Sobre diplomacia e “fritar hamburgueres” nas montanhas do Colorado, por Fernando Horta

As Relações Internacionais do Brasil são algo muito delicado e que requer um nível de compreensão da realidade do cenário internacional que Eduardo Bolsonaro sequer compreende que não tem.

Sobre diplomacia e “fritar hamburgueres” nas montanhas do Colorado

por Fernando Horta

O Colorado é o maior estado norte-americano da região “meio-oeste”. Denver é a última e maior capital na linha que liga a costa oeste à costa leste. É um estado majoritariamente progressista, tendo votado pelos democratas nas massivamente nas últimas eleições. Denver, cujo nome é em função a disputas no século XIX entre Colorado e Kansas, é uma cidade receptiva com estrangeiros e migrantes. Fala-se espanhol como segunda língua em quase toda a região e até mesmo o português pode ser ouvido. Há um intenso fluxo de mão de obra imigrante na região, notadamente em serviços de menor paga. Quase todos os motoristas de Uber (subtrabalho precarizado) são oriundos de estados africanos com os “latinos” estando também presentes nas frotas de taxis.

Um pouco ao sul de Denver, está situada a cidade de Colorado Springs. Centro das academias de formação da força aérea dos EUA, em contraste com Denver, é uma cidade extremamente conservadora. Ali, talvez, Trump possa ter tido sua maior votação em termos percentuais. O Colorado tem três grandes instalações militares. Além da presença da força aérea, é no Colorado que estão os maiores laboratórios de pesquisa em armas químicas e biológicas e de alta tecnologia militar. As Montanhas Rochosas são uma mística na defesa dos EUA. Ali contam-se histórias sobre imensos abrigos contra ataques nucleares, local de segredos militares e de estações de comando alternativas a Washington em caso de ataques internacionais.

As Montanhas são, também, espaço de intenso turismo. Localizada em cima da cordilheira está a conhecida e luxuosa cidade de Aspen, centro do turismo de inverno na região. Os preços de hotéis nos resorts de Aspen chegam a mil dólares/dia em altas temporadas de inverno. Várias outras cidades também participam deste lucrativo negócio das neves, algumas com preços mais convidativos, embora muito longe dos padrões medianos do Brasil. Estas localidades acabam sendo construídas em volta de negócios turísticos como o WinterPark, ao lado da cidade de Fraser. Comumente, em períodos de alta temporada no inverno, estas localidades abrem “vagas” para pequenos serviços temporários. Os serviços mais “baixos” como pequena limpeza e auxiliares de cozinha são disputados pelos filhos das elites latinas que, em seus países, nunca fritaram um ovo ou arrumaram a sua cama. A troca se dá em termos de quatro a seis horas de trabalho diários nos resorts pelo custo da estadia nos tempos de “férias de inverno”. Os serviços temporários um pouco menos “degradantes” aos olhos dos “irmãos do norte”, como instrutores de sky, animadores e guias de turismo, são oferecidos em bases semelhantes para a classe média norte-americana. O fato é que a cada temporada de inverno, estas estações se tornam um ponto de demonstração de poder e riqueza capitalista em que os verdadeiros donos do capital se exibem para deleite das classes medias mundiais que os servem e bajulam fascinados.

É possível alcançar todas estas localidades por trem. A construção destas ferrovias no Colorado se deu no final do século XIX, quase que a totalidade delas foram construídas à mão. Ainda hoje é possível ver ao lado das ferrovias que passam por dentro da montanha as cidades inteiras (hoje abandonadas) criadas para abrigar famílias de trabalhadores que cavavam a montanha muitas vezes por décadas. As fotos deste sacrifício são um exemplo da romantização da precariedade do trabalho que hoje é moda no Brasil. O que é visto e vendido como “ponto turístico” é uma ode à exploração do ser humano. Inúmeras são as mortes e tragédias dentro da montanha, e as cidades dentro da pedra são bastante impactantes para quem tem algum conhecimento da história dos EUA.

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Ao sul de Denver, encontramos Aurora. Cidade que ficou tristemente conhecida pelo massacre de Columbine. Não o primeiro grande massacre de crianças armadas nos EUA, mas o que obteve primeiramente a maior repercussão. Devido a sua posição geográfica, o Colorado tem poucas horas de sol no inverno, sendo a temperatura média em torno dos 10 ou 12 graus centrígrados negativos. Tudo isto conjuntamente com o estilo “workaholic” nos EUA impele uma juventude a um certo estado depressivo. Especialmente em momentos de baixa atividade econômica ou crise. O Colorado foi o primeiro estado nos EUA a liberar a maconha e já se beneficia disto. O dinheiro dos impostos sobre o produto já ajudam a sustentar educação e saúde do estado que tem em Hollywood uma segunda importante fonte de renda. Mais da metade dos filmes dos EUA tem cenas rodadas no Colorado, conhecido por suas belezas naturais.

É em Fraser, no Colorado, nas Rochosas que ocorreram inúmeras reuniões sobre política externa entre Eisenhower, presidente dos EUA entre 1953 até 1961, e seu anti-comunista chefe do Departamento de Estado, John Foster Dulles. Eisenhower gostava de ir à sua casa e verão para discutir temas “sensíveis” e Dulles fazia suas posições políticas sempre parecerem “sensíveis” aos olhos do presidente americano. São nestas reuniões que se forjaram alguns dos maiores erros da política externa dos EUA, e chega a ser curioso que um dos maiores erros da política externa brasileira venha a ocorrer com uma menção à mesma região.

Eduardo Bolsonaro não tem nenhuma capacidade de ser embaixador brasileiro. Em qualquer lugar do mundo, mas especialmente nos EUA. Não somente porque não tem formação e conhecimento suficiente, mas principalmente por acreditar que “fritar hamburgueres nas montanhas do Colorado” seja, de alguma forma algo positivo para a pretensão do cargo. Bolsonaro não sabe absolutamente nada sobre os EUA e já se tornou fervoroso apoiador de Trump, um erro que o Brasil pode pagar caro, caso os democratas venham a vencer o pleito de 2020.

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O Brasil não é um feudo medieval em que os filhos do senhor feudal recebiam o governo de cidades inteiras sob o domínio do pai. O Brasil não é uma dinastia oriental em que os filhos do sultão são sucessores ao poder por direito terreno e divino. As Relações Internacionais do Brasil são algo muito delicado e que requer um nível de compreensão da realidade do cenário internacional que Eduardo Bolsonaro sequer compreende que não tem. Ademais, para os próprios padrões norte-americanos, a politização da política externa é algo malvisto. Por anos eles tiveram uma “bipartisanship” ou “no-partisanship foreign policy”. Não seria agora que isto iria ser bem aceito.

Se Eduardo Bolsonaro quiser voltar a se encantar com os resorts de inverno nos EUA, sugiro que a Câmara lhe dê licença para isto, de alguns meses. Pode inclusive voltar a se encantar com o luxo e o inverno em outros países sem precisar fritar hamburgueres, eis que o salário que hoje ele recebe é bastante bom. Contudo, é um erro inaceitável ter uma figura de tamanha incapacidade em um dos postos mais importantes para a geopolítica do mundo. Especialmente em tempos de tamanha incerteza internacional.

Fernando Horta é doutor em Relações Internacionais pela UnB, foi pesquisador associado da Denver University e visitou pessoalmente todos os locais mencionados no texto.