Sem Lula não dá, por Gustavo Conde

A linguagem - a semântica - impõe armadilhas complexas para as quais raríssimos operadores do debate estão preparados - Lula é uma dessas raridades.

(Foto: Ricardo Stuckert)

Sem Lula não dá

por Gustavo Conde

Diante de um cenário catastrófico como este do governo Bolsonaro, o que ocorreria se tivéssemos eleições – em condições minimamente democráticas? A oposição ganharia de lavada.

Destaque-se que esta situação vai piorar muito até 2022.

Nem vou mencionar o volume de pérolas que ouvi e li de jornalistas e economistas dizendo que a economia brasileira é sólida, tem fundamentos e tenderia a melhorar com a saída da pandemia.

A especialização é daqueles ônus que fulminam a análise de conjuntura (e a cultura de almanaque dos jornalistas é a outra ponta do problema).

Mas isso é um outro debate.

O papel do jornalismo e do debate público nesse momento de tragédia é similar à própria tragédia.

Não há porque acreditar que o governo é ruim e a sociedade é boa. Para ser direito: o debate sobre o governo Bolsonaro é tão ruim e precarizado quanto o próprio governo Bolsonaro.

É cegueira que não acaba mais – e quando alguém prognostica corretamente – com as cifras da catástrofe real que nos esmaga – é imediatamente taxado de alarmista, de exagerado ou de adepto de teorias da conspiração.

A linguagem – a semântica – impõe armadilhas complexas para as quais raríssimos operadores do debate estão preparados – Lula é uma dessas raridades.

Portanto – e retomando o raciocínio inicial -, se as eleições fossem hoje, um governo catastrófico seria demolido pelo eleitor.

O fato de Bolsonaro figurar na liderança das pesquisas neste momento é emblemático: só cai que está em cima.

Traduzindo: Bolsonaro não resistiria a uma campanha eleitoral feita nos moldes concebidos em uma democracia, com 40 dias de debate.

O problema, caras pálidas, é que o Brasil não está em ‘modo democracia’. O Brasil está em ‘modo genocídio’.

O jornalismo desempenha o pior papel que jamais imaginamos ser possível – pelo péssimo nível que ele já ostentava antes da tragédia.

Aliás, foi ele, jornalismo, que nos fez mergulhar nesta tragédia.

Ímpetos democráticos, no entanto, estão sempre presentes, até nas sociedades com a imprensa mais atrasada e conivente com a corrupção real, branca e licenciada que transcorre o mundo dos negócios.

Esses ímpetos – esses espasmos – estarão presentes em 2020 e em 2022. O jornalismo de esgoto vai trabalhar como nunca para manter o atual estado de coisas. É do interesse deles que Bolsonaro prossiga, ainda que isto também seja difícil de acreditar (nós somos muito coniventes com as elites que comandam o nosso péssimo jornalismo).

Para resumir: se tivermos uma eleição em 2022, quem estiver na oposição a Bolsonaro estará virtualmente eleito.

Alguém aqui acha que o povo brasileiro resiste a desabastecimento nos supermercados? A desemprego nas alturas? A inflação galopante?

O Judiciário já faz a sua parte diversionista, estourando operações contra políticos e escritórios de advocacia às vésperas das eleições municipais.

O jornalismo aceita e ignora a cobertura sobre a catástrofe econômica que aumenta a cada segundo diante da inércia e da imperícia de um governo composto por vermes mal formados.

Uma nova safra de fake news e disparo em massa via redes sociais está sempre à espreita.

O que fazer?

Primeiro, parar de aliviar para esse jornalismo cúmplice de Bolsonaro. É preciso dar nome aos bois todos os dias.

Segundo, é preciso entender que sem autoestima, nada acontece. Aquele pensamento “ah, eles que são brancos que se entendam” não deve ser apenas deixado de lado: deve ser combatido como inimigo visceral.

Terceiro: é necessário entender uma constatação muito singela: sem Lula, não dá.

O “sem Lula, não dá” não tem a ver apenas com a pessoa física do Lula. Tem a ver com a ideia Lula.

O Brasil sofre uma grande maldição histórica (sua elite branca), mas também tem uma rara sorte de ter um Lula como maior líder de sua história, ainda vivo, forte e vendendo saúde.

Lula está no seu melhor momento, tanto físico quanto intelectual. Essa é a dor que perfura como adaga a espinha dorsal das nossas elites racistas: Lula vivo, forte e pleno de amor.

Mas, Lula sozinho não resolve nada – como ele deixou claro no seu pronunciamento histórico do Sete de Setembro. É preciso que a sociedade se mobilize, que volte a se dar ao respeito.

Essa conjunção de fatores nos joga para uma decisão histórica: ou escolheremos a vida e o futuro como seres humanos que somos ou optaremos pelo suicídio dramático dos vermes depressivos.

Jornalismo, Bolsonaro, empresários e milionários em geral estão de um lado. O povo trabalhador – que é maioria esmagadora – está de outro.

Por que temos de ter medo?

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