A ilusão da segurança: o perigoso modelo Bukele
por Carmen Navas Reyes
A gestão do presidente de El Salvador, Nayib Bukele, deu origem à formulação de uma proposta que poderíamos denominar de “Modelo Bukele”, no qual, aparentemente, conseguiu-se seduzir politicamente amplas maiorias da nossa região a ponto de levá-las a preferir um autoritarismo extremo em troca de uma suposta segurança cidadã. Graças a uma propaganda eficaz, esse modelo pode se consolidar como um fenômeno regional em uma “Nossa América” marcada pela violência estrutural, onde a promessa de ordem imediata se tornou uma moeda política de alta demanda, fazendo com que setores transversais da sociedade cedam diante da retórica do punho de ferro. Este fenômeno não é novo; busca a institucionalização de uma segurança punitiva que utiliza o medo para desmantelar a possibilidade de propostas políticas da esquerda.
O paradoxo da popularidade de Bukele
A aparente grande popularidade do governo (regime) de Nayib Bukele funciona como uma sofisticada cortina de fumaça midiática. Sob a máscara da eficácia, esconde-se o desmantelamento deliberado do Estado de Direito e o aprofundamento de uma situação de precariedade social que se tenta invisibilizar. A segurança física, alcançada por meio da suspensão permanente das garantias, é um miragem que sacrifica a justiça social e o devido processo legal em favor de uma hegemonia unipessoal e se transforma em uma espécie de guerra contra os pobres, paradoxalmente endossada por eles.
Em El Salvador, após os governos da Frente Farabundo para a Libertação Nacional (FMLN) entre 2009 e 2019 e em um contexto de crise de segurança originada pela guerra civil e pelas ações das gangues ou maras, a população passou rapidamente do apoio aos governos progressistas a dar carta branca a um autoritarismo de novo tipo em troca de uma sensação de controle estatal. O marketing do governo salvadorenho aperfeiçoou essa transição, mascarando a repressão através da estigmatização de toda crítica como “apoio à criminalidade”. A legitimidade já não emana do cumprimento da lei e o alto apoio popular é capitalizado politicamente para eliminar contrapesos.
De acordo com os dados da pesquisa da CB Consultora Opinión Pública de abril de 2026, Nayib Bukele (El Salvador) lidera a popularidade na região, com 70,1% de imagem positiva (contra 71,8% em março), enquanto Luiz Inácio Lula da Silva (Brasil) tem 48,4% de apoio, e aspira a um histórico quarto mandato em meio a uma forte polarização (49,1% de rejeição), e Gustavo Petro (Colômbia) conta com 38,2% de aprovação, em um cenário eleitoral com um possível segundo governo de tendência progressista liderado por Iván Cepeda, num contexto de aumento da violência no país nas últimas semanas.
Essa aprovação de Bukele foi instrumentalizada para validar ataques à tese da ingovernabilidade da esquerda na região e para forçar mudanças diretas na arquitetura constitucional do país com o objetivo de impedir o surgimento de um novo governo salvadorenho de esquerda ou progressista. Com base nesse apoio popular, foi ratificada a reforma do artigo 248 da Constituição em janeiro de 2025, o que facilitou a reforma de julho de 2025 que possibilitou a reeleição presidencial indefinida de Bukele.
A institucionalização do Estado de Exceção permanente
No governo de Bukele, o medo deixou de ser uma ameaça das gangues para se tornar uma ferramenta de controle social estatal. O Estado de Exceção, prorrogado ininterruptamente ao longo de 2025, deixou de ser uma medida de emergência para se tornar a própria estrutura da vida pública. A justiça foi substituída por uma lógica de guerra interna, na qual a presunção de inocência é coisa do passado, gerando dados assustadores: mais de 90 mil pessoas detidas, cotas diárias de prisões pela polícia, que deve cumprir um mínimo de detenções com base em perfis discriminatórios (uso de tatuagens, racialização, etc.), taxa de encarceramento de 1.650 pessoas por cada 100 mil habitantes (a mais alta do mundo), mais de 470 mortes documentadas de pessoas sob custódia do Estado, por causas relacionadas a tortura, espancamentos, negação de atendimento médico e desaparecimentos forçados, como o caso dos 252 venezuelanos transferidos ilegalmente para a mega-prisão CECOT.
