscaram os entusiasmos, ao serem registrados quinhentos mil óbitos de vítimas da pandemia e portadores de comorbidades, não atendidos e ou maltratados na rede pública dos serviços de saúde. Nesse ambiente, seriam mais adequadas manifestações de solidariedade à sofrida população, cuja maioria integra uma massa humana em busca de trabalho e meios para sustentar familiares, prestigiando suas histórias e tradições.

Antes do descobrimento, boatos e informações revelavam que piratas e aventureiros, circulando pelo litoral, aqui deixaram náufragos e desertores que sobreviveram se integrando aos silvícolas. Da esquadra de Cabral, também foram deixados dois degredados, entregues à própria sorte e testemunhando duas décadas de abandono e estímulo à ilegal exploração da flora e da fauna. O pau-brasil, designado como “pau-de-tinta” pelos europeus, representava a mais valiosa mercadoria.

Buscando efetivar uma ocupação, o rei D. João III criou doze capitanias e as concedeu a membros da pequena nobreza. Para explorá-las, os donatários trouxeram condenados para, no trabalho, cumprirem suas penas. A eles se somaram degredados, em geral exilados por razões religiosas e tidos como infiéis pela inquisição. A maioria era composta por imigrantes que buscavam Portugal, para se livrarem das perseguições no Império Otomano. Aos devotos do judaísmo, que se tornavam “cristãos novos” ao aceitarem um novo batismo, eram apostos “sobrenomes” com palavras da fauna, flora ou ferramentas, dando origem às famílias Pinheiro, Coelho, Oliveira e outros.

Nas propriedades, todos acabaram se integrando aos silvícolas, o que resultou em diversificada miscigenação. No entanto, seguidas desordens e invasões acabaram por inviabilizar tal modelo de colonização, levando o imperador a nomear um “governador geral”.

Com autoridade maior, Tomé de Souza organizou a administração, coibiu a escravidão dos índios e inspecionou parte do território. Nas visitas encontrou muitos residentes constituindo famílias com indígenas e cujo apoio poderia facilitar o diálogo com tribos em litígio e ou costumes exóticos.

Já na Bahia, de adequada estrutura e proximidade ao continente europeu, valeu-se do português Diogo Álvares, o Caramuru, casado com Paraguaçu, filha do cacique da tribo tupinambá, predominante na região.

Ao Sul, acompanhado pelo Jesuíta Manuel da Nóbrega, passando pelo Rio de Janeiro chegou a São Vicente. Muitos viviam no local há mais de vinte anos, como João Ramalho e o Bacharel da Cananéia, ali instalados desde 1509. Após determinações na Baixada, fez de João Ramalho “capitão” e, em 3 de abril de 1553, transformou o povoado, nos terrenos do patriarca branco, em Vila de Santo André. Casado com Bartira, filha do “principal” Tibiriçá, vivia há mais de quarenta anos no planalto, após o topo da serra do Mar, contando com milhares de tupiniquins em armas e filhos, “genros” ou netos aliados a bravios mamelucos. Tal realidade levou o padre Nóbrega a permanecer na região de Piratininga, a qual percorreu em companhia de André, um dos filhos do “guarda mor”.

Em janeiro de 1554, apoiado pelo Jesuíta José de Anchieta, transferiu do litoral para o planalto um colégio para jovens indígenas. Numa cerimônia religiosa, batizou a nova casa e o novo Colégio com o nome de São Paulo, cuja conversão ao Cristianismo se comemorava naquele dia 25 de janeiro. Dois governadores sucederam Tomé de Souza, cabendo a Mem de Sá, o terceiro no poder, a difícil tarefa de corrigir mal feitos do antecessor, como escravidão de silvícolas e, principalmente, expulsar os franceses que dominavam o Rio de Janeiro.

Mas conflitos se sucediam devido ocupações de terras indígenas e ameaças de canibalismo aterrorizando colonos. Como agravante, questões sucessórias no reino e a derrota para a Espanha, incentivavam inimigos europeus interessados na região produtora de açúcar, da próspera capitania de Pernambuco.

Em 1637, na capitania conquistada pelos holandeses, assumiu o poder Maurício de Nassau. Devotos do judaísmo para lá imigraram em busca da liberdade religiosa coibida na Europa. Com o apoio de boa parte dos “cristãos novos”, por sete anos participaram nos trabalhos da administração e construíram, em Recife, a primeira sinagoga da América. Vencidos na Batalha dos Guararapes, em 1654, os holandeses se agruparam para a retirada, levando alguns dos “cristãos novos”. Os brasileiros, desembarcados de navios detidos no Caribe, acabaram deixados no local da nascente Nova Iorque, onde edificaram a primeira sinagoga dos Estados Unidos.

Restabelecida a tranquilidade territorial, evoluiu a colonização e muitos mamelucos e colonos se destacaram na administração e na cultura. Nos caminhos do cristianismo, também galgaram posições de destaque, sendo um exemplo notável a pessoa de Joaquim Arcoverde de Albuquerque Cavalcanti, natural de Pernambuco, descendente da índia Maria do Espirito Santo Arcoverde, casada com o português Jerônimo de Albuquerque. Muito estudioso e culto, evoluiu na carreira apostólica, que culminou ao ser nomeado Cardeal em 1905, o primeiro da Igreja Católica na América Latina.

Tenente Brigadeiro Sergio Xavier Ferolla – Ministro Ap. do Superior Tribunal Militar

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