21 de maio de 2026

Sionismo: a rejeição esquecida, por Francisco Ladeira

Os sionistas cristãos pregavam o retorno dos judeus à “Terra Santa” com o objetivo de acelerar a 2ª vinda do Messias e o fim dos tempos.
Yakov Rabkin - Reprodução

Primórdios do sionismo: a rejeição esquecida e as alianças improváveis

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por Francisco Fernandes Ladeira

Antes do sionismo – doutrina supremacista do final do século XIX que está por trás da criação do Estado de Israel –, os setores favoráveis à saída em massa de judeus do continente europeu eram exclusivamente cristãos. Para os antissemitas, por exemplo, era fundamental que a Europa se livrasse de uma vez por todas dos judeus – seus principais alvos de alteridade negativa. Já os sionistas cristãos pregavam o retorno dos judeus à “Terra Santa” com o objetivo de acelerar a segunda vinda do Messias e, consequentemente, o fim dos tempos.

Conforme explicou o professor emérito de História da Universidade de Montreal, Yakov Rabkin, em entrevista ao canal Neutrality Studies Português, quando o sionismo surgiu, a grande maioria dos judeus o rejeitou, basicamente por três razões.

A primeira é teológica, pois o sionismo contraria os textos judaicos normativos. No Talmude está escrito que os judeus não devem retornar à “Terra Santa” antes da vinda do Messias. Além disso, os indivíduos mais religiosos não concordavam em transformar um grupo definido pela lealdade aos mandamentos divinos em uma “nacionalidade comum”.

Como exemplo emblemático da rejeição ao sionismo, o professor Yakov Rabkin lembrou que o primeiro Congresso Sionista, em 1897, só foi realizado na cidade suíça de Basileia porque as organizações judaicas alemãs pressionaram para que o evento não acontecesse em Munique.

Não por acaso, um líder religioso citado por Rabkin dizia que “o sionismo é o inimigo mais terrível que já surgiu para a nação judaica. O sionismo mata a nação e depois eleva o cadáver ao trono”.

A segunda razão para a rejeição ao sionismo é que muitos judeus europeus do século XIX haviam conquistado determinados direitos civis nos países onde moravam – principalmente na França e na Alemanha. Portanto, a última coisa que queriam ouvir era que pertenciam a uma “nação diferente”. Por isso, conceberam a mensagem sionista como uma variação da mensagem antissemita: ambas defendiam a saída dos judeus da Europa. De fato, como ressaltou Rabkin, os antissemitas eram muito simpáticos ao sionismo.

A terceira razão de oposição judaica ao sionismo está relacionada a grupos políticos à esquerda, que viam nessa doutrina nacionalista burguesa uma distração para a classe trabalhadora judaica, ou seja, algo prejudicial à causa socialista. Por essas e outras razões, o termo “sionismo de esquerda” é uma das mais gritantes contradições políticas, aquilo que os acadêmicos que gostam de linguagem mais rebuscada chamam de “oxímoro”.

Como profetizou o “pai do sionismo”, Theodor Herzl, em seu diário, “os antissemitas serão nossos aliados mais leais”. Anos depois, nazistas e sionistas trabalhariam juntos para “limpar” a Europa dos judeus. Hoje, a extrema direita global – formada por trumpistas e bolsonaristas, entre outros adeptos de movimentos obscuros – tem Israel como uma de suas principais referências.

Sobre o papel da violência nos primórdios do sionismo, Rabkin afirmou que todo assentamento colonial é marcado por atritos entre os invasores estrangeiros e a população autóctone. Além disso, muitos dos jovens colonos que migraram para a Palestina já tinham experiência em milícias de autodefesa ou em atividades terroristas em grupos revolucionários clandestinos no Império Russo. Sabiam como lutar contra um regime e contra determinados “inimigos internos”. E usaram esses conhecimentos também contra o povo palestino.

Yakov Rabkin concluiu a entrevista enfatizando que não devemos confundir Israel com os judeus. Na verdade, os valores que o Estado de Israel pratica estão muito mais próximos de um regime alemão do século passado – conhecido por promover a maior perseguição de judeus da história – do que qualquer outra forma de organização política.

Cisjordânia e, principalmente, Gaza, tragicamente corroboram a comparação feita pelo professor da Universidade de Montreal.

Francisco Fernandes Ladeira é professor da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ). Doutor em Geografia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Autor do livro “A ideologia dos noticiários internacionais – volume 2” (Emó Editora)

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