Nesse sentido, as reformas penais de 2025 representam um retrocesso em relação ao sistema de justiça em toda a região; um caso emblemático é a lei que permite julgar menores a partir dos 12 anos como adultos, incluindo a possibilidade de prisão perpétua e a implementação de julgamentos em massa. Da mesma forma, foi instituída uma reserva judicial indevida, ocultando processos sob um véu de opacidade que impossibilita o devido processo legal, causando, portanto, prisões de horror, precariedade nas ruas e o terror deliberado para silenciar qualquer dissidência.
Pobreza e deslocamento sob o governo de Bukele
A narrativa de sucesso do modelo Bukele desmorona ao confrontar a realidade econômica das classes populares. A segurança física não se traduziu em segurança humana; pelo contrário, o modelo impulsionou uma gentrificação autoritária em várias cidades salvadorenhas. O marketing imposto priorizou a estética da ordem e o turismo de luxo em detrimento da subsistência mínima, de acordo com um relatório do Banco Mundial de 2024 que, inclusive, tentou atenuar esses números sob o paradigma da segurança:
– Aumento da pobreza para 9,6% em 2025, evidenciando que o punitivismo não resolve as causas estruturais da desigualdade;
– Crise educacional e abandono estatal com o fechamento de 44 escolas públicas e a evasão escolar de 25 mil alunos, impulsionada pela falta de infraestrutura e pelo assédio da segurança estatal em zonas rurais;
– Despejos forçados e limpeza social de 1.400 comerciantes ambulantes em San Salvador, em nome de megaprojetos turísticos e mineradores.
A criminalização da crítica e de setores da oposição salvadorenha
O governo Bukele identificou as organizações de direitos humanos e as vozes críticas como inimigos internos, utilizando o sistema penal para desarticular a resistência. A perseguição tem sido implacável contra figuras emblemáticas; algumas tiveram que se exilar, enquanto um número significativo foi levado a julgamento: Ruth López (Cristosal), detida sob acusações arbitrárias; Fidel Zavala, porta-voz da Unidade de Defesa dos Direitos Humanos, detido e encarcerado na prisão de Mariona sob alto risco de tortura; Alejandro Henríquez e José Ángel Pérez, criminalizados por suas denúncias; Enrique Anaya, advogado constitucionalista vítima de um desaparecimento forçado temporário ao ser transferido entre centros sem registro oficial.
O caso da Lei de Agentes Estrangeiros, que impõe um imposto de 30% às organizações sociais e concede ao Executivo o poder discricionário de cancelar registros de pessoas jurídicas, constitui outro exemplo de perseguição, estabelecendo que a defesa dos direitos humanos é hoje um ato de resistência heróica em El Salvador.
A experiência salvadorenha indica que, para a direita, a imensa popularidade midiática não leva em conta se a dignidade humana é sistematicamente degradada, desde que as bandeiras sejam a luta pela segurança, a liberdade (nos termos de Javier Milei, na Argentina) e a ordem, sem importar se isso é construído sobre a perseguição à pobreza, a criminalização da infância e a eliminação da dissidência de esquerda ou progressista. Esse modelo agrava a desigualdade ao punir a economia dos mais vulneráveis. A “ordem” de Bukele é uma estrutura excludente que requer uma máquina midiática de censura e propaganda para impedir que o descontentamento se transforme em mobilização. Esse modelo de autoritarismo pop – que sacrifica direitos humanos, políticos, sociais e econômicos fundamentais – representa um perigo iminente para nossos países: as propostas eleitorais que buscam copiar Bukele na Colômbia ou no Brasil, em ano eleitoral, contam com apoios de diversos tipos por parte do chamado Escudo das Américas.
(*) Tradução de Raul Chiliani
Carmen Navas Reyes é uma politóloga venezuelana, com mestrado em Ecologia para o Desenvolvimento Humano (UNESR). Atualmente, cursa doutorado em Estudos da Nossa América na Fundação Centro de Estudos Latino-Americanos Rómulo Gallegos (CELARG), na Venezuela. Pesquisadora do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social.
